[CRÍTICA] Sense8 – Primeira Temporada

Sense8 explora um mundo conectado por meio da ficção científica É impossível ignorar as incontáveis mudanças que tem acontecido no mundo. Querendo ou não, hoje diferentes pessoas, culturas e...

Sense8 explora um mundo conectado por meio da ficção científica

É impossível ignorar as incontáveis mudanças que tem acontecido no mundo. Querendo ou não, hoje diferentes pessoas, culturas e pensamentos convergem lentamente a caminho de uma única realidade. Sense8, a nova série da Netflix criada pelos Wachowski e J. Michael Straczynski, explora um mundo onde oito pessoas nascidas no mesmo momento são inexplicavelmente conectadas. Os “sensates” conseguem se comunicar telepaticamente e até mesmo compartilhar conhecimentos e habilidades adquiridas ao longo de suas vidas. A série, constrói muito bem oito realidades paralelas que gradualmente se misturam e trazer à tona histórias entre personalidades que raramente teriam a oportunidade de se encontrar no mundo real.

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Mais interessada em explorar como os sensates interagem entre si, Sense8 não oferece muito em termos de enredo. Apesar do elenco diversificado, não espere uma trama bem estabelecida como Lost ou Heroes. Existe um inimigo comum e uma força que eventualmente se torna o foco principal e leva os oito rumo a uma batalha final, mas o verdadeiro poder da série vem em derrubar barreiras culturais, sexuais e étnicas para criar uma experiência única.

Lito (Miguel Ángel Silvestre) é um ator de filmes mexicanos conhecido por sua persona sensual e super masculina. Cobiçado por mulheres, e invejado pela sua presença em filmes de ação, o ator secretamente é gay e vive um intenso romance com Hernando (Alfonso Herrera). Por mais que este valorize seu relacionamento, Lito é completamente paralisado de medo quando cogita a possibilidade de se revelar ao público sobre sua verdadeira orientação sexual. Já nos EUA, temos Nomi (Jamie Clayton), uma mulher transexual que abriu mão da vida privilegiada com a mãe conservadora para se assumir como realmente é e viver sua vida. Ambos os personagens vivem um dilema semelhante e sua eventual interação na série é muito marcante. Há uma complementaridade na história de ambos e assim, os sensates conseguem evoluir e superar suas dificuldades ao compartilhar suas vivências. Lito cria a coragem para lutar pelo seu amor e Nomi aprende a valorizar tudo que tem.

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Estes choques de realidade são o que dão a Sense8 um fôlego para se destacar das inúmeras séries de ficção com grande elenco que surgiram desde Lost. Os contrastes entre riqueza/pobreza, aceitação/rejeição, coragem/medo, e outros opostos, oferecem uma dinâmica única entre os personagens. Em Nairobi, Capheus (Aml Ameen) viva uma vida difícil como motorista de ônibus, onde precisa lidar com sua mãe contaminada pela AIDs e enfrenta diariamente gangues de criminosos. Apesar da situação complicada, está sempre alegre e positivo, tirando inspiração de seu ídolo Jean Claude Van Damme. Sua presença oferece um contraste interessante, sempre com aparições em momentos onde os demais personagens estão em momentos de crise ou tristeza. O jovem africano sempre aparece encantado e admirando muitas coisas que as vezes, passam despercebidas na vida.

Esta complementaridade nos leva a teorizar que, apesar de oito personalidades radicalmente diferentes, os sensates, de certa forma, compõem um único ser. Um humano que tem seu lado bruto, seu lado violento, seu lado sensível, seu lado alegre, seu lado triste, seu lado homem e seu lado mulher. E mostra, de forma atenta, como as diferenças entre as pessoas as vezes são mais rasas do que imaginamos e tudo o que podemos aprender se deixarmos de lado algumas barreiras. Com uma sensibilidade muito atenta em não deixar personagens virarem esteriótipos, a série tece uma experiência envolvente e um vislumbre interessante deste mundo cada vez mais conectado que vivemos.

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Não vá achando que pela temática complexa, Sense8 é só falatório e filosofia. A série tem algumas das melhores cenas de ação já dirigidas e coreografadas no formato, e a forma como os sensates surgem, em meio as crises, para um ajudar o outro é bastante inovadora. Seus perfis são variados, não só em termos de personalidade, mas também como suas profissões e conhecimentos ajudam. Sun Bak (Bae Doona) é uma perigosa lutadora de kickbox, Nomi é uma hacker, Kala (Tina Desai) é cientista e apesar de seu pragmatismo, traz uma perspectiva interessante sobre religião e o papel da mulher em uma sociedade hindu; Wolfgang e Will (Max Riement e Brian J. Smith) sabem usar armas e não fogem da briga, até Lito é extremamente útil com suas habilidades de atuação cuja lábia é muito útil para fugir de enrascadas. Talvez, a única personagem cujo núcleo é um pouco desinteressante é a islandesa Riley (Tupence Middleton), que atua como DJ e essencialmente serve como a “donzela em apuros” da série. Sua história não é muito chamativa, mas uma única cena de seu passado é belamente filmada em meio à tundra islandesa, não entraremos nos detalhes para não dar spoilers.

Vale a pena? Sense8 é o tipo de série que te faz pensar, contemplar o mundo ao nosso redor, mas não abre mão de uma boa dose de ação e localizações incríveis pelo mundo. Se você busca uma série de ficção inovadora que ousa com visuais fortes, que não tem medo de explorar a sexualidade humana em suas diferentes formas e que está disposta a tirar barreiras culturais para vislumbrar o tipo de mundo que podemos viver, então essa série é para você.

Até a próxima!

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Editor-chefe da Freakpop. Adora cinema, mas odeia a palavra cinéfilo. Leu quadrinhos demais na vida e tem uma capacidade muito limitada de entender a realidade. Tudo que não explica com Máquina Mortífera, explica com Highlander. Sabe tudo sobre Soul Reaver e Crônicas de Gelo e Fogo. Seu signo é estegossauro.

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