CRÍTICA | Eu Não Sou Seu Negro

O documentário Eu Não Sou Seu Negro traz à tona uma obra perdida James Baldwin foi um dos maiores escritores e intelectuais negros dos EUA no século 20. Seus...

O documentário Eu Não Sou Seu Negro
traz à tona uma obra perdida

Eu Não Sou Seu NegroJames Baldwin foi um dos maiores escritores e intelectuais negros dos EUA no século 20. Seus romances e peças traziam na ficção intensos dilemas fundamentais e pessoais frente às pressões sociais e psicológicas, não só de negros como também de homossexuais e bissexuais. Nascido em 1924, e criado enfrentando os horrores da segregação racial nos EUA, ele criou um senso cínico sobre o papel do negro na América. Eu Não Sou Seu Negro, o novo documentário de Raoul Peck, o diretor cria em filme o que seria a última obra não entregue do autor.

Sua obra final

Pouco antes de sua morte, Baldwin começou a redigir o rascunho da biografia Remember This House. O livro seria uma coleção de suas memórias pessoais em convívio com Martin Luther King Jr., Malcolm X e Medgar Evers – três dos maiores nomes do movimento de direitos civis nos EUA. Apenas 30 páginas foram escritas, e neste material, Peck cria Eu Não Sou Seu Negro.

A história dos negros nos EUA de forma nua e crua

A intelectualidade ímpar de Baldwin é posta em evidência ao longo da obra, analisando a criação da identidade negra no cinema, música, política e sociedade ao longo das décadas. Sua prosa é narrada por Samuel L. Jackson, que em contraste com o energético autor que aparece em diversas entrevistas, encarna um personagem exausto sussurrando verdades amargas em um gravador.

O documentário apresenta trechos de filmes, matérias jornalísticas sobre a violência da polícia em marchas pacíficas e imagens sobre a história do racismo ao longo das décadas. O tom do texto é um de derrota e perda de esperança. Baldwin analisa em profundidade e sumariza séculos de racismo explícito e implícito e chega em uma mórbida conclusão: os EUA nunca se importou em construir um país onde os negros seriam aceitos.

Eu Não Sou Seu Negro guarda seu maior impacto ao contrastar as palavras do autor com momentos de atrocidades da época junto aos protestos em Ferguson e os jovens Trayvon Martin e Tamir Rice, ambos mortos. O documentário oferece um compêndio de imagens e cenas ignoradas em interpretações mais positivas do movimento de direitos civis.

Infelizmente, James Baldwin faleceu em 1987, anos antes de testemunhar o primeiro presidente negro na Casa Branca ou esta nova onda de conservadorismo pelo mundo. Ou, até mesmo, como ao analisar como o racismo de sua juventude e a violência de hoje não mostram tanto progresso quando pessoas mais positivas gostariam de acreditar.

Eu Não Sou Seu Negro é um documentário complexo, “escrito” por um intelecto capaz de correlacionar diversos fatores para tecer sua imagem da America racial e, infelizmente, assim como seu autor, não tem interesse em oferecer um desfecho reconfortante para a audiência.

Até a próxima.

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Editor-chefe da Freakpop. Adora cinema, mas odeia a palavra cinéfilo. Leu quadrinhos demais na vida e tem uma capacidade muito limitada de entender a realidade. Tudo que não explica com Máquina Mortífera, explica com Highlander. Sabe tudo sobre Soul Reaver e Crônicas de Gelo e Fogo. Seu signo é estegossauro.

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