[CRÍTICA] Os Oito Odiados – Teatral demais para o cinema, cinematográfico demais para o teatro

Os Oito Odiados, o novo longa de Tarantino, peca pelo excesso Oito homens com tendências violentas encontram-se presos no mesmo local devido a uma nevasca. Nem todos se conhecem,...

Os Oito Odiados, o novo longa de Tarantino, peca pelo excesso

os-oito-odiados-quentin-tarantino-critica-03Oito homens com tendências violentas encontram-se presos no mesmo local devido a uma nevasca. Nem todos se conhecem, mas todos suspeitam de um inimigo em seu meio. É neste clima de paranoia e ameaça iminente que Quentin Tarantino tece a trama de seu mais novo filme: Os Oito Odiados.

Nesta premissa que, segundo o diretor, foi inspirada em O Enigma de Outro Mundo, de John Carpenter, com seu ambiente claustrofóbico e uma presença fantasma ameaçadora, existem diversas camadas narrativas interessantes. Ao usar o período de pós-guerra civil americana, o longa busca entender as origens da tensão racial que até hoje assombra os EUA, o fascínio norte-americano pelo conceito da violência e sua justificativa moral quando esta é associada à palavra “Justiça”.

Se existe um protagonista na trama esse é Marquis Warren (Samuel L. Jackson), um ex-soldado da Guerra Civil com um passado violento. Sua reputação como homem capaz de atrocidades só é superada pela fama por ter sido um correspondente de Abraham Lincoln durante o conflito e ainda ser portador de uma das cartas do lendário presidente. Sagaz, o próprio personagem usa este artifício para conquistar uma credibilidade pouco acessível para pessoas de sua cor na época. Ao longo do filme, a figura de Lincoln é endeusada e endemoniada por pessoas que estiveram em lados opostos da Guerra que moldou de forma tão intensa o panorama cultural do país.

O conflito entre Os Oito Odiados gira em torno dos contrastes entre os arquétipos de seus personagens. Warren se depara com General Sandy Smithers (Bruce Dern), um herói do exército sulista durante a mesma guerra que, apesar de ter feito parte do lado perdedor e de filosofia imperdoável, simplesmente viaja para encontrar o corpo de seu falecido filho. Warren e Sandy criam entre si uma mini-narrativa em três atos. Primeiro, a esperada tensão entre dois inimigos. Depois, uma tentativa de paz baseada no respeito mútuo de dois soldados que compartilharam o campo de batalha e, finalmente, o choque inevitável entre dois homens cujas origens são tão distintas quanto intrinsecamente ligadas. Há uma revelação no desfecho que, por falta de uma palavra melhor, é cheia de ódio. Um homem que venceu uma guerra em prol da liberdade do indivíduo e um homem que lutou pelo direito de subjugar pessoas baseadas em sua cor poderão um dia deixar de lado as diferenças? Mesmo em meio a tanta violência? Contrastes assim é o que torna a tensão entre os personagens tão eletrizante e trazem ao filme um componente político e intelectual realmente questionadores.

O longa também tem seus problemas. Com sua duração entre 167 e 187 minutos, dependendo da versão, é um filme pesado e de ritmo narrativo inconsistente e, em muitos casos, os momentos mais interessantes permanecem enterrados em meio a diálogos incessantes que talvez fariam mais sentido em uma versão da história adaptada para os palcos. O espaço reduzido do cenário – apesar de excelente para criar tensão entre os personagens – limita as opções de filmagem e direção. A ação, como já é esperada do diretor, se concentra em peso no terceiro ato e peca pelo excesso. Não é nenhuma surpresa que um filme de Tarantino teria grandes volumes de sangue, mas Os Oito Odiados, talvez por escolha estética, o sangue jorra de forma surreal. É nítida a inspiração que Quentin teve com os filmes de Sam Peckinpah, onde homens brutais tecem uma violenta narrativa em meio a um mundo onde as leis não passam de uma falsa promessa. Aqui, a violência perde seu impacto quando se é exibida em tom quase cômico e sem sentido.

Os Oito Odiados estreia no Brasil dia 7 de Janeiro. Quentin Tarantino esteve no Brasil para apresentar seu filme, confira aqui como foi a conversa com o diretor.

Até a próxima!

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Editor-chefe da Freakpop. Adora cinema, mas odeia a palavra cinéfilo. Leu quadrinhos demais na vida e tem uma capacidade muito limitada de entender a realidade. Tudo que não explica com Máquina Mortífera, explica com Highlander. Sabe tudo sobre Soul Reaver e Crônicas de Gelo e Fogo. Seu signo é estegossauro.

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