[CRÍTICA] A Bruxa: religião e misticismo se misturam e se confundem

Um terror misturado com suspense, bruxas, religiosos fanáticos e uma floresta obscura. Bem vindo ao cenário de A Bruxa! A Bruxa. Nome simples. Trama rica. Um pouco claustrofóbica, mesmo...

Um terror misturado com suspense, bruxas, religiosos fanáticos
e uma floresta obscura. Bem vindo ao cenário de A Bruxa!

a-bruxa-universal-studios-04A Bruxa. Nome simples. Trama rica. Um pouco claustrofóbica, mesmo se passando em campo aberto. Nova Inglaterra, 1630. A família de Thomasin é expulsa de sua colônia, por conta do fanatismo de William, seu pai. Em busca de um lugar para chamarem de seu, encontram um campo na orla de uma floresta e resolvem fincar o cajado e, BAM! Nova casa para os malucos religiosos.

Um pulo no tempo e vemos todos se adaptando ao isolamento e a situação de párias. Thomasin, Caleb, os gêmeos Mercy e Jonas (duas pestes que merecem umas palmadas bem dadas, aliás), e Samuel, um lindo e fofo bebê, gerado e nascido no ostracismo religioso e não batizado, por conta da rixa com a colônia (ponto curioso: o líder da comunidade é interpretado pelo mesmo ator que fez a Morte em Supernatural. Que depois de morrer na série resolveu voltar como um peregrino hiper protestante).

Como o trailer já entrega, Samuel some misteriosamente. E tudo a partir de então recai sobre os ombros de Thomasin, que estava cuidando do bebê na hora em que “um lobo o roubou”. Uhum… Kate se transforma em uma mulher amargurada e quer se livrar da filha, enquanto Will torna tudo pior ao recitar e ensinar a todos que nascemos no pecado, continuamos pecadores e vamos todos queimar no mármore do inferno… Ops, religião errada…Seu fanatismo se torna fatal, principalmente para Sam e trágico para sua família como um todo, e muito hipócrita, já que o maior pecador de todos é ele. Na verdade, é possível traçar vários dos 7 Pecados Capitais nos personagens:

[highlight color=red ]Ira – Preguiça – Luxúria – Inveja – Orgulho[/highlight]

A melhor sacada do filme é que não entrega nada e, por mais que tudo pareça óbvio, os olhos podem enganar. O roteiro acerta em cheio. O clima lembra muito A Vila (2004), mas para por aí. Sem inovar na história, A Bruxa consegue ainda assim prender a atenção e entregar um bom material que, apesar de não poder ser categorizado plenamente como terror, o clima proposto agrada e convence. Sabe Deus com o quê Stephen King tanto se assustou com esse filme, já que há boas surpresas e cenas densas, mas não espere grandes sustos.

A fotografia é sufocante de tão bem feita: mesmo em um espaço aberto, com uma fazenda ampla e floresta, os ângulos de câmera mostram que, na verdade, é uma situação opressora, pela inevitabilidade da situação. Estão presos em pleno campo aberto. A direção de Robert Eggers não peca e se mostra coesa em todos os momentos. O mal se mistura com o bem, ou melhor, com o pretenso bem, e nos faz perguntar: o que teríamos feito no lugar de Thomasin? Essa bruxa aqui teria tocado o terror e deixado todo mundo em polvorosa…. (Risadas maléficas). Os roteiristas realmente fizeram a lição de casa ao compor o ambiente histórico e seus costumes, o que apenas enriquece a produção.

Preste atenção nas referências presentes em A Bruxa, que homenageia famosos filmes do gênero e inclui em sua identidade toda a bagagem conquistada pelo cinema com a temática bruxaria ao longo de seus 90 minutos.

Chame Black Phillip, reze com Will, enlouqueça com Kate, seja acusado com Thomasin e fique livre de preconceitos. A Bruxa não é um filme que entrega tudo de bandeja, toma seu ritmo, destrincha as relações humanas e caminha para um desfecho não tão inovador, mas com certeza bem feito.

Conselho para apreciar melhor a película: leve em consideração a temática da época, a realidade sofrida dos personagens e suas privações, onde manteiga era um luxo gigantesco, ser livre era mitologia e onde a opressão (pessoal, sexual, religiosa e familiar) era regra certeira.

Não estranhe se sentir uma certa semelhança com O Anticristo (2009), de Lars Von Trier. Os animais demoníacos são citados em ambos, explorando o pecado e o chamado do mal, assim como as cenas fechadas nos rostos dos personagens.

O jogo de câmera e os efeitos (serão ilusão de ótica?) no rosto de Thomasin na cena final são muito bem arquitetados. Aliás, o que mais agrada na película toda são esses jogos de câmera aliados à uma edição primorosa, edição de som muito bem montada e atuações coesas. Harvey Scrimshaw dá um verdadeiro show na pele de Caleb, dá vontade de enfiar a mão na cara de Kate Dickle no papel de Kate (ok, buguei), e Ralph Ineson consegue expressar bem a confusão e o conflito de Will. Mas quem comanda esse show de horrores é Anya Taylor Joy, que com uma atuação bem simples e sem caras e bocas caricatas consegue segurar o rebolado em cena.

A Bruxa já está em cartaz nos cinemas e merece sua atenção.

Muitas gargalhadas de bruxa para você e até a próxima!

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