CRÍTICA | Assédio (Globoplay) - Temporada 01

CRÍTICA | Assédio (Globoplay) - Minissérie merece a sua atenção

A Globoplay acertou em cheio!

Primeira produção original do canal streaming Globoplay mostra a assustadora realidade do médico predador sexual que ficou anos na impunidade até que a verdade lhe arrancou de sua zona de conforto

Não dá para ficar apenas incomodado com as primeiras imagens da minissérie Assédio, que a Globoplay colocou no ar em setembro passado. Uma metáfora visual sobre o estupro ao som de Silent Night já vai preparando o espectador para conhecer uma história do renomado médico que era um predador sexual da pior espécie: não é ficção mas uma assustadora realidade.

Assédio é baseado no livro A Clínica: A Farsa e os Crimes de Roger Abdelmassih, de Vicente Vilardaga. Como dizem os produtores, a obra é livremente inspirada na história real para evitar problemas jurídicos. Afinal, num país que deixou esse estuprador de avental branco, acusado e condenado pela violência sexual em mais de 40 pacientes de sua clínica de fertilização, de cumprir suas penas de mais de 200 anos em casa em vez de uma cela aconchegante, tudo pode ser usado contra a decência.

Mas é difícil ficar neutro numa história como essa. Você assiste filmes sobre violência sexual, estupros e crimes violentos, mas seu inconsciente sabe que tudo aquilo é ficção, para não afetar sua própria realidade. Você pode ficar imaginado situações limites como essas, mas tudo acaba ficando no imaginário, provavelmente para não sentir a revolta que é conhecer uma história como a de Roger Abdelmassih.

A história de Maria Camargo, autora da minissérie, vai construindo sem pressa o perfil do predador ao longo de vários anos, a partir do ataque de Stela Nascimento, num papel que parece ter sido feito para Adriana Esteves. Toda iluminada ao receber a notícia do Dr. Roger Sadala (Antonio Calloni) de que seu tratamento lhe daria o filho que tanto queria, o público começa a ver sua energia começar a falhar quando acorda do procedimento médico. Ela percebe que foi estuprada por aquele que parecia o homem santo que lhe daria o milagre da vida. O pesadelo apenas começara…

Outros casos vão se seguindo em paralelo à narrativa construída pela jovem repórter Mira Simões (Elisa Volpato, de Mulher de Fases). Ela é a personagem que investiga os bastidores da clínica de Sadala, a partir de um telefonema anônimo do que parece ser uma das primeiras vítimas do doutor predador. O que mais chama a atenção na história é como cada uma das vítimas se relaciona com a violência sofrida. O ponto em comum em todas as narrativas é a falta de apoio de seus maridos que, em raros casos, querem resolver no braço todo o ultraje sofrido. Mas são os seus depoimentos gravados por Mira que trazem luz às trevas geradas por Sadala (pode ler Abdelmassih).

Cada um deles se contrapõe ao do próprio Roger, quando as denuncias começaram a estourar. É assustador vê-lo abrir a boca para dizer que estava ajudando aquelas mulheres que o acusavam. Se foi proposital ou não, o monólogo lembra os discursos de Lula quando começou a ficar acuado nas investigações da Operação Lava A Jato. É claro que Antonio Calloni tem “culpa” disso.

O ator, que recentemente foi o chefe das investigações da Lava a Jato no filme Policia Federal, assume na minissérie o monstro real do predador sexual e estuprador de avental branco. Ele mergulhou direto no personagem. Pesquisou sobre os depoimentos e levou para a telinha o perfil de um sociopata “charmoso”, que conseguia convencer as pessoas que estava ali para o bem delas.

Calloni empresta de Lula o tom em seu depoimento à Justiça, quando tenta desmerecer o depoimento de uma de suas acusadoras, exatamente como o ex-presidente fez em alguns de seus depoimentos à Lava A Jato. Tenta culpar os outros por seus próprios desvios de conduta, mas o resultado é o esperado: a justiça o condena a 279 anos de prisão.

Ironicamente, Assédio termina referendando a realidade. Sadala consegue fugir, é preso no Paraguai, mas consegue o milagre jurídico de ir preso em sua própria casa. Não passou nenhuma noite numa prisão convencional onde, com certeza, não estaria vivo para contar a história.

Melhor assim, por que a série grita alto sobre a impunidade em casos de violência sexual. Ela tem que ser denunciada, tem que ser abertamente exposta, para que outras violências desse tipo, não caiam sobre nossas cabeças. Parabéns à Globoplay por trazer essa preciosidade dramática para o nosso dia a dia. Merece ser vista e exposta nas ruas, para que nenhum predador mais se esconda nas trevas…

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Nota:
10
Nota:
O bom
  • Adriana Esteves é o farol que guia essa história assustadoramente real.
  • Antonio Calloni faz um predador sexual não real como o verdadeiro.
  • O personagem real não pode sair na rua... Tem um Alvo em suas Costas... merecidamente.
O ruim
  • Não há!
  • Direção
    10
  • Elenco
    10
  • Roteiro
    10
  • Produção / Fotografia
    10
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