Chappie – Como tirar “Inteligência” de “Inteligência Artificial”

Chappie é a nova iteração do mesmo roteiro de sempre de Neil Blomkamp. Ok, podemos começar a chamar o Neil Blomkamp de M. Night Shyamalan da década de 2010?...

Chappie é a nova iteração do mesmo roteiro de sempre de Neil Blomkamp.

Ok, podemos começar a chamar o Neil Blomkamp de M. Night Shyamalan da década de 2010? Um diretor que começou aclamado pela crítica e apoiado por nomes poderosos da indústria até se revelar como um cara que só sabe reciclar o mesmo truque? Neste caso, o “truque” é o mesmo roteiro de sempre com uma nova premissa de ficção científica. Na teoria, Chappie é uma exploração da primeira instância de inteligência artificial em uma sociedade passando por mudanças sociais. A introdução de uma nova consciência compara a relação entre cria e criador que humanos tem com Deus a de humanos que viriam a ter com robôs. Na prática, Blomkamp queria muito refazer Um Robô em Curto Circuito 3  com mais Appleseed e com um Metal Gear na luta final.

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Appleseed foi uma “influência”.

1251623 - Chappie

O longa começa em uma Joanesburgo ano que vem, onde frente a uma gigantesca onda de crimes, o departamento da polícia contrata unidades automatizadas de combate ao crime chamadas Scouts. O inventor da unidade, Deon (Dev Patel), alterna seu tempo entre trabalhar e aprimorar as unidades, pesquisar e desenvolver inteligência artificial e enfrentar as ameaças e ciúmes de Vincent (Hugh Jackman), o engenheiro-chefe do projeto rival. Um grupo de criminosos desesperados (interpretados por Ninja e Yolandi Vi$$er do grupo Die Antwoord), sequestra Deon em busca de uma forma de desativar os Scouts, mas mudam de ideia e pedem para ele criar um robô para eles. Usando uma unidade desativada e um protótipo de inteligência artificial, ele cria “Chappie“, o primeiro robô consciente. Com o intelecto e inocência de uma criança, Chappie começa a aprender sobre o submundo urbano da cidade, como ser um gangster e eventualmente, como descobrir seu lugar no mundo.

1251623 - Chappie

O lance do Metal Gear não era brincadeira...

O lance do Metal Gear não era brincadeira…

Sim, a premissa de “robô ganha inteligência artificial e todo mundo fica vagamente filosófico” é completamente batida (para uma abordagem praticamente idêntica desse filme, só que melhor estruturada, assista Soldado do Futuro de 2013). E infelizmente, Blomkamp não traz muita novidade além de uma boa dose de cultura zef sul-africana. Como sempre, o diretor sofre de seu conflito interno entre explorar temas sociais por meio da ficção científica e mostrar que explosões e tiroteio são maneiros. Aliás, boas ideias mal executadas é o ganha pão do diretor, ansioso por mostrar para o mundo uma infinidade de cenas bacanas que ele adaptou de diferentes animes e games, o enredo de Chappie dá saltos de lógica e a trama se desenvolve de forma pouco natural. Chappie, por existir em um chassis danificado, terá poucos dias de vida. Isso faz todos os personagens ao seu redor mudarem de opinião e motivação em velocidade esquizofrênica (Ninja vai de criminoso ganancioso para pai amoroso para herói de ação lutando contra o chefe final no tempo que leva para a Americanas.com entregar um celular novo).

NINJA;Jose Pablo Cantillo

 

Apesar do ritmo infantil, da atuação semi-incoerente de Ninja e Yolandi e dos personagens rasos (nem começamos a falar de Hugh Jackman no papel de “militar extremista que é contra inteligência artificial e só que quer fazer armas”), os efeitos visuais de Chappie são marcantes. Os robôs parecem que funcionariam de verdade e Sharlto Copley está excelente, tanto na atuação física feita via motion capture quanto nas diferentes fases da curta, porém variada, vida de seu personagem principal.

YO-LANDI VISSER

 

 

Infelizmente, Chappie não traz nada genuinamente novo para o gênero e sua tentativa de misturar comentário social, ficção futurista hiper-violenta, zef e evolução tecnológica faz uma mistureba rasa e pouco satisfatória de temas. A necessidade do diretor de inserir todos os personagens da sua receita de bolo, somado com todas as ideias que ele gostaria de abordar, garantem que nada vai ser abordado com o tempo merecido (Chappie resolve o grande dilema da mortalidade em menos tempo que leva para o título do filme aparecer na tela). Não ajuda que o diálogo tem momentos que comparativamente, deixam Call of Duty e Gears of War como exemplos sofisticados de erudição verbal.

chappie-neil-blomkamp-ninja-die-antwoord

 

Por enquanto, Blomkamp não conseguiu recapturar o impacto de Alive in Joburg e Distrito 9, é um diretor talentoso que sofre pela imaturidade de seus roteiros e da priorização de cenas legais no lugar de consistência de trama. Para facilitar os próximos filmes que o diretor irá lançar, criamos o guia Blomkamp para ficção científica:

“_____________ é um inocente e bem intencionado habitante de uma ___________ (ou Joanesburgo), quando ____________ faz com que ele fique com ___________ ele terá somente 5-10 dias para solucionar seu ___________ antes de ser capturado por uma corporação maligna e seu agente militar psicótico. Ao longo de sua jornada pelo submundo criminoso de ___________ ele terá de lidar com soldados mercenários e gangues criminosas ultra violentas. Primeiro ato contado estilo documentário, segundo ato é onde fica interessante, terceiro ato é onde qualquer ideia é jogada pela janela em prol de uma cena “inspirada” em algo que o Masamune Shirow escreveu.”

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E Neil, na boa, existe uma diferença entre homenagear o trabalho de Shirow e ter que fugir do oficial da justiça.

Chappie estreia dia 16 de abril no Brasil.

Até a próxima!

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Editor-chefe da Freakpop. Adora cinema, mas odeia a palavra cinéfilo. Leu quadrinhos demais na vida e tem uma capacidade muito limitada de entender a realidade. Tudo que não explica com Máquina Mortífera, explica com Highlander. Sabe tudo sobre Soul Reaver e Crônicas de Gelo e Fogo. Seu signo é estegossauro.

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