Freakpop debulhando o Oscar 2014: Broken Circle Breakdown

Começa mais uma temporada praticamente sem fim de premiações, e mais uma vez Doktor Brüce, Lady Freak, Sam Bass e nosso novo integrante Carlus Freek Keeks estão aqui para...

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Começa mais uma temporada praticamente sem fim de premiações, e mais uma vez Doktor Brüce, Lady Freak, Sam Bass e nosso novo integrante Carlus Freek Keeks estão aqui para oferecer críticas de todos o filmes de destaque da temporada para te fazer parecer entendido do assunto e impressionar seus amigos! O concorrente à estatueta de melhor filme estrangeiro é: Broken Circle Breakdown – Bélgica

O que acontece quando colocamos um cowboy, figura emblemática na alma cultura americana, oriunda do ambiente árido e hostil do sul dos EUA no século XIX, numa terra livre de conflitos, dotada de um Estado de bem-estar social impecável, de números altos em IDH e renda per capita, reconhecida por bons vinhos e chocolates? Se adicionarmos o Felix Van Groeningen (diretor de Steve + Sky, de 2004, e de De Helaasheid der Dingen, de 2009) numa cadeira com um alto-falante, teremos Alabama Monroe (The Broken Circle Breakdown, 2013).

O longa belga oferece uma carona selvagem num Ford F100 – com cinto de segurança e atenção aos limites de velocidade – que explorará a trama de conflitos que une Didier Bontinck (Johan Heldenbergh, protagonista de Aanrijding in Moscou, de 2008, e Steve + Sky, de 2004), Elise Vandevelde (Veerle Baetens, protagonista do seriado Code 37) e a filha do casal, Maybelle (Nell Cattrysse). À bordo, a incrível BCB Band, uma excelente direção artística, e uns hillbillies hipsters e rockabillies à la baixo Augusta.

O ponto de partida da história é o diagnóstico de câncer de Maybelle. Este fato se torna, ao longo do filme, o epicentro do passado e do futuro de Didier, que toca banjo numa banda local de bluegrass (uma das raízes do que hoje conhecemos por country), e de Elise, tatuadora. Ambos conheceram-se no estúdio de tatuagem onde ela trabalhava, e desenvolveram instantaneamente uma atração um tanto platônica, que encontrava na admiração de ambos pela cultura americana sua veia mais prolífica. O casal se reencontra num bar durante um show dele. Seguem para a casa de Didier, uma espécie de chácara abandonada (grunge hype total), onde consumam intensamente seu amor e fortalecem seus vínculos afetivos. Tudo lindo, até que Elise – que, neste ponto também canta na banda de bluegrass do marido – anuncia sua gravidez. Didier vacila em aceitar o fato, mas acaba fazendo-o de forma complacente. Nasce então Maybelle, que recebe todo o carinho e aconchego de um casal feliz. A constatação do câncer da garota e sua morte subsequente, porém, faz com que este mar de rosas se destile num poço de decepções: Elise e Didier se mostram cada vez mais rarefeitos num amor que já não encontra mais razões de ser. Elise muda seu nome para Alabama. Didier tenta sobrepor-se às barreiras que os separam, principalmente no que tange suas crenças (o fato de Elise acreditar em poder reencontrar a filha atormenta profundamente seu ateísmo), sem muito êxito. E as tensões culminam numa overdose de medicamentos ingerida por Elise. Acatando à decisão do médico pela eutanásia, Didier, junto à banda, dedica o clássico do gospel americano “Where the Soul of a Man Never Dies” à amada no leito de morte.

O grande êxito do filme fica por conta de sua narrativa: ela abdica-se de uma linearidade sintética, e os fatos são costurados (num trabalho incrível de edição, por sinal) por afinidade sensorial ao invés de cronologia. As transições acompanham as emoções compartilhadas por Elise e Didier, e contam sua história desta forma – fazendo-a revelar nuances valiosas, que talvez se esconderiam mais facilmente por trás de uma timeline. A fotografia, os cenários e os figurinos também são primorosos, detalhistas e, em sua maioria, precisos em servir um corpo imagético às emoções que se desvelam pela trama.

A trilha sonora é uma maravilha à parte: canções clássicas compostas por A.P. Carter, Doc Watson e obras icônicas do folclore americano, todas interpretadas pela banda de Didier e Elise dentro do próprio filme, cercadas por transições de cenas brilhantes. E um fato extraordinário: os integrantes da The BCB Band, como é nomeada nos créditos, é formada por músicos, e realmente executa as composições que fazem parte do soundtrack do filme. Esta excelente banda, por sinal, chegou a realizar algumas turnês até.

Mas a inconstância de Didier como redneck foi um tropeço drástico de Van Groeningen. Aquela figura brutal e implacável, rude e intransigente, características inerentes a músicos de honky tonk music como Hank Williams e Fats Domino, ou mesmo do bluegrass, como Jimmy Martin e Bill Clifton, perdem completamente o lastro dentro do personagem de Heldenbergh. Nem mesmo o visual adotado, a barba, o cabelo, as camisas, a devoção à América, nem o próprio George W. Bush saudando o povo americano com o tradicional “God bless America” na TV de Didier conseguem fazê-lo expressar a autenticidade hillbilly que fica proposta no ar. Nada fixa solidamente as características do personagem dentro do molde o qual se pretende adaptar. E esta rarefação fica flagrante em algumas cenas que fariam a June Carter rir: Elise acusa Didier e começar a beber depois de ser pai, e também julga-o por não aceitar de prontidão sua paternidade (alguém aí tem coragem de fazer drama com isso numa reunião de família dos Cash?). O próprio ateísmo dele soa estéril: grande parte das composições bluegrass, honky tonk e outras raízes do country tratam especificamente de temas cristãos – exatamente como a maioria das músicas interpretadas pela banda de Didier.

Em suma, Van Groeningen transforma uma história medíocre numa experiência estética magnífica. Consegue desafogá-la de lugares-comuns com maestria. Mas, num detalhe, acaba por pendurá-la numa arara de camisas de flanela xadrez.

Até a próxima,

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