[CRÍTICA] Batman vs Superman: A Origem da Justiça

Empolgados para ver Batman vs Superman: A Origem da Justiça? É melhor vocês sentarem… O que dizer sobre Batman vs Superman: A Origem da Justiça? A expectativa já excedia a...

Empolgados para ver Batman vs Superman: A Origem da Justiça?
É melhor vocês sentarem…

batman-vs-superman-a-origem-da-justiça-03O que dizer sobre Batman vs Superman: A Origem da Justiça? A expectativa já excedia a segunda vinda de Cristo e incendiou as discussões de Marvel vs DC a ponto de fazer bate boca de política no Facebook parecerem debates civilizados. Com um imenso hype, uma infinidade de trailers e informações já divulgadas e tendo como inspiração O Retorno do Cavaleiro das Trevas, de Frank Miller, o santo padroeiro de leitores casuais de quadrinhos que precisam citar um autor famoso, será que o longa atende tais expectativas?

Curto e grosso? Não. Infelizmente não.

A trama começa 18 meses após a batalha de Metropolis na conclusão de O Homem de Aço (2013). Bruce Wayne (Ben Affleck) testemunhou o combate devastador entre Superman (Henry Cavill) e Zod (Michael Shannon) e, em meio aos escombros do prédio da Wayne Financial na cidade, desenvolve uma sede por justiça e vingança que só pode ser saciada com bat-violência. A presença do último filho de Krypton ainda é um assunto polêmico no mundo e suas ações são discutidas se de fato são benéficas ou não. Neste atrito, surge Lex Luthor (Jesse Eisenberg), uma versão maligna de Mark Zuckerberg que desesperadamente precisa de Rivotril para não ser tão cansativo. Nesta complexa tramoia, o caminho para o duelo entre Batman e Superman é estabelecido.

O diretor Zack Snyder tem uma necessidade quase fetichista de provar que “seu” universo DC é diferente do colorido universo Marvel nos cinemas. Para tal, ele usa e abusa do filtro “asfalto molhado” nas lentes para dar ao longa pelo menos 49 tons de cinza diferentes na cinegrafia. Batman vs Superman enfrenta o monstruoso desafio de estabelecer um universo inteiro nas telonas usando um único filme e, nesta empreitada, o roteiro erra feio. A quantidade de informações e premissas que precisam ser estabelecidas para finalmente colocar os dois maiores titãs dos quadrinhos cara a cara para o derradeiro confronto criam uma verdadeira bagunça de ideias superficiais, caracterizações rasas e resquícios de trama que não chegam a lugar nenhum.

Existe uma clara intenção de exibir os heróis da DC Comics como seres endeusados e o filme pouco se esforça em oferecer elementos para humanizá-los. Este panteão, que gradualmente tomará forma nos próximos longas da Warner Bros., é constantemente acompanhado de uma exaustiva trilha sonora, assinada por Hans Zimmer e Junkie XL, retumbante que não dá trégua para os ouvidos da audiência e deixa BvS com um bizarro ar de ópera de Wagner, tanto pelos sempre exagerados enquadramentos do diretor, quanto pela versões simplistas apresentadas de seus protagonistas.

Batman é assombrado por visões proféticas de futuros projetos de cinema da DC Comics e nunca fica claro como Bruce Wayne consegue visualizar com tanta precisão estes futuros, ao menos que ele tenha acesso à Piscina de Elementos da Trama Conveniente™ de Thor ou algum tipo de super-droga que só bilionários conseguem comprar. Estes elementos de providência fariam sentido em um filme que aborda temas como a relação de homem com Deus e a presença quase divina de Superman, porém, devido ao quase obsceno volume de informação que BvS precisa apresentar, é mais um elemento raso e pouco explicado.

