CRÍTICA | Animais Noturnos: Pior do que a realidade é o poder da imaginação

Animais Noturnos brinca com a mente humana e mostra o quanto a nossa imaginação pode e é traiçoeira Uma galeria de arte. Uma bela mulher. Uma mansão muito bem...

Animais Noturnos brinca com a mente humana e mostra o quanto a nossa imaginação pode e é traiçoeira

animais-noturnos-tom-ford-critica-1Uma galeria de arte. Uma bela mulher. Uma mansão muito bem organizada. Um casamento distante. Noites sem dormir. Estes são os elementos que formam Susan Morrow (Amy Adams), uma dona de empresa que esconde sua tristeza e “pobre” vida por trás de sua beleza incomparável. Uma beleza que hoje reflete seu sucesso, mas que um dia fora comum em um passado que lhe assombra.

Separada há 20 anos de seu ex-marido, Edward Sheffield (Jake Gyllenhaal), Susan lida com seu casamento superficial com Hutton Morrow (Armie Hammer), um executivo que, com pouco tempo em tela, representa o clichê dos relacionamentos falsos: excesso de viagens “à negócios” e um falso interesse com as coisas de sua esposa. Isso é o suficiente para contrastar com o que Susan está por viver ao receber o livro Animais Noturnos escrito por seu ex-marido. Suas noites de insônia e conflitos atuais rivalizam com a brutalidade de um enredo fictício que mudará, de vez, a vida de Susan.

No livro embarcamos então em uma história repugnante. Durante uma uma viagem de carro a noite com sua família, Tony Hastings (Jake Gyllenhaal), sua esposa Laura Hastings (Isla Fisher) e sua filha India Hastings (Ellie Bamber) entram em uma emboscada comandada por Ray Marcus (Aaron Taylor-Johnson). No meio do nada em uma estrada que nem sinal de telefone tem, Laura e India são sequestradas enquanto Tony é largado em um lugar qualquer.

Ao acordar, sozinho e machucado, ele procura ajuda. Ao conseguir chegar no policial Bobby Andes (Michal Shannon), reencontram as duas, porém, é tarde demais. Adentramos, então, a fundo na mente de um pai ensandecido por vingança. Tony não tem medo de seus atos e muito menos do que agora ele é capaz de fazer. Bobby, por sua vez, é o melhor aliado que Tony poderia ter, já que não lhe resta muito tempo de vida e, como policial corrompido pelo poder, ele é apto a adulterar o protocolo de investigação para atender o íntimo desejo de Tony por vingança.

A história parece simples, correto? Mas não se engane. Animais Noturnos vai além disso. A forma como Ray Marcus captura a família e se safa da policia sem deixar rastros é a grande cereja de bolo nesta trama. Aaron Taylor-Johnson dá vida ao maior caipira filho de uma puta que já vimos no cinema e sua audácia, frieza e poder de manipulação é de deixar qualquer um enojado. Somado às fortes cenas de violência, a história do livro é contada em partes, pois a leitora, Susan, não consegue encarar as duras palavras que explicitamente descrevem a história de Tony. Em paralelo, ela tenta compreender o que inspirou o seu amoroso ex-marido a escrever o livro. Seria o relacionamento dos dois no passado?

Com um mix de culpa, arrependimento e muita solidão, Susan segue até o fim para saber como o livro termina e até onde Tony chegará em sua retaliação na ficção. Enquanto isso, ela relembra, saudosamente, elementos de seu namoro com o autor para compreender a mensagem que ele queria passar ao enviar o livro. Seria uma resposta indireta e à altura pelo término dos dois?

Animais Noturnos surge no circuito de 2016, como um dos melhores longas do ano. Dirigido por Tom Ford, o roteiro foi adaptado por Ford baseado no livro “Tony and Susan” de Austin Wright. Preparem-se para questionar a capacidade humana de manipulação e represália. Se você gostou do longa Garota Exemplar (2014), este filme é para você. De forma crua, com uma direção de arte impecável e diálogos assustadoramente inclementes, a mente do espectador é desafiada junto à imaginação de Susan ao dar vida aos seus piores arrependimentos e inseguranças. Um longa tão belo quanto a clemência existente em seu roteiro para deixar uma mensagem sobre a mais difícil jornada que o ser humano procura viver: ser feliz.

 

(Update em 09.01.2017)

O longa fez parte dos filmes da 40ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo em 2016, e foi premiado no Globo de Ouro 2017, pela atuação de Aaron Taylor-Johnson como Ator Coadjuvante.

Küsses,

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Tatá Snow

“Crítica” de cinema – prefiro ‘analista de entretenimento’, fanática por comédias românticas e viciada em Sex and The City. Ah…#TeamCap

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