CRÍTICA | Moonlight – Sob a Luz do Luar | Uma análise sobre ser um homem negro

Moonlight – Sob a Luz do Luar é um filme intenso que tem muito a dizer Chiron, na mitologia grega, era um centauro considerado superior por ser inteligente,...

Moonlight – Sob a Luz do Luar
é um filme intenso que tem muito a dizer

[dropcap size=small]Chiron[/dropcap], na mitologia grega, era um centauro considerado superior por ser inteligente, civilizado e bondoso. Ele foi criado por Apolo, seu pai adotivo, que lhe ensinou todos os conhecimentos necessários. Enquanto os outros centauros eram indisciplinados e delinquentes, Chiron era uma alma sensível e reverenciado como professor e tutor.

Entendido isso, vamos à Moonlight – Sob a Luz do Luar, um filme que explora as necessidades básicas para que um homem negro seja respeitado na periferia.

I. Little

Em Miami, no bairro de Liberty City na década de 90, conhecemos um tímido garoto chamado Chiron (Alex Hibbert). O bairro de baixa renda tem a maior concentração de negros da cidade e, nesta época, é uma perigosa região tomada pelo tráfico de drogas e crime.

Por ser franzino e visto como alguém que não é “duro”, Chiron é alvo constante das agressões dos colegas de aula. Em uma de suas fugas, conhece Juan (Mahersala Ali), um simpático traficante que se torna amigo do menino e uma figura paterna protetora, já que a mãe do jovem é viciada em drogas e negligente.

De poucas palavras e olhares intensos, que demonstram seus sentimentos de abandono e sofrimento, Chiron é acolhido por um homem que o trata como igual e não mais como “Little” (“pequeno”) – apelido dado pelos meninos que o agridem. A figura de Juan como um homem adulto e zeloso oferece ao garoto um alento paterno em sua vida, um elemento frequentemente ausente nesta realidade. Ele é uma figura paradoxal. Ao mesmo tempo que oferece ao menino um lar junto à sua namorada Teresa (Janelle Monáe), suas atividades criminosas são a causa de Chiron não ter uma mãe presente, afinal, ele que vende as drogas.

II. Chiron

Na adolescência Chiron (Ashton Sanders) segue sendo perseguido. A intolerância de seus colegas de classe é ainda maior. Seu jeitão desengonçado, sua amizade com Teresa, sua mãe viciada e seu estilo pouco “negro”, são alvos de piadas e novas agressões. Chiron está perdido. Sua mãe entregue ao vício. Só lhe resta Kevin, um único amigo de infância que compreende seu comportamento.

O salto da infância para a adolescências mostram novos elementos essenciais para sua formação: gírias, roupas, acessórios e maneirismos refletem o gueto de Miami, mas não refletem em Chiron. A cobrança feita em cima do jovem, e o constante julgamento em torno de sua imagem, o levam a reagir.

Em um ambiente ausente de figuras masculinas positivas, os jovens negros assumem uma postura ultra-agressiva e masculina, perseguindo e agredindo tudo que não está em conformidade com a “identidade” aceita pelo meio.

Quando tudo parece “bem” e a súbita compreensão sobre “saber quem ele é” ganham a tela, o gueto fala mais alto e Chiron revida. Surge o pior dos cenários: a prisão.

III. Black

Na vida adulta as coisas mudam. Chiron (Trevante Rhodes) agora é respeitado. Chiron é um “homem negro de verdade”. Chiron tem carrão, dentes de ouro, dinheiro, estilo, músculos. Sua vida e experiências estão impressas em cada parte do seu corpo. O personagem está montado. O gueto de Miami está refletido. Mas uma ligação pode mudar tudo e quebrar a falsa realidade de Chiron com a dura verdade que ele finge não lidar: Chiron agora é um homem negro e não mais Chiron.

Em três atos bem definidos, Moonlight – Sob a Luz do Luar é um filme que proporciona uma análise íntima sobre ser um homem negro na periferia. O amadurecimento do personagem é mostrado em 3 fases bem definidas. Cada parte da história de Chiron são três sequências de fatos em tempo real, tornando a película de Barry Jenkins ainda mais especial.

Sem longos discursos para explicar a trama, o roteiro adaptado de Jenkins te faz pensar e entrar na história. Não há espaços para perguntas, há pouco espaço para respostas. A problemática é simples, mas a forma como ela é contada é preciosa. Moonlight consegue fazer uma imersão na cultura negra com um personagem que, normalmente, não é tratado neste cenário real em obras cinematográficas.

Fugindo dos clichês sobre jovens na pobreza, o filme se interessa em retratar a dificuldade em construir uma identidade em um meio cuja visão de mundo não permite aceitar o que foge do “comum”.

A pobreza, o tráfico de drogas e a falta de oportunidade são temas que rendem grandes discussões sociais e políticas, deixando de lado a formação pessoal de personagens que já são entregues formatados. Aqui, conseguimos acompanhar o amadurecimento desse jovem que não questiona o seu meio, mas precisa se adaptar a ele.

As cobranças, claramente pré-definidas pelo conjunto: homem negro + periferia ganham um novo olhar, uma nova análise e um novo tom. O respeito e o orgulho inflam a cada etapa e a audiência se envolve com Chiron, aquele centauro bondoso do primeiro parágrafo. Aquele centauro que será respeitado por quem ele é. Aquele centauro que será amado.

Moonlight – Sob a Luz do Luar é quase uma peça teatral pela quantidade de metáforas, e é apaixonante por sua mensagem final sobre amor. A sexualidade ganha uma abordagem nova, superando O Segredo de Brokeback Mountain (2005).

Um contraste delicado e real.  Moonlight vai além de outros filmes sobre jovens negros da periferia, o longa de Barry Jenkins é uma obra-prima sobre a necessidade do homem negro adotar uma personalidade específica para sobreviver em um meio sem oportunidades.

Estreia dia 23 de fevereiro no Brasil sob distribuição da Diamond Filmes e concorre em oito categorias no Oscar 2017.

Küsses,

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Tatá Snow

“Crítica” de cinema – prefiro ‘analista de entretenimento’, fanática por comédias românticas e viciada em Sex and The City. Ah…#TeamCap

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