Ben Affleck, com todas as limitações da trama, interpreta um Batman intenso, amargurado por décadas de combate contra o crime e consideravelmente mais violento em seu vigilantismo, marcando criminosos como gado e fazendo bastante vista grossa quanto a sua filosofia de jamais tomar uma vida. É uma pena que Snyder sofre com caracterizações cuja complexidade exceda “agora você está bravo, agora você está furioso, agora faça cara de ‘estou sendo obrigado a comer verdura'”. Henry Cavill, um ator que já exibiu mais talento em outros projetos, também é obrigado a encarnar um Superman em um longa que claramente é desconfortável demais para explorar o otimismo e heroísmo de sua figura icônica. Assim como em Homem de Aço, Clark Kent se limita a exibir expressões que remetem à alguém tentando cancelar a assinatura da NET via telefone. Há uma vã tentativa de humanizá-lo com um relacionamento com Lois Lane (Amy Adams) que encarna, possivelmente, a pior adaptação da personagem já feita. A intrépida jornalista é deixada de lado para exibir um interesse amoroso que não agrega nada e parece sempre estar em perigo, não por causa de sua coragem, mas sim por uma idiotice cujo poder beira o meta-humano.

A introdução de Gal Gadot como Mulher Maravilha é o ponto alto do filme. A presença de Diana de Themyscira muda totalmente o tom do filme, que promete revigorar o terceiro ato, mas que se arrasta para chegar em uma conclusão semi-satisfatória. É um pecado que a personagem não é devidamente utilizada, já que Batman vs Superman abusa de uma quantidade exagerada de prólogos para explicar tudo que está rolando. Ah! O filme tem 153 minutos de duração…

Apesar de inspirado em O Retorno do Cavaleiro das Trevas, BvS não vai muito além de dar ao Batman uma armadura para enfrentar Superman e colocar inúmeras personalidades da televisão para oferecer comentários e notícias ao longo do filme. Notícias, por sinal, que deixam o roteiro ainda mais preguiçoso, explicando para a audiência exatamente o que está acontecendo nas cenas. O cinismo crítico do jingoísmo da era Reagan, onde um envelhecido Bruce Wayne enfrenta o sistema público personificado por um Superman bom rapaz que se tornou uma arma da Casa Branca, estão ausentes de um filme que desesperadamente carece de um pouco de inteligência injetada no roteiro. Alguns elementos da saga Super Sete de Karl Kesel também estão presentes, assim como A Morte do Superman, de Dan Jurgens. Tudo, é claro, adaptado sob a ótica de alguém que foi profundamente afetado pela mentalidade dos anos 1990, da indústria de quadrinhos. Além das HQs, claramente componentes da premissa de Injustice: Gods Among Us (um esforço valoroso em manter a preguiça em alta e evitar que a equipe de produção gaste neurônios com quadrinhos) e coreografias de ação da série Arkham estão presentes.

Nem todo filme de super herói precisa ter o tom amigável da Marvel, mas assim como Mark Waid, Kurt Busiek, John Byrne e Grant Morrison já provaram, um Superman que é o reflexo do melhor que a humanidade tem a oferecer não é exatamente a mesma coisa que ser cafona e pedante. Existe aqui uma oportunidade desperdiçada de abordar um Homem de Aço que valoriza a vida humana acima de tudo em virtude do alto preço pago pelo assassinato de Zod, um herói que reflete uma sociedade mais disposta a evoluir e aprender com seus erros do que um mundo que simplesmente exige um senso de certo e errado quase messiânico de seus heróis, mas é o tipo de discussão filosófica que atrapalha o enfadonho uso de computação gráfica para cenas de ação bombásticas. Afinal, porque criar uma análise marcante do Superman quando o que aparentemente todos querem ver é uma batalha mal dirigida e impossível de entender contra o Apocalypse?

Entre trancos e barrancos, a DC Comics finalmente estabeleceu seu projeto cinematográfico multi-filmes para o cinema, talvez não no tom certo e com certeza sem easter eggs muito promissores, mas está aí. Promete um futuro empolgante? Preferimos deixar cada um tirar suas próprias conclusões.

Até  a próxima!

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Editor-chefe da Freakpop. Adora cinema, mas odeia a palavra cinéfilo. Leu quadrinhos demais na vida e tem uma capacidade muito limitada de entender a realidade. Tudo que não explica com Máquina Mortífera, explica com Highlander. Sabe tudo sobre Soul Reaver e Crônicas de Gelo e Fogo. Seu signo é estegossauro.

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