Primeiro Ano (Première année), um simpático filme roteirizado e dirigido por Thomas Lilti mostra o poder da amizade durante os duros anos universitários.

CRÍTICA | Première année

Primeiro Ano (Première année), um simpático filme roteirizado e dirigido por Thomas Lilti mostra o poder da amizade durante os duros anos universitários....

Primeiro Ano (Première année), uma divertida visão sobre entrar na faculdade na França, onde estudar muito nem sempre faz a diferença, mas é o começo de uma bela amizade.

O cronista Luiz Fernando Veríssimo, criador dos antológicos Analista de Bagé, A Velhinha de Taubaté e do detetive Ed Mort, descreveu em um de seus textos sobre o vestibular, algo como, em termos de hoje, o final dos tempos e o apocalipse zumbi. Tudo em função da tensão que  o vestibulando e sua família mergulham nos meses que antecedem as provas para entrar numa faculdade.

É claro que o texto foi escrito numa época onde era necessário estudar muito para enfrentar o vestibular das principais escolas superiores do país. Hoje, dependendo do que quer fazer quem sai do colegial, tem escolas particulares que lembram a velha piada do estudante que ligou para uma farmácia, mas discou o numero de uma faculdade. Quando tentou se desculpar pelo erro, a voz do outro lado diz com muito entusiasmo: “engano não, você já está matriculado”.

Primeiro Ano

Quando vi Primeiro Ano, que mostra a acirrada disputa para entrar da faculdade de Medicina da prestigiada Universidade de Paris, foi uma divertida oportunidade de conhecer, não só o trabalho de Thomas Lilti como roteirista e diretor neste filme, e também que tipo de funil o estudante francês tem que passar para chegar até a faculdade.

A história mostra dois rapazes que se conhecem no primeiro ano da faculdade de medicina. De um lado o tímido Antoine (Vicent Lacoste) que está tentando a Faculdade de Medicina pela primeira vez. E do outro lado, temos Benjamim (William Lebghil), que está há três anos tentando passar para o segundo ano de Medicina. A primeira cena do filme mostra a frustração do rapaz quando não consegue os pontos necessários para seguir em frente na carreira de médico.

Aí cabe uma explicação sobre o sistema educacional na França. Depois que você passa pelo Licée, que é o ensino básico, você começa a estudar para os exames nacionais conhecidos como baccalauréat, popularmente conhecido la como Le Bac. Você fica estudante por alguns anos até definir sua carreira e entra na faculdade sem vestibular. O único que exige um exame específico é a Medicina. Você entra no primeiro ano e depois tem que passar por uma prova de conhecimento específico. Quanto mais pontos você acerta, melhor sua colocação para continuar na escola. Se não passar, volta a fazer tudo novamente.

E é esse o drama que vamos encontrar Benjamim no começo do filme. Frustrado por não conseguir passar para o segundo ano, ele decide estudar mais ainda do que vem fazendo, quase que se isolando do mundo para isso. Antes de pirar totalmente, ele acaba ganhando a amizade de Antoine, um garoto tão esforçado como ele, que também quer seguir carreira na medicina.

O filme mostra as dificuldades dos dois rapazes de encarar a barra de estudar e quase esquecer sua vida social. Quando Benjamim surta de tanto estudar, a amizade entre os dois fica por um fio.

Primeiro Ano é um filme leve mas tem o compromisso de mostrar que tudo o que fazemos em nossas vidas precisa ter um equilíbrio. Mesmo com tanta determinação em estudar para conquistar um antigo sonho, a vida dos dois jovens não pode quebrar em função desse mesmo sonho. Isso é visível pelo trabalho de Thomas Lilti tanto no texto como controlando a cena. Ele deixa os rapazes soltos para expressar suas frustrações, sem perder a humanidade que uma situação tensa como é a escolha do futuro profissional, precisa.

Curiosamente, o diretor declarou durante o lançamento de Primeiro Ano que não queria fazer um filme sobre o sistema educacional francês, mas sobre a juventude e seus passos em direção a uma carreira. Se fosse aqui no Brasil, dificilmente veríamos um discreto ato nobre que Antoine faz para preservar a amizade de Benjamim. Num momento que tudo é questionado, seja de esquerda ou direita, é bom ver um filme onde a humanidade prevalece acima de dogmas políticos ou comportamentais.

Brilhante e singelo, Primeiro Ano, um filme para ver várias vezes. Veríssimo adoraria escrever sobre esse filme…

OBS.: as informações sobre o sistema educacional francês foram fornecidas pelo cônsul adjunto, encarregado de assuntos políticos e imprensa do Consulado Geral da França em São Paulo, Nicolas Laitselart

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Nota
10
Nota
O bom
  • Ser avaliado por sua capacidade é melhor do que chutar uma resposta
  • Um filme dedicado às pessoas que preservam as amizades em situações complicadas
  • Nada como ver dois futuros astros do cinema brilharem antes da fama.
  • Direção
    10
  • Roteiro
    10
  • Elenco
    10
  • Enredo
    10
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CriticasFilmes

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