Academia anuncia categoria “filmes populares” para o próximo Oscar

O mundo do entretenimento está em polvorosa por causa da categoria “Filmes Populares” no Oscar. Será que realmente merece tanto alarde? Faz tempo que não paramos aqui na Freakpop...
"filmes populares" no Oscar

O mundo do entretenimento está em polvorosa por causa da categoria “Filmes Populares” no Oscar. Será que realmente merece tanto alarde?

Faz tempo que não paramos aqui na Freakpop para opinar sobre algum tema. Claro, que entre #MeToo, #TimesUp, a demissão de James Gunn ou até mesmo Harvey Weinstein, não tenham várias pautas que deveríamos ter comentado mas, enfim, prometemos ficar mais atentos com isso no futuro.

Ontem, a Academia anunciou a criação de uma nova categoria para a próxima edição do Oscar. “Filmes Populares” é o nome da categoria e críticos, jornalistas de entretenimento e toda minha corja decidiu comentar sobre o assunto.

Confesso que, apesar de trabalhar no setor, eu tenho uma apatia beirando a narcolepsia quando o assunto são cerimônias de premiação. Algo sobre o que acontece com a gente quando vimos como a salsicha é feita… Mas achei a oportunidade interessante para falar um pouco sobre essa divisão entre filmes populares, filmes “prestigiados” e essa baderna com premiações.

Vamos considerar que…

O Oscar perde a relevância a cada ano que passa

Isso não tem nada a ver com aquelas discussões de crítica vs público. Ou aquela babaquice de notas do Rotten Tomatoes. Ou seja lá o que a DC vai soltar no cinema que vai polarizar audiências. A grande verdade é que o Oscar tem perdido audiência anualmente.

É uma mistura de diversos fatores. Alguns anos atrás alguns culpavam a falta de diversidade. Lembra do #OscarsSoWhite? Isso chamou atenção para o fato da Academia, o corpo que de fato elege os filmes em cada categoria, ser predominantemente de uma parcela específica da sociedade. Você consegue adivinhar qual?

Depois disso, veio as discussões sobre a Academia estar afastada do dia a dia do consumidor de filmes. Junte isso com discussões sobre pirataria, crescimento da influência de produtoras chinesas em Hollywood, a crescente influência da bilheteria internacional no resultado de cada projeto e, de repente, ninguém parece muito ligado em qual filme que ninguém assistiu vai levar aquela action figure do cara pelado de ouro.

A grande verdade é que o Oscar só se tornou o prêmio mais prestigiado da indústria porque ele se rotulou assim. Para um filme concorrer ele precisa atender uma série de demandas específicas, como por exemplo, ser exibido em pelo menos uma sala de cinema de Los Angeles até 31 de Dezembro do ano anterior à cerimônia.

Outro ponto importante. A Academia não é uma espécie de Conselho Jedi de Cinéfilos especializados em Sétima Arte, é um grupo de profissionais da indústria de entretenimento que anualmente são o público alvo de campanhas de “para sua consideração” cada vez mais agressivas. Eleitores do Oscar frequentemente ganham presentes dos estúdios, jantares e almoços com famosos, festas exclusivas e todo tipo de jabá que só não é chamado de propina porque… motivos. O Oscar não chega no nível de palhaçada do Globo de Ouro (a imprensa estrangeira que vota no Globo de Ouro poderia ensinar uma coisa ou outra aos nossos deputados), mas claramente não existe grande mérito artístico no processo de seleção.

Inclusive, tipicamente a Pixar leva o prêmio não porque objetivamente podemos dizer que seus filmes são melhores que a competição, mas porque uma grande parcela dos membros votantes da academia não têm saco para animações e votam conforme a popularidade. Interessante né? Bom, já que estamos falando sobre “filmes populares”.

As pessoas estão indo menos ao cinema

Você sabia que boa parte das pessoas estão indo menos no cinema? Pesquisas recentes mostram que a maior parte do público vai poucas vezes para quase nunca ao cinema por ano. Os motivos variam, menos renda disponível, horas mais longas trabalhando, mais opções de entretenimento, preços caros de ingresso, ou até mesmo, uma grande variedade de opções disponíveis em casa. Afinal, no longo prazo, não sai mais em conta investir em uma TV bacana e uma conta da Netflix? O que você paga por mês em 2 ou 3 plataformas de streaming cobre o custo de um casal comprando ingressos para o cinema.

Consequentemente, boa parte do público, este que vai de vez em nunca, acaba indo no cinema só para os grandes eventos. Hoje lê-se Star Wars, Marvel, ou DC. Filmes de quadrinhos, franquias consolidadas, shows de efeitos especiais que justificam colocar um par de calças e sair para a rua para ver numa telona. Não é difícil somar o fato de que o Oscar premia filmes que têm pouquíssimo público com uma audiência que não vai ter interesse em acompanhar a premiação.

Ué. Mas se ninguém está assistindo esses filmes, porque os estúdios investem nessas campanhas de consideração?

