[CRÍTICA] Reza a Lenda – Mercenários e profecias do sertão brasileiro

Em Reza a Lenda, um grupo de motoqueiros são capazes de fazer qualquer coisa para que chova Achou confuso? Sim, nós também. Conferimos o novo longa brasileiro Reza a...

Em Reza a Lenda, um grupo de motoqueiros
são capazes de fazer qualquer coisa para que chova

reza-a-lenda-filme-brasileiro-poster-01Achou confuso? Sim, nós também. Conferimos o novo longa brasileiro Reza a Lenda, do estreante diretor Humberto Oliveto. A trama, que vinha sendo comparada a Mad Max por ter elementos visuais pós-apocalípticos, faz uma homenagem à literatura de cordel nordestino.

O longa se passa no “belíssimo” sertão brasileiro. Com um bom uso da fotografia natural, Reza a Lenda conta a história de um grupo de mercenários órfãos que foram resgatados ao longo dos anos por Pai Nosso (Nanego Lira) e Deinha (Zezita Matos). Já adultos, eles sofrem com a falta de chuva no local e creem na profecia do Galego Lorde (Júlio Andrade), que afirma que é necessário por a Santa de Ouro no local certo para que a chuva caia. Em troca, ele pede por uma prenda, mais especificamente, uma mulher.

Ara (Cauã Reymond) e Severina (Sophie Charlotte) são os líderes do grupo ao lado do casal ancião, e acabam roubando a santa de Tenório (Humberto Martins), um homem abonado da região que faz justiça com as próprias mãos. Após levar a santa até o suposto local correto, o grupo inicia uma corrida contra o tempo para ofertar Laura (Luisa Arraes) como prenda enquanto fogem dos capangas de Tenório. Laura, que saiu viva de um acidente de carro, serve apenas como um objeto na mão dos mercenários e um possível problema na relação amorosa de Severina e Ara. Será que eles vão conseguir agradar Galego Lorde e fazer chover? Reza a Lenda que sim.

Viu? Confuso…

Este conto resulta em um filme um pouco cansativo pelo excesso de cortes nas cenas, uso aleatório da trilha sonora e um elenco pouco envolvente. Reymond e Charlotte têm seus bons momentos em tela, mas falta espaço para os demais personagens se desenvolverem. Ara é rapaz de poucas palavras e muita atitude e Severina é  uma mulher forte e porradeira que tem seus momentos de fragilidade e confusões psicológicas pelos novos sentimentos vividos, como o de perder “seu homem”. Suas personalidades fictícias não são suficiente para segurar a proposta do longa que, mais uma vez, não se estabelece como um filme de fantasia, fé ou ação, mesmo sendo uma bela homenagem ao estilo de literatura. Em alguns momentos temos excelentes takes de perseguição, embalados por uma edição de som interessante. Por outro lado, o tema religião aparece como uma bengala para que a profecia e a ambição dos personagens se mantenham na trama. E a fantasia é trabalhada na ótica do Galego Lorde que usa de seus instintos ou magia para instigar Ara. Nesta mistura toda, ainda somos impactados com temas como opressão e injustiça. Reza a Lenda tem um excelente material em mãos, mas foi prejudicado, talvez, pela falta de experiência do diretor, mesmo que ousado. 

É difícil se interessar pela história. Nem mesmo a religião, que surge como uma leve crítica social da precária vida que as pessoas levam no devastador sertão, assegura que Reza a Lenda seja um filme forte que toque a audiência. Inspirado em literatura de cordel, os pequenos livros que contam histórias do povo em formato de rima, temos aqui uma versão mais explosiva dos temas abordados em O Auto da Compadecida (2000). O papel da fé e o misticismo, as dificuldades da vida no sertão, as guerras entre os foras da lei e os coronéis. O que deveria ser um grande passo no cenário brasileiro de filmes com um gênero peculiar e pouco explorado, se transforma em uma obra rasa prejudicada também pelas cenas em CGI que não foram bem executadas. De certa forma, o longa remete aos filmes de ação dos anos 70 dos EUA no estilo grindhouse, grande fonte de inspiração para diretores como Quentin Tarantino e Robert Rodriguez, com sua temática peculiar e o baixo orçamento. Reza a Lenda não pode ser considerado exatamente um filme bom, mas quando misturamos uma temática universal à cultura Brasileira com aquele estilo super violento dos cinemas de borda de outrora, será que estamos testemunhando o surgimento do primeiro gênero de cinema de ação 100% Brasileiro?

O longa ainda conta com o ator Jesuita Barbosa como Pica-Pau e Silvia Buarque como Tereza. Reza a Lenda estreia dia 21 de janeiro no Brasil e está longe de ser um bom filme nacional marcante, mas tem seu mérito por ofertar uma película nova. O vestuário dos personagens realmente carregam as referências de Mad Max, mas não é só de figurino que um filme se torna relevante. 

Küsses,

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Tatá Snow

“Crítica” de cinema – prefiro ‘analista de entretenimento’, fanática por comédias românticas e viciada em Sex and The City. Ah…#TeamCap

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