Veja nossa crítica de O Rei Leão (2019), um filme visualmente impressionante, mas que falta emoção. Será que essa onda de live-actions precisa continuar?

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O Rei Leão em computação gráfica é extremamente realista, mas isso faz parte do problema

O Rei Leão com certeza foi o auge da chamada Renascença Disney. A série de filmes animados que começou com A Pequena Sereia (1989) e trouxe clássicos como Aladdin (1992), A Bela e a Fera (1991), entre outros, recuperou o status da casa do camundongo como uma verdeira força criativa na hora de encantar a criançada e marcar gerações. Há algum tempo, a Disney tem lançado remakes de seus clássicos em versões live-action ou pelo menos muito próximo disso, como é o caso desse filme. Em geral, este projeto de ressuscitar animações não tem trazido grandes resultados ou mesmo filmes memoráveis. Parece que a falta da magia da animação deixa estes filmes um pouco vazios. Pelo menos isso explicaria parte do problema em O Rei Leão.

O Rei Leão

A história todo mundo conhece. É Hamlet na África sub-sahariana. Nasce Simba (JD McCrary), o filho de Mufasa (James Earl Jones) e Sarabi (Alfre Woodard) os leões que chefiam o reino. Seu tio Scar (Chiwetel Ejiofor) trama para tomar o trono, para tal, assassina Mufasa e afasta Simba da região.

Ele cresce na companhia de Timão (Billy Eichner) e Pumbaa (Seth Rogen), um suricato e um javali que só querem saber de curtir a vida. Simba, já adulto (Donald Glover) reencontra Nala (Beyoncé Knowles-Carter), sua melhor amiga de infância, que implora para que ele retorne, tome de volta o trono e derrote Scar, que com a ajuda das hienas, drenou a região de recursos e instituiu uma ditadura.

Visualmente impressionante

A mesma tecnologia que foi desenvolvida para Mogli – O Menino Lobo é utilizada novamente aqui. O resultado impressiona. Parece um documentário do Animal Planet. Os músculos dos animais se movimentam perfeitamente, a textura dos pelos e pena são impecáveis. Olhando a obra, você tem a impressão que simplesmente animaram a boca de animais para parecer que eles estão falando do que criaram animais digitais. E tudo isso, no final, acaba atrapalhando um pouco o projeto. Vamos por partes.

O Simba, quando criança, é arrogante, metido e se acha invencível. Antes do final do primeiro ato, ele é encurralado pelas hienas e quase morre no estouro de boiada que leva a vida de seu pai. Ou seja, o personagem começa cheio de si e termina traumatizado. Olhe o estudo de personagem da animação:

Veja nossa crítica de O Rei Leão (2019), um filme visualmente impressionante, mas que falta emoção. Será que essa onda de live-actions precisa continuar?

Na direita, você vê o olhar confiante, o sorriso folgado, a postura imitando um adulto – características que você imagina de um personagem insolente e metido. Na esquerda. você vê as orelhas baixas, o queixo caído, a sobrancelha arqueada, indicando que a confiança saiu e ele sente medo. Normal, certo? Afinal, como qualquer “ator” ele precisa transmitir a emoção necessária para a cena.

Veja nossa crítica de O Rei Leão (2019), um filme visualmente impressionante, mas que falta emoção. Será que essa onda de live-actions precisa continuar?

Vamos para outro exemplo. Nala é uma filhote corajosa e esperta. Ela não leva muito a sério quando Simba estufa o peito e se acha o máximo. Veja como as ilustrações dela refletem sua personalidade.

Agora vamos ver a diferença:

Veja nossa crítica de O Rei Leão (2019), um filme visualmente impressionante, mas que falta emoção. Será que essa onda de live-actions precisa continuar?Veja nossa crítica de O Rei Leão (2019), um filme visualmente impressionante, mas que falta emoção. Será que essa onda de live-actions precisa continuar?