Prêmios como o Oscar afetam quanto que um filme consegue faturar

Não tem muito segredo. Um filme, só ao ser nomeado, consegue faturar até 20 milhões de dólares a mais no faturamento. Este número é ainda maior para filmes que levam para casa uma estatueta. E no caso de atores, pelo menos até a época onde quem aparecia no cartaz era mais importante do que a franquia ou o super-herói, ao vencerem um Oscar imediatamente se tornavam mais valiosos e procurados.

Você já deve ter ouvido falar da maldição do Oscar. Quando um ator começa a fazer várias escolhas questionáveis depois de vencer a estatueta. Provavelmente, ao chegar nesse ponto do texto você está começando a desvendar o segredo. Não existe nada de maldição.

A verdade, é que quando um ator ficava mais em voga, caindo na graça do público, chegava a hora dos estúdios tirarem da gaveta contratos de mais de um filme. Um vencedor do Oscar é uma excelente ferramenta publicitária para ajudar a tirar da sarjeta um filme que vai ser massacrado pela crítica ou não vai atrair o público. Halle Berry ganhou o Oscar por A Última Ceia, e na sequencia fez Na Companhia do Medo e Mulher Gato.

Ou seja, faz sentido investir em filmes “artísticos” para o Oscar, já que os filmes populares, esses que são só entretenimento, costumam mandar bem no $$$. Mas como aquelas figuras clichê de ternos, fumando charutos em suas imensas mesas decidem qual é qual?

A diferença entre arte e entretenimento sempre foi arbitrária

Tudo bem. Suponha então que, apesar de ser toda essa bagunça nos bastidores, ainda existe uma certa casta de filmes que são escolhidos para consagrar a cerimônia.  Não podemos imaginar que um prêmio que celebrou alguns dos mais icônicos filmes da historia colocaria algo como Vingadores: Guerra Infinita ou Batman vs Superman para competir nos prêmios principais.

Mas quem decide essa distinção? O que é considerado alta arte ou entretenimento muda conforme o tempo. Hip hop e rap eram considerados a morte da boa música antes de serem resignificados como uma manifestação artística genuína e uma forma de expressão de um grupo marginalizado na indústria musical. William Shakespeare era autor de peças de teatro, forma de entretenimento que na época era considerada coisa de povão. Até mesmo Operas, hoje símbolo máximo da cultura de elite, antigamente era considerado uma forma extremamente inferior de música, indigna de ouvidos refinados (pensa naquele seu amigo roqueiro chato que adora falar sobre funk).

Você já está começando a perceber que a diferença essencial entre o que é considerado arte e o que é só considerado entretenimento tem um pézinho no preconceito né? E é aqui que chego no mais próximo de uma conclusão que esse devaneio todo vai ter.

A categoria “Filmes Populares” pode ser uma sacada de gênio

Moonlight é um filme fantástico. É uma análise sensível sobre o processo de desumanização que as pressões das expectativas da masculinidade tóxica exercem sobre o indivíduo marginalizado e o fardo que ele carrega por não ter coragem de viver sua vida de uma forma libertadora. É um longa que conta a história de um negro de periferia homossexual que reprime totalmente esta faceta de sua personalidade para se tornar um bandido, porque só assim ele sobreviveria em seu mundo.

Mas ao mesmo tempo, por mais que tenha sido uma obra importantíssima para a questão da diversidade e fez um sucesso considerável na bilheteria após vencer o Oscar, uma parcela significativa do público não assistiu o filme.

Em compensação, Pantera Negra, não só foi um dos filmes de maior bilheteria da história do cinema, mas como também trouxe à tona questões como diversidade de elenco, diversidade de diretores, afro-futurismo, questões sobre colonialismo, identidade racial vs identidade cultural. Sim, entendemos que parte disso vem de cálculos estatísticos de tendências de consumo, e sim, de certa forma estamos assistindo uma multinacional de entretenimento se apropriar de uma questão social para vender ingressos e bonequinhos da Marvel.

Mas, entendo também que parte deste cinismo vem de vosso autor, que racialmente pode ser considerado um pote de maionese no meio de uma nevasca no dia da convenção de albinismo. E mesmo sabendo tudo isso, é surpreendente ver nas redes sociais o volume colossal de pais felizes que seus filhos estão assistindo um super herói que tem a cor deles, que explora a cultura africana com a mesma criatividade e respeito que Senhor dos Anéis fez com a cultura europeia, que trouxe um senso de orgulho e comunidade.

O mesmo pode ser tido de Mulher Maravilha, que apesar de ter alguns problemas no terceiro ato, foi um filme que foi um marco para o público feminino.

Então questionamos, se estes filmes, por mais que sejam feitos para ser entretenimento, sem grandes pretensões artísticas, os tais “filmes populares”, podem causar tamanho impacto cultural e social. E melhor que isso, um impacto cultural e social positivo. Que impulsiona a discussão sobre o papel do filme na consciência coletiva. Não merecem ser celebrados na tal cerimônia do Oscar?

Pode ser uma boa, hein?

Até a próxima!

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Editor-chefe da Freakpop. Adora cinema, mas odeia a palavra cinéfilo. Leu quadrinhos demais na vida e tem uma capacidade muito limitada de entender a realidade. Tudo que não explica com Máquina Mortífera, explica com Highlander. Sabe tudo sobre Soul Reaver e Crônicas de Gelo e Fogo. Seu signo é estegossauro.

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