CRÍTICA | Teria Coringa esse hype todo se não fosse um filme do Coringa?

CRÍTICA | Teria Coringa esse hype todo se não fosse um filme do Coringa?

Será?

Coringa cria uma origem para o personagem e homenageia filmes de Martin Scorsese

Antes de começarmos a falar sobre Coringa, o novo filme com Joaquin Phoenix no papel principal e Todd Phillips na direção, é bom tirar algumas dúvidas. Sim, é um filme inspirado no vilão do Batman, não ele não é conectado com nenhuma adaptação live-action recente ou antiga. Não é uma prequela para o Coringa de Jack Nicholson, nem o de Heath Ledger e nem o de Jared Leto. Não é um longa que enche a tela com easter eggs para fãs de quadrinhos e nem prepara indicações para futuros projetos envolvendo o personagem.

Em suma, Coringa é mais um filme que um projeto de sinergia corporativa ou uma tentativa de lançar mais um universo compartilhado nos cinemas. Sabendo disso, vamos tentar ao máximo não entrar nos detalhes da trama, mas entendam, não existe nenhuma grande reviravolta.

Coringa

Arthur Fleck (Phoenix) é um homem solitário e miserável. Ele trabalha como palhaço para sustentar a si mesmo e sua mãe doente. Arthur também sofre de uma condição neurológica que o faz rir de forma incontrolável e inesperada. Seu mundo é uma Gotham City nos anos 80 à beira da ruína, não muito diferente de Nova York na década de 70. Uma cidade coberta de lixo onde os mais pobres e desafortunados perdem um pouco mais de dignidade a cada dia.

Fleck também sonha em se tornar um comediante stand up bem sucedido e aparecer no programa de Murray Flankin (Robert De Niro), um programa noturno que entrevista celebridades. A loucura de Fleck começa a se agravar conforme o mundo ao seu redor começa a ruir, gradualmente o protagonista para de ignorar seus pensamentos mais sombrios…

Não fiquem bravos, mas…

A ideia por trás de Coringa é interessante, e sim a atuação de Joaquin Phoenix é uma mistura extremamente complexa que torna o personagem vulnerável e repugnante ao mesmo tempo. A direção de Todd Phillips está excelente, muito acima do que poderíamos esperar do diretor da trilogia ‘Se Beber Não Case’. Porém, o roteiro é essencialmente um remake de O Rei da Comédia (1982) com fortes homenagens a Taxi Driver (1976) – ambos filmes estrelados por Robert De Niro.

É complicado, afinal, o Coringa não é exatamente um personagem, mas sim um elemento de trama. Uma espécie de bicho papão que funciona como antagonista conveniente para qualquer trama. Não existe uma personalidade distinta para o personagem, ele é apenas uma força caótica que funciona em diferentes contextos para antagonizar o Batman. Neste quesito, de fato, ele não é um personagem, por não ter nenhum tipo de motivação clara além de ser um vilão.

Por ser um personagem sem grande profundidade, ele teve múltiplas facetas tanto nos quadrinhos quanto nas adaptações para televisão e cinema. Esta versatilidade, conforme apontou Max Landis em uma edição do Superman onde o Homem de Aço confronta o Coringa, o torna um personagem que parece que foi concebido por um adolescente revoltado. Não é a toa que o personagem é tão popular entre os revoltados de internet que condenam a “sociedade” à sua volta (tipicamente, os mesmos que não entenderam Clube da Luta e Matrix).

Dito isso, como criar uma história de origem e humanizar um personagem que só funciona porque ele é completamente sem humanidade e sem passado? E aí mora a parte complicada de Coringa: o roteiro.

O roteiro de Coringa

O roteiro de Coringa simplesmente não traz nada de novo. É a mesma trama que todo filme sobre um personagem louco se vingando da sociedade. Além dos filmes acima, o roteiro parece pegar emprestado elementos de O Operário (2004), Psicopata Americano (2000), Clube da Luta (1999), Sozinho Contra Todos (1998), entre outros. Não é ruim quando um cineasta presta homenagem a outros filmes influentes, mas o problema de trabalhar no confinamento de um gênero tão específico quanto “protagonista com distúrbio mental busca retribuição do mundo a sua volta” é que certas homenagens tornam o longa incrivelmente previsível.

Reflexão…

O público já viu essa história antes, se não na íntegra, pelo menos pedaços consideráveis da narrativa. Fica aqui o questionamento, se este filme não tivesse no papel de protagonista um dos personagens de quadrinhos mais rentáveis e conhecidos do mundo, teria este nível de publicidade e prestígio? Coringa é um filme que pode ser feito inteiramente sem o vilão famoso, mas teria o mesmo nível de hype?

O comentário social do filme é o tipo de narrativa revoltada cansada, que é campo fértil para os fanboys revoltados que vão atribuir um brilhantismo não merecido ao personagem e o longa.

Não quer dizer que seja ruim

Como falamos, Coringa não é necessariamente um filme ruim.  É belamente atuado e com uma direção competente. É o tipo de longa-metragem que renova o fôlego para filmes de super heróis e oferece uma ótica diferente para evitar saturação do gênero. É uma pena que o alicerce central do filme é oferecer uma origem para um personagem que só funciona quando não tem uma.

De qualquer forma, o próprio Palhaço Príncipe do Crime comentou em A Piada Mortal, “Se vou ter um passado prefiro que seja múltipla escolha!” E com certeza o filme do Coringa é uma das escolhas mais interessantes.

O longa estreia nos cinemas dia 6 de outubro de 2019.

Até a próxima!

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Nota:
7.5
Nota:
O bom
  • Destaque para Brett Cullen no papel de Thomas Wayne. Uma versão mais pilantra e amoral do personagem.
O ruim
  • O final é deliberadamente ambíguo, ou seja, aguarde incontáveis artigos e discussões cretinas e fanboys especulando sobre se o fim é real ou não.
  • Direção
    9
  • Roteiro
    5
  • Enredo
    7
  • Elenco
    9
Categorias
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