Sabe por que ao criar a história do O Rei Leão a Disney fez uma animação e não um live-action? PORQUE ANIMAIS NÃO TEM EXPRESSÃO FACIAL.

O resultado final é que até nos momentos de grande emoção, quando Nala confronta Simba sobre suas responsabilidades, por mais que haja emoção na voz dos dubladores, o que vemos em cena são dois leões completamente sem expressão. Não funciona, é um filme frio. Os efeitos especiais são tão impressionantes que parece um documentário do Animal Planet que foi dublado por cima. A pior parte? Parece um documentário do Animal Planet que foi dublado por cima.

No fim

Nostalgia é um artefato de marketing poderosíssimo. O que mais se escuta é “vou ver O Rei Leão porque é muito infância”, pode até ser, afinal, sentir, nem que seja por um nanossegundo, aquela euforia de tempos mais inocentes é um barato forte. Mas neste caso, não vale mais a pena revisitar a obra original? O que ganhamos revisitando a obra com tecnologia atualizada, mas completamente desprovida do impacto emocional e narrativo?

Os remakes live-action da Disney caem em duas categorias: os que reescrevem a premissa como o caso de Malévola, que insinua que o filme original da Bela Adormecida era uma mentira criada pelas fadas madrinhas, ou Mogli insinuando que talvez Shere Khan esteja certo sobre humanos na Selva; e os que atualizam a história para revigorar a franquia ou por algum motivo obtuso, explicar “furos de roteiro”.

Vide Aladdin que expande o papel de Jasmine ou A Bela e a Fera que desperdiça um tempo considerável explicando coisas sobre a maldição da Fera, como a mãe da Bela morreu, entre outras coisas que só gente triste no Reddit se importam. O Rei Leão não atende nenhuma das duas, é um remake praticamente cena por cena. Um exercício frio e calculista de sinergia corporativa que busca maximizar rentabilidade em cima de toda e qualquer franquia que ainda tenha algum tipo de capital emocional no consciente coletivo.

Em 1981, Michael Eisner, o então presidente da Disney, soltou um memorando interno que hoje se tornou quase profético: “Nós não temos a obrigação de fazer história. Nós não temos obrigação de fazer arte. Nós não temos a obrigação de fazer uma afirmação. Fazer dinheiro é o nosso objetivo.

Esta ambição deu certo, afinal, foi sob a tutela de Eisner que surgiu o Renascimento Disney e a companhia foi de uma empresa sofrendo dificuldades nos anos 80 para se tornar uma gigantesca presença do entretenimento nos anos 90. A empresa passou por alguns maus bocados no começo dos anos 2000, mas rapidamente se recuperou com sucessos como Piratas do Caribe e as eventuais aquisições da Pixar, Marvel e LucasFilms. A própria divisão de animação da Disney passa por uma nova onda de sucessos com filmes como Detona Ralph, Zootopia, Frozen e Moana.

Ou seja, por mais que o objetivo final seja fazer dinheiro, sempre houve um certo mérito na qualidade de entretenimento produzido pela Disney. Então fica a dúvida: estes projetos live-action, que empolgam o público mais leigo na véspera, mas que rapidamente são esquecidos pelo consciente coletivo, não atrapalham mais que ajudam?

Fica aí o questionamento.

Até a próxima!

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Nota
5.1
Nota
O bom
  • Timão e Pumbaa são o ponto alto do filme e as versões dubladas por Billy Eichner e Seth Rogen acertam em cheio.
  • As Hienas também são mais ameaçadoras e menos cômicas, mesmo assim, Eddie funciona melhor nesta versão.
O ruim
  • ANIMAIS NÃO FAZEM EXPRESSÕES FACIAIS
  • Roteiro
    9
  • Elenco
    9
  • Direção
    7
  • Enredo
    8
  • Animais
    1
  • Live-Action
    1
  • Não Fazem expressões faciais
    1
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