[CRÍTICA] Sherlock: A Noiva Abominável

A Noiva Abominável é o estudo mais completo da mitologia por trás de Sherlock Holmes já adaptado Que a série Sherlock da BBC é uma das mais aclamadas de...

A Noiva Abominável é o estudo mais completo da mitologia
por trás de Sherlock Holmes já adaptado

Sherlock-BBC-A-Noiva-AbominávelQue a série Sherlock da BBC é uma das mais aclamadas de todos os tempos todo mundo já está careca de saber. Entre incontáveis posts no Tumblr e legiões de cumberbitches, esta versão modernizada do detetive mais famoso da literatura é rica em análises aprofundadas dos personagens e abençoada por um extenso conhecimento da obra literária de Sherlock Holmes na cabeça de seus roteiristas e produtores. Em A Noiva Abominável, todos estes fatores vem à tona para criar o que, talvez, seja o episódio mais ambicioso até agora, não só em escala e escopo, mas em referências tanto críticas quanto comemorativas do maior legado de Sir Arthur Conan Doyle.

A história começa com um mergulho de cabeça em um universo alternativo onde o lendário encontro de Sherlock Holmes e John Watson ocorreu em 1895, e não em 2010. Já acostumados com o convívio, a dupla enfrenta um complexo caso envolvendo uma psicótica noiva que aparenta ter o poder de voltar dos mortos para matar e assombrar diversos alvos na Londres vitoriana. O caso, como já é de se esperar, beira o sobrenatural em sua premissa e somente o excêntrico e antipático Holmes é capaz de resolvê-lo. Apesar do mistério intrigante, o verdadeiro valor da trama vem de sua preciosa análise crítica da construção do personagem.

Seguindo a tradição dos livros