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CRÍTICA | ROMA (Netflix) - Divisor de opiniões, mas com algo a dizer

Demora para engrenar, mas vamos entender o por que...

ROMA chegou na Netflix no ano passado. O favorito no OSCAR 2019 é um filme em preto e branco, com uma história rasa, mas poderoso

Finalmente me rendi e assisti ROMA, o último filme dirigido e roteirizado por Alfonso Cuarón. Este é um raro momento onde assumo a “primeira pessoa” por aqui, mas o longa merecia esse cuidado, já que o diretor também teve muito cuidado ao nos contar parte da história de Cleo.

A história péssimamente explicada 

De volta aos anos 70, a Cidade do México passava por momentos complicados. Terremotos destruíram boa parte da cidade e em meados de 71, o Massacre de Corpus Christi, conhecido também por Halconazo, deixou centenas de jovens estudantes mortos após protestos para que presos políticos fossem soltos e por pedirem que o governo investisse mais na educação.

O ocorrido marcou a história do México, principalmente por que soldados treinados pela CIA e financiados pelo Estado foram para as ruas reprimir os jovens. Alguns sobreviventes afirmam que os paramilitares usavam a arte marcial japonesa kendo como recurso mas, no final do dia, armas de fogo tiraram a vida das vítimas.

ROMA passa por esta fase da Cidade do México por meio da história de Cleo, a empregada doméstica de uma família de classe média, que lida não só com suas questões mas também com a ruptura dos patrões quando o marido desta família resolve ir embora. Enquanto Sofia e seus filhos se acertam, Cleo precisa superar que fora abandonada pelo namorado grávida e lidar com o fato dele ser um dos paramilitares treinados.

A história em ROMA

De forma (bem) lenta, íntima e sensorial, Alfonso Cuarón conta a trajetória de Cleo dentro de uma família em ruínas durante uma época que a Cidade do México ficou em ruínas. O longa não se aprofunda nas questões políticas, mas retrata a cidade de forma muito rica por meio de sons e uma cenografia impecável, te levando para a cultura da época sem precisar colocar uma única cor.

A cacofonia de ROMA é algo belo de dar atenção, mesmo que incomode muitas vezes. Do dia a dia de Cleo na casa, entre barulhos de cachorro, crianças gritando, panelas batendo e motores de carros, aos vendedores ambulantes e gritaria da cidade que tenta se manter viva em uma época de tristeza e destruição.

ROMA é uma obra de arte de um ponto de vista técnico, mas se eu não tivesse explicado nada disso acima, certamente você nem assistiria, principalmente por que quase todas as matérias que envolvem o filme só falam sobre ser um “retrato da infância do diretor”. Da mesma forma que ROMA passa superficialmente sobre um do momentos históricos mais marcantes do século passado no país, é bem difícil se entregar ao longa para evitar uma crítica superficial. E vai por mim, foi bem difícil mesmo.

Técnica e nada mais

Difícil por que a direção alterna entre parada e mais parada. Cuarón leva para a tela closes desnecessários, parando o filme em cenas da Cleo acordando as crianças, servindo a mesa, abrindo e fechando o portão que sim, não conversam com a questão política e tão pouco cria empatia entre espectador e roteiro.

Não é um filme de história interessante e sim de poucas cenas realmente bem filmadas e encenadas. Cuarón traz momentos para a tela de pura angústia e aflição, mas são poucos, o que para mim não sustenta o hype em torno da produção.

Oscar x críticos x público

Eu geral eu tenho visto as pessoas falarem bem do filme, mas quase todos pontuam a lentidão. Além disso, o longa ganhou espaço nas premiações fora dos circuitos independentes, o que nos leva para o lado feio do entretenimento: o lobby.

Sabemos o quanto o marketing dos filmes investem nas premiações para que as produções sejam indicadas e vencedoras. Pantera Negra, de fevereiro do ano passado, está aí para provar. Com ROMA não foi diferente. A Nefflix brigou, colocou o filme nos cinemas, fez uma merreca na bilheteria e levou o filme para o Oscar. Agora pergunta se eles divulgam quantas vezes o filme foi assistido na plataforma… Pois é.

Polêmicas e muito bafafá?

A atriz escolhida para viver Cleo nem artista é, apesar de trazer mais humanidade para a história, ainda é cinema. Ela entrega bons momentos, mas também discordo de ser digna de uma indicação de Melhor Atriz em um Oscar. Claramente o lobby feito para ROMA funcionou, mas ainda falamos de entretenimento.

Entendo todas as questões do diretor, suas homenagens e o retrato que ele quis levar para tela, mas ROMA é um filme puramente pessoal, quase biográfico, com uma excelente técnica sonora e um visual deslumbrante. Mas a história, o roteiro em si, passa longe de ser memorável. Afinal, tive que embasar o que não é detalhado no filme para vocês, quem sabe, dar play nele lá na Netflix.

E usar elenco que nunca atuou e bater nessa tecla em todas as entrevistas, é uma forma bem pretensiosa de se esconder atrás de frases como: “Eu não esperava que o filme fosse ter essa repercussão toda…” Ok, senta lá, Claudia.

Vale a pena? 

Não é uma produção Hollywoodiana, não é um blockbuster e tão pouco um filme marcante. Para muitos, ROMA será esquecido em meses e, infelizmente, o que mais vamos ouvir é: “Por que se chama Roma?”

Apesar disso, gosto de crer que tenha sido mais um passo para o cinema mexicano explorar outros acontecimentos e singularidades que vão além da pobreza, tráfico de drogas, Dia de los Muertos e Frida Kahlo. Está na hora de conhecermos a raiz da cultura Mexicana de forma crua. E isso Cuarón faz muito bem e é belo de se admirar.

Aliás, este é o momento de citar o magnífico Y tu mamá también (E Sua Mãe Também) de 2001, dirigido e roteirizado por Cuarón que também explora a cultura local de forma simplista por meio de dois amigos que viajam pelo país tendo experiências diversas. Trazendo para a tela temas político-econômicos, este drama é bem mais profundo que ROMA e pontua melhor a diferença social da população na época.

Ainda assim, morri de vontade de fazer compras nas ruas de Roma… No México.

O longa concorre em 10 categorias no Oscar 2019, mas deve levar as estatuetas de Melhor Filme Estrangeiro, fotografia e algo técnico na parte de mixagem de som.

Assista e tire as suas próprias conclusões.

Küsses,

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Nota:
7.5
Nota:
O bom
  • Cena do parto
  • Cena do ex-namorado no campo de treinamento
  • Cena do mar
O ruim
  • É muito lento
  • A história da cidade ainda é mais interessante do que a da protagonista
  • Já falei que é leto?
  • Direção
    10
  • Elenco
    5
  • Roteiro
    5
  • Produção / Fotografia
    10
Categorias
CriticasFilmes

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