crítica de Black Mirror: Bandersnatch na Netflix

CRÍTICA | Black Mirror: Bandersnatch

Black Mirror: Bandersnatch coloca a audiência no controla da narrativa Leitores mais antigos provavelmente se lembram do Você Decide. Programa da Globo apresentado por atores como Antônio Fagundes, Lima...

Black Mirror: Bandersnatch coloca a audiência no controla da narrativa

Leitores mais antigos provavelmente se lembram do Você Decide. Programa da Globo apresentado por atores como Antônio Fagundes, Lima Duarte e Tony Ramos onde cada semana uma nova história era contada e o final era decidido via votação por telefones. O programa durou até o ano 2000 e, após uma tentativa de voltar ao ar com reprises no espaço do Vale a Pena Ver de Novo, nunca mais veio à tona. Black Mirror: Bandersnatch traz uma ideia semelhante. Por meio de um sistema interativo na Netflix, o usuário pode escolher o rumo da trama e desvendar diversos finais alternativos.

Bandersnatch

Inspirado na falência da Imagine Software, uma empresa de games britânica que fechou antes do lançamento do game Bandersnatch, a trama conta  a história de Stefan Butler (Fionn Whitehead), um jovem programador que sozinho está adaptando um livro estilo Escolha Sua Aventura para criar um complexo game de exploração com diversas escolhas e consequências. Aos poucos, vai se deparando com dificuldades na programação e começa a questionar sua realidade, isto somado há um histórico de complicações psicológicas, Stefan gradualmente suspeita que ele não esteja 100% em controle de sua vida e que livre arbítrio é apenas uma ilusão.

A tal entidade misteriosa que controla a vida do rapaz se manifesta em diversas formas. Programas secretos de controle psíquico, uma meta-narrativa que faz com que Stefan descubra que ele na verdade é um personagem fictício, uma viagem psicodélica a la Ubik de Philip K. Dick que revela que a realidade nada mais é que um construto frágil e variado. Tudo isso são manifestações diferentes do verdadeiro controlador do destino do protagonista: você.

Mais você que ele

Primeiramente, Black Mirror: Bandersnatch funciona muito mais como uma crítica ao comportamento atual de consumidores de entretenimento. Algo comum já que esse tipo de crítica social de tendências modernas e tecnologia são o ganha-pão da série. Neste caso, o fato da plateia poder controlar o rumo da narrativa, forçando o pobre protagonista em situações cada vez mais mórbidas e macabras, forçando sua sanidade até o limite e até mesmo quebrando o tecido narrativo que mantém a coerência do roteiro é um comentário bastante explícito sobre o relacionamento extremista que usuários hoje tem com propriedades intelectuais.

É um mundo onde fãs histéricos de Star Wars assediam atrizes em redes sociais e ameaçam estúdios de cinema por não concordarem com o desfecho de um filme. É um lugar onde um filme mal produzido de super heróis cria teorias da conspiração obsessivas e baixo-assinados confusos. São pessoas que não conseguem se relacionar com cultura pop de forma saudável, e exigem que qualquer desconforto ou discordância não sejam apenas corrigidos, mas totalmente eliminados, como dissidentes políticos em fotos da União Soviética de Stalin. O fato do filme se passar em 1984, ano da homônima obra de George Orwell que aborda esse comportamento, não é mera coincidência – assim como Stefan ser vítima de uma força vigilante omnipresente que controla todos os aspectos de sua vida.

Realidade frágil

A história de Bandersnatch até que é fraquinha, e funciona mais como exercício de uma nova modalidade e tendência de entretenimento, mas vale aqui destacar alguns elementos narrativos interessantes que permeiam a obra:

Alice no País das Maravilhas

O mais óbvio em Bandersnatch são os elementos da obra de Lewis Caroll, que como muitos trabalhos onde a realidade é posta em questão, se fazem presentes. Além do nome óbvio do episódio, o Bandersnatch é uma criatura nos poemas Jabberwocky e Caça ao Snark.

O ponto inicial da fragmentação psicológica de Stefan envolve a perda de seu coelho de pelúcia quando é criança. Esta perda faz com que sua mãe pegue o trem errado e morra num acidente. Em determinado momento da narrativa, existem várias opções de fazer o personagem procurar o coelho, assim como Alice começa sua aventura no país das maravilhas perseguindo o coelho branco, Stefan começa a entender a natureza da realidade em sua busca pelo seu velho coelhinho. O protagonista até volta no tempo através de um espelho, semelhante à Alice que navega em novas realidades através do mesmo objeto.

Em um determinado momento, Colin Ritman (Will Poulter) o leva para seu apartamento e oferece LSD para expandir a consciência do rapaz. A cena remete à festas do chá. Até mesmo Kitty (Tallulah Hadon), a namorada de Colin, visualmente remete ao chapeleiro louco com seu cabelo laranja e armado.

Philip K. Dick

Dificilmente qualquer obra que aborde conceitos como realidade simulada e alteração de percepção não vá fazer pelo menos uma referência a Philip K. Dick. Primeiramente, temos Davies, o autor do livro Bandersnatch, que assim como Dick, era usuário frequente de alucinógenos e tentou matar sua esposa. Assim como o autor, Davies também tem dificuldades de assimilar a realidade e acredita que forças externas manipulam nosso livre arbítrio.

No apartamento de Colin, um pôster de Ubik também aparece. Considerado um dos trabalhos mais complexos de ficção científica, a obra aborda realidades paralelas, linhas do tempo alternativas, meta-comentários sobre livre arbítrio e uma boa dose de incerteza sobre o que é real.

Imagine Software

Em 1984, a Imagine Software faliu antes de lançar Bandersnatch, um ambicioso jogo que nunca veio à luz. Elementos deste evento real foram a inspiração para o episódio.

Black Mirror

Já está virando tradição na série, mas Black Mirror: Bandersnatch tem diversos easter eggs dos outros episódios da série. Dois jogos de Colin, Nohzdyve e Metl Hedd, são referências aos episódios Nosedive e Metalhead. A clínica onde Stefan faz tratamento se chama Saint Juniper, uma referência a San Junipero, assim como a empresa de games, Tuckersoft faz alusão à TCKR do mesmo episódio.

O símbolo usado no filme para representar uma bifurcação de decisão, tanto no desenvolvimento do game quanto em momentos importantes da trama, é o mesmo glifo usado no episódio White Bear. Outros episódios são referenciados nas manchetes dos noticiários.

Veredito

É difícil chegar no veredito final do filme, afinal, baseado nas escolhas (ou ilusão de escolhas) do usuário, existem diversos caminhos a serem tomados, e o impacto destas decisões podem falar tanto sobre a narrativa em si quando a personalidade de quem assiste. Como trama, poderia ser mais profunda, mas Black Mirror faz sucesso exatamente por ser acessível suficiente para um público que não costuma consumir ficção científica e por sensacionalizar elementos da tecnologia que são trivializados pelos mais desinformados. Porém, como experimento de narrativa, é uma obra fascinante.

Até a próxima!

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Nota
8.3
Nota
O bom
  • Diversos finais, é uma obra que pode ser explorada de diferentes formas.
O ruim
  • Premissa um pouco preguiçosa e não muito inteligente.
  • Direção
    10
  • Elenco
    8
  • Roteiro
    8
  • Enredo
    7
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