Confira nossa crítica sem spoilers de Era Uma Vez Em... Hollywood, o novo filme de Quentin Tarantino com Leonardo DiCaprio, Margot Robbie e Brad Pitt.

CRÍTICA | Era Uma Vez Em... Hollywood de Quentin Tarantino

Confira nossa crítica sem spoilers de Era Uma Vez Em... Hollywood, o novo filme de Quentin Tarantino com Leonardo DiCaprio, Margot Robbie e Brad Pitt....

Era Uma Vez Em… Hollywood é uma carta de amor à uma era transformadora do cinema

É bastante difícil elaborar uma crítica para um filme como Era Uma Vez Em… Hollywood. É uma mistura de diferentes fatores impactantes e importantes que se juntam para criar esta experiência. Seria o filme uma visão idealizada e revisionista de um período de transição em Hollywood? Seria um exercício de nostalgia fantasiosa, visto que Quentin Tarantino passou sua infância em Los Angeles durante os eventos do filme? Ou, no final, seria apenas uma carta de amor aos gêneros de televisão e cinema que moldaram a visão do diretor?

Ou seria tudo isso ao mesmo tempo?

Era Uma Vez Em… Hollywood

Hollywood, 1969. Rick Dalton (Leonardo DiCaprio) é um antigo ator de séries de faroeste nos anos 50 que fracassou em tentar uma carreira nos filmes e hoje ganha a vida fazendo papéis de vilão da semana em séries de televisão. Ele é sempre acompanhado por Cliff Booth (Brad Pitt), seu amigo e dublê que dirige o ator para as gravações e testes. Enquanto isso, Sharon Tate (Margot Robbie), uma atriz aspirante e namorada do diretor Roman Polanski se muda para a casa ao lado de Dalton. O desespero de Dalton de ser um tipo de ator que está saindo de moda, o passado misterioso de Cliff, a presença quase etérea de Tate e a ameaça do culto de Charles Manson rondando o elenco, tecem a trama.

Onde realidade e fantasia se misturam

Era Uma Vez é um filme complicado. O contexto transformativo em Hollywood existiu de fato. Muitos perfis de atores dos anos 50 estavam perdendo relevância para novas tendências e aqui entra Rick Dalton, uma mistura de Burt Reynolds, que não conseguiu se tornar estrela de cinema, com um Pete Duel, sem a tragédia do suicídio. Ele representa um aspecto da indústria que está ficando obsoleto, especialmente nas vésperas da década de 70 e do movimento Novo Hollywood que vai virar a indústria de pernas pro ar.

Já Cliff é praticamente um personagem de ficção que vazou para a realidade. Impossivelmente maneiro, Booth é uma versão real de Billy Jack, o personagem de Tom Lauhglin. Cliff mora em um trailer com sua pitbull Brandy, além de dublê é um ex-militar cheio de habilidades secretas. Sempre de sangue frio, o filme faz questão de mostrar que ele é bad-ass em um flashback onde ele enfrenta na porrada ninguém menos que Bruce Lee. Apesar de ser inspirado em Hal Needham, o dublê e amigo de Burt Reynolds, existe algo quase super-humano em Cliff. Existe um motivo para ele ser assim, é na intersecção do real e sonho onde Tarantino vai revisar a história em Hollywood.

E finalmente, temos Sharon Tate. No mundo real, Tate foi brutalmente assassinada pelos seguidores de Charles Manson, um supremacista branco que pretendia criar um álbum que começaria uma guerra racial apocalíptica entre brancos e negros (ele não era exatamente um exemplo de sanidade). Aqui, ela simboliza uma certa inocência e um novo fôlego surgindo em Hollywood. Seu destino também é radicalmente modificado com as circunstâncias bizarras da narrativa do filme. Ela vai ao cinema para assistir Arma Secreta contra Matt Helm, filme que ela contracena com Dean Martin e apenas curte ver que sua atuação diverte o público. Um grande contraste para Tarantino que costuma usar o diálogo para obsessivamente discutir cultura pop.

Nostalgia

O longa que Era Uma Vez Em… Hollywood mais se assemelha é Roma de Alfonso Cuarón. Naquele filme o diretor reconta um período específico do passado mesclando fatos reais e históricos com um elemento quase onírico ao mesclar sua própria nostalgia e memória filtrada através da infância. Era Uma Vez passa por isso também. Tarantino revisita Los Angeles no final da década de 60, mas funde aos fatos seu próprio ideário e mitologia da indústria de cinema. Rick é o ator, Cliff é o personagem.

Não é a toa que o longa se chama “Era uma vez”, é um conto de fadas. Uma forma de Tarantino abordar suas paixões, geralmente de forma obsessiva e barulhenta, de forma introvertida e introspectiva. Ao invés de discussões sobre cinema e séries, aqui ele apenas mostra o que alimentou seu imaginário. Ele parece mais interessado em reconstruir o ecossistema de sua infância do que tirar alguma grande conclusão sobre o final da década de 60. É notável isso ao ver a quantidade de cenas onde personagens apenas dirigem pela cidade ouvindo as rádios de rock de Los Angeles da época.

Não quer dizer que esta fusão entre real e imaginário funcione sempre. O confronto entre Cliff e Bruce Lee é particularmente problemático. Ao incorporar a versão “personagem” de Bruce Lee na trama, não só o ator icônico se torna uma caricatura, mas também cria uma situação bastante problemática ao coloca-lo apenas como alguém para Booth enfrentar na porrada. É algo que ignora as dificuldades que Lee enfrentou em Hollywood como um ator oriental. Mas essa falta de sensibilidade já se tornou algo quase padrão nas obras de Tarantino.

Vale a pena?

É um filme longo e sem uma grande trama. É um filme pessoal. É um quase-documentário. É uma peça complementar para Bastardos Inglórios. É um filme que não consegue fugir da controvérsia ao revisitar a história. É um filme bizarramente brilhante que mistura o real com o imaginário. É Hollywood. É Tarantino. É algo que precisa ser visto.

Até a próxima!

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Nota:
9.3
Nota:
O bom
  • James Stacy, o personagem de Timothy Olyphant, vai embora do set de Lancer de moto. Em 1973 o ator real sofreu um acidente de moto que o fez perder um braço e uma perna...
O ruim
  • A podolatria do diretor está um pouco fora de controle...
  • Direção
    9
  • Roteiro
    10
  • Elenco
    10
  • Enredo
    8
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