Crônicas de São Francisco (Netflix), LGBTI

CRÍTICA | Crônicas de São Francisco (Netflix) – Love is love

Happy Pride Month!

A Netflix celebra o mês do Orgulho LGBTI com a minissérie Crônicas de São Francisco.

Madrugada de 28 de junho de 1969. Sete anos depois que as práticas homossexuais haviam deixado de ser consideradas crimes nos EUA, mas a lei no estado de novaiorquino ainda previa a prisão para homens travestidos, no único bar abertamente gay de Nova Iorque, no bairro do Greenwich Village, chamado Stonewall Inn, quatro policiais decidiram fazer uma batida no local, o que era algo considerado frequente e comum para os frequentadores. Mas diante da recusa de alguns clientes de se identificarem, os oficiais resolveram levar as pessoas para a delegacia e um tumulto se iniciou, com tijolos e pedras em chamas sendo atirados contra as janelas, gritos, tiros por parte da polícia e um incêndio se alastrando pelo bar.

Na noite seguinte, mesmo em ruínas, o Stonewall abriu e uma imensa multidão espalhada pelos quarteirões ao redor se reuniu para protestar e confrontar a polícia. E assim foi por mais cinco dias. Era a primeira vez que gays, lésbicas, transexuais e drag queens se uniam contra as leis e a violência homofóbica do estado.

Exatamente um ano depois, acontecia as primeiras marchas do orgulho gay no país, tornando a data em Dia Internacional do Orgulho LGBT e, mais tarde, definindo junho como o mês do orgulho gay.

“Mas por que essa aula de história?”. Celebrando aos 50 anos das Revoltas de Stonewall e o “Pride Month”, a Netflix lançou a minissérie Crônicas de São Francisco na última sexta-feira.

Baseada na narrativa de Armistead Maupin publicada em capítulos pelo jornal San Francisco Chronicle, em 1978, e mais tarde transformada em nove livros, a série conta a história de Mary Ann Singleton (Laura Linney), uma apresentadora de TV que volta depois de 20 anos para a pensão que morou em São Francisco para o aniversário de 90 anos de Anna Madrigal (Olympia Dukakis), a dona do local.

A partir dessa premissa, acompanhamos durante 10 episódios as vidas de Michael (Murray Bartlett), um homem gay com AIDS que namora um cara mais novo interpretado por Charlie Barnett; Jake (Garcia) um homem trans que acaba de passar por sua transição e sua namorada Margot (May Hong); Shawna (Ellen Page), filha de Mary Ann e Bryan (Paul Gross); e os gêmeos influencers Jonathan/Raven (Christopher Larkin) e Jennifer/Ani (Ashley Park). Todos eles fazem parte do diversificado grupo de moradores da Barbary Lane, Nº 28, que é visto como um refúgio para a comunidade queer, assim como a cidade em que fica.

O que poucos sabem é que Crônicas de São Francisco é uma continuação de outras três minisséries: Tales of the City (1993), More Tales of the City (1998), Further Tales of the City (2001), com ao todo cinco indicações ao Emmy. Eu, particularmente não sabia desse detalhe antes de assistir o lançamento da Netflix, mas isso não me prejudicou em nada, na verdade me deixou até mais impressionada com a destreza do roteiro que não só precisava fazer sentido para aqueles que já conheciam as obras anteriores como para os novos espectadores.

Na questão de narrativa, vale ressaltar o quarto e oitavo episódio. O primeiro traz discussões interessantes sobre questões como rotulação, lugar de fala e o politicamente correto através do choque de gerações e suas diferentes abordagens quanto ao homossexualismo e feminismo. Já o outro capítulo se passa na década de 1960, mostrando a São Francisco revolucionária e tem a participação da atriz chilena trans Daniela Vega, que faz sua estreia em Hollywood depois de sua aclamada atuação em A Mulher Fantástica (2017), ganhador do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro.

Uma das poucas decepções é que mesmo recebendo o destaque no título e ser o pano de fundo ideal para se falar sobre os direitos LGBTI, a cidade não parece ser uma personagem em si como deveria ser. Senti falta de uma homenagem mais significativa para um ambiente tão emblemático (ok, talvez aqui tenha um pedaço de sentimentalismo, já que SF é uma dos meus lugares favoritos no mundo).

Outro ponto negativo foi a perda de força da personagem de Ellen Page. Shawna é independente, cheia de facetas e tem uma presença importante na primeira parte da série, mas chegando ao final, ela decai e nem participa do evento clímax.

Já no quesito curiosidades, quem acompanha RuPaul’s Drag Race vai ficar feliz em avistar não só uma, mas duas queens marcantes do show: Bob The Drag Queen, ganhadora da oitava temporada e Yekaterina Petrovna Zamolodchikova, também conhecida como Katya, que participou da sétima temporada e da segunda edição de RuPaul’s Drag Race: All Stars. E se você chegou a assistir Sense8 (RIP), com certeza vai identificar algumas figuras que apareceram por lá.

E a revolta no café Gene Comptons mostrado na série realmente aconteceu em 1966, mas não é tão conhecido quanto o de Stonewall porque os registros policiais do tumulto não existem mais e a mídia não noticiou o incidente.

A obra de Maupin é considerado um dos principais relatos literários da geração que passou pela epidemia da AIDS/HIV e pela luta dos direitos da comunidade LGBTI. Pensando nisso, Crônicas de São Francisco com certeza celebra o amor e a aceitação. Sendo uma minissérie é improvável que ela ganhe novos episódios, mas levando em consideração as versões anteriores, que sabe daqui alguns anos, a história de Barbary Lane, Nº 28 continue.

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Nota:
8.1
Nota:
O bom
  • Estreia para celebrar o mês do orgulho gay e os 50 anos da Revolta de Stonewall
  • Elenco diversificado
  • Apesar de ser uma continuação, ele vale como uma obra independente
  • Temáticas importantes e interessantes
O ruim
  • Falta melhor destaque a cidade de São Francisco
  • Episódios longos podem desanimar o público
  • Perda da força da personagem de Ellen Page
  • Direção
    7.5
  • Roteiro
    8
  • Elenco
    8.5
  • Enredo
    8.5
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