[CRÍTICA] O Negócio – 3ª temporada começa bem e termina estranha

O Negócio chega ao final de sua 3ª temporada na HBO A produção nacional da HBO, O Negócio, é uma série pra lá de delicada. A premissa, sobre três...

O Negócio chega ao final de sua 3ª temporada na HBO

A produção nacional da HBO, O Negócio, é uma série pra lá de delicada. A premissa, sobre três garotas de programa de luxo, teve sérios problemas de enredo nas duas primeiras temporadas. Manter esse universo polêmico sem derrapar em circunstâncias absurdas foi, sem dúvida, um desafio quase impossível. Primeiro pelos excessos de referências de marketing, depois pelas explicações excessivas da Luna, uma das personagens e narradora da trama, por último, a forma como as meninas alcançaram o sucesso. Mesmo com tropeços estilo “salto alto”, O Negócio conseguiu atingir uma estrutura irreal carismática, divertida e bem sexy.

Durante as duas primeiras temporadas, a série realmente tentou caminhar em uma linha de evolução verossímil. Chegando ao final da segunda temporada, elementos mais surreais surgiram renovando o fôlego da série, temperando com leveza e fantasia a temática sensível sobre sexo pago e posicionando a trama como ficção. Ufa! Chegamos então na terceira temporada. Com a Oceano Azul na bolsa de valores, depois sendo parte de uma grande corporação, em seguida voltando a ser um clube de luxo e até a incoerente ideia de construir um prédio/monumento que louva a sexualidade, a terceira temporada de O Negócio aterrizou na ficção e se manteve bem…até os dois últimos episódios.

Vamos por partes:

Karen / Joana

A empresária saiu do ramo 100% corporativo politicamente correto para reinvestir em suas ideias para a Oceano Azul. Como a empresa é ativa em diversos ramos de negócios, ao lado de Luna, Magali, Ariel e César, Karen lança um clube VIP über chique para retomar o atendimento de seus clientes com mais regalias e luxos. Os sócios passam por alguns problemas com um vizinho maluco e depois com a descoberta de algumas esposas dos clientes que sabem sobre o que a Karen é/foi. Nesse “vucu vucu” de fofocas, o clube sofre algumas dificuldades e a megalomaníaca empresária tem a primeira ideia absurda para salvar seu empreendimento: lançar no mercado uma prostituta melhor do que ela e muito mais cara. Seu nome é…

Mia

Uma jovem de QI alto e extremamente inteligente e apática entra para o mundo da prostituição. Sem senso de humor, detentora de uma capacidade inumana de deduções lógicas e emocionais e totalmente prepotente, a moça se torna garota de programa, faz sucesso, ganha muito dinheiro e será a próxima a ter ideias absurdas quando a água bater nas bundas das meninas.

Magali e Zanini

Falando nas meninas, Magali segue como a tentativa de elemento “cômico” e enfrenta altas e baixas em seu relacionamento com Zanini. Ele, por sua vez, segue tendo longas conversas e devaneios sobre a namorada enquanto bebe grapa sempre no mesmo bar e  sendo atendido pelo mesmo barman que nunca responde. Entre uma briga e outra, Zanini se envolve com uma ex-namorada que tem um ex-noivo que é ex-namorado de uma ex-amiga da Magali que virou amante dela. Confuso? Sim. Mas de forma quase engraçada a poligamia surge em O Negócio só para embasar suas tramas novelísticas.

Luna e Oscar

Falando em novela, o casal mais sem sal de todos os tempos está separado. Ele resolve que ficará milionário e, ao ficar rico, será merecedor do amor da Luna. Argh… Enfim, Luna se envolve com um gostosão gringo agropecuário e dono de um corpo escultural. Infelizmente, nossa mocinha e narradora ainda é uma mentirosa compulsiva sobre sua vida pessoal e Chris a abandona. BTW: não perdeu nada campeão.

Augusto

Falando em mentira, drama e homem gostoso, Augusto está de volta e certo de que seu futuro é ao lado de Joana. O ex está de volta e desta vez com duas malas extras: um filho e uma ex-esposa louca. Joana e Augusto reatam, mas o preço desse relacionamento é muito alto para ela. Após algumas intrigas, perseguições e diálogos sobre moralidade, Joana cai na estrada e some por um tempo, deixando sua trupe toda para trás.

Ariel / Cesar

Os sócios mais briguentos, e o melhor núcleo de O Negócio desde a primeira temporada, são agora amigos. Cesar passa por algumas dificuldades em seu relacionamento amoroso e Ariel descobre que é pai. Ao iniciar sua fase paterna, Cesar é o suporte emocional do empresário ácido e estressado enquanto o jovem filho inicia sua nova fase trabalhando no clube.

Filmes pornôs

Outra trama dessa temporada envolveu um ex-diretor e roteirista de filmes pornôs. A entrada de uma personagem que trabalha como atriz, e que não é prostituta, trouxe bons e ricos diálogos para o enredo. Aqui, Oscar e Yuri estão de volta como amigos e juntos tentam… Ganhar dinheiro. É com a chegada desse universo que a temporada ganhou um refresco bastante interessante. Yuri está decidido a ser ator pornô, mas as dificuldades deste meio são exploradas de forma sutil e ganha um desenrolar bastante promissor, mesmo terminando de forma trágica.

Moral da história

A terceira temporada de O Negócio foi boa, quase ótima. Primeiro pelo fato da jornada das meninas agora beirarem, sem vergonha, o absurdo e irreal. Segundo pelo desenvolvimento de Mia, pelo menos uma personagem que não se envolveu com traição e nem chorou por algum término de relacionamento. Terceiro porque Ariel e Cesar ganharam mais espaço. Fora isso, 55% da temporada virou uma grande novela com cenas de sexo bem filmadas. Não julgamos o previsível caminho da proposta, mesmo perdendo fôlego ao manter o foco das personagens 100% nos negócios, a série ainda é um sucesso da HBO que merece sim a quarta temporada.

Se pararmos para pensar, a ousadia de explorar a vida íntima de quatro garotas de programa segue como o ponto alto. Por mais que elas aparentem modelos da Le Lis Blanc moradoras do Jardins – bairro nobre da capital paulista – esta temporada trouxe a tona pontos bem interessantes: lesbianismo, bissexualidade, poligamia, a indústria dos filmes pornôs e o preconceito.

Qual é o seu problema com sexualidade?

Essa foi a grande questão da temporada. A todo momento a liberdade sexual foi citada, elencada e questionada. Vivemos tempos modernos, de novas conquistas liberais e ainda assim duelamos com o preconceito e tradicionalismo. Assistir a HBO investir nesse tema é algo digno de aplausos em pé. Com toda certeza, O Negócio será alvo de julgamentos, não só por suas falhas cinematográfica e constante insistência em explicar a cena anterior por meio de uma narradora, pelos comentários rasos para preencher cenas sem graça ou ainda pela direção preguiçosa de um enredo, conforme falamos, 55% novelístico. Ainda assim, os outros 45% merecem um olhar aberto e preparado para ver a televisão brasileira investir em desmitificar a prostituição e, de novo, a liberdade sexual.

É muito fácil prender o olhar nas personagens dramáticas, no exagero da trama, na ficção criada em torno da Joana como empresária do sexo, mas é gostoso admirar situações modernas, como o sexo virtual, a atração física entre duas mulheres, um homem virando ator pornô e a quase fatídica poligamia.

O Negócio, como projeto, ainda tem que comer muito arroz e feijão, mas no quesito ousadia, está de parabéns. Esta temporada foi melhor do que as anteriores, seguiu uma linha de raciocínio e plantou uma semente surreal para a próxima fase. Agora temos que esperar pra ver o tal prédio subir, as novas dificuldades que surgirão e, quem sabe, a HBO não percebe que tá na hora de colocar a narração da Luna de escanteio para apostar na capacidade de dedução e compreensão da audiência.

A terceira temporada já está disponível na plataforma HBO-GO. Os assinantes do pacote HBO podem acessar de graça todo conteúdo exclusivo dos canais.

Até a quarta temporada, pessoal!

Küsses,

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Tatá Snow

“Crítica” de cinema – prefiro ‘analista de entretenimento’, fanática por comédias românticas e viciada em Sex and The City. Ah…#TeamCap

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