Esta é a Sua Morte mostra como a audiência apodrece com reality shows

Esta é a sua Morte é um importante filme para a época que vivemos Um belo dia você saiu para trabalhar, estudar ou fazer qualquer coisa de interessante fora...

Esta é a sua Morte é um importante filme
para a época que vivemos

Um belo dia você saiu para trabalhar, estudar ou fazer qualquer coisa de interessante fora de casa. Após um dia cansativo, nada mais gostoso do que chegar em casa, preparar uma pipoca e sentar na frente da televisão para assistir um programa qualquer. Entretenimento educa, afinal, e ensina algo. De culinária à moda, as emissoras investem em uma história. Uma história que movimenta fãs, resulta em memes, uma divulgação indireta que atrai ou repele uma audiência que se envolve, sofre e participa.

Gostamos do João, um cara qualquer, que nunca vimos na vida e que, subitamente, é “famoso” graças ao programa. Ele tem uma história triste. Três filhos para criar, viúvo de uma amável esposa que era costureira e contas, muitas contas. Sua rotina é semelhante a sua: ele acorda cedo, faz café da manhã para as crianças, com direito à panquecas, e leva os filhos para a escola. Trabalha o dia todo, chega em casa exausto. A vizinha cuidou dos afazeres dos pequenos. Ele toma um banho, olha as contas paradas, está desesperado, mas os três estão na sala esperando João para ver televisão.

Surge então uma oportunidade única: João tem a chance de dar uma guinada e alterar, para o resto da vida de seus filhos, o futuro dos mesmos. Surge o sonho de ver suas crias se formarem em medicina, engenharia ou até direito. João é capaz de fazer qualquer coisa para que suas crianças sejam alguém. João vai atrás dessa chance.

Um esforço, um sacrifício, um gatilho. Basta coragem e apenas uma atitude para que suas crianças tenham um futuro incrível. Mas calma, você pode ajudar! Basta doar R$5,00 por meio de uma ligação que essas crianças serão capazes de mudar o mundo, quem sabe até interferir, de forma direta, na sua vida! Legal, né? Mas vamos lá, vamos doar. E a gente doa. Assim, o gatilho é apertado para garantir o futuro de sua família. Basta se matar!

João mudou a sua vida, o seu destino ou jornada de vida, e deixou o futuro dos seus filhos nas suas mãos. Você, audiência, que doou dinheiro. 24h se passam, após a mudança de vida do João. Mas espera, que João? E seus filhos? Que filhos? Ah é, já estamos em outro assunto né? Surgiu uma crise na política e agora precisamos, incansavelmente, mostrar que somos politizados e, está tudo bem, por que semana que vem poderemos doar dinheiro para outra pessoa. Outro João.

Essa é a parte bacana dos reality shows. A gente se envolve com uma história qualquer e se importa com ela momentaneamente. Até falamos do assunto por sete dias, no máximo, mostrando que há uma preocupação com o futuro das crianças do João, mas logo já estamos ansiosos pela próxima história triste que receberá a nossa ajuda. É uma preocupação que tem prazo de validade, a emissora vai cuidar da vida daquelas crianças, vamos para o próximo!

UAU! Que sucesso, semanas depois o programa tem cada vez mais audiência, todo mundo só fala disso e você está super antenado em cada episódio. Legal né? Mas alguém se lembra das crianças do João? João? Que João?

Voltamos ao assunto da semana: uma celebridade se separou. Que absurdo né? Se eles se separaram, que chances os solteirões têm de arrumar um amor verdadeiro? Mas enfim, vamos ao próximo caso. Vamos ao próximo gatilho. Aliás, falamos, falamos, e nem se quer sabemos do que se trata esse Reality Show, mas sabemos que as crianças do João ficarão bem.

Em Esta é a sua Morte, o João resolveu acabar com a própria vida confiando que você, é você, cuidasse do futuro de seus filhos. E entre uma crise política e outra, entre uma celebridade recém-divorciada e outra, você mudou! Mas ele morreu. Em rede nacional. Ao vivo. Mas as crianças estão bem. Está tudo bem. Aliás, a sua vida rotineira e as suas contas também estão ótimas né?

Ele tomou essa decisão sozinho, nesta decisão você não teve participação, sabemos, mas queremos ver quantos de vocês vão querer acompanhar a vida das crianças órfãs. “Mas porra, eu ajudei!”, sim, você puxou o gatilho desse pai. E aplaudiu. Uma das grandes críticas existentes aqui é que a audiência gosta da desgraça, gosta do drama, gosta de se sentir parte de alguma fase do reality show. Até o momento em que o João resolveu tirar a própria vida, você não participou. Mas no momento final, de apertar o gatilho, a decisão é conjunta. O sucesso de um programa é a resposta e a interatividade que a audiência tem. Parabéns, campeão. Você deixou três crianças órfãs.

A curiosidade mórbida pelo espetáculo é algo que enoja. Os realitys que permitem a interação da plateia/audiência/fãs são os que mais alienam e proporcionam um falso poder de controle. E isso, aqui em Esta É a Sua Morte, é tipo um soco no estômago vazio.

De forma intensa, realista, sem censura, Esta é a sua Morte explora, de forma crua, uma emissora fazendo de tudo para ter mais audiência e um apresentador enterrando a própria vida em cima do sucesso do programa de suicídios. Giancarlo Eposito, que assina a direção, entrega com cenas repulsivas da podridão por trás da criação de reality shows e dos fãs que fomentam este tipo de entretenimento.

Não estamos levantando a bandeira contra este tipo de entretenimento, mas levamos a bandeira de que o longa Esta é a sua Morte, joga na cara das pessoas um lado sujo e irreversível de um passatempo “indefeso” que conquista a atenção da audiência em troca de dinheiro. É uma versão 2017, egocêntrica e doentia da política de Pão e Circo. A emissora dá o circo, você lota a arena e alguém morre pra te dar prazer.

O detrimento por trás de Esta é a sua Morte é uma importante mensagem para os dias de hoje e, infelizmente, nem todos vão dar atenção ao longa que aponta o dedo para o nariz da alienação e comprova que as pessoas precisam se importar com algo que não seja o próprio umbigo para se sentirem melhores em suas medíocres vidas. Larguem, de uma vez por todas, essas realidades manufaturas, deixe de ser um marionete e coloquem em perspectiva aquilo que você assiste. A alienação é opcional.

O longa estreia dia 21 de setembro no cinemas.

Küsses,

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Tatá Snow

“Crítica” de cinema – prefiro ‘analista de entretenimento’, fanática por comédias românticas e viciada em Sex and The City. Ah…#TeamCap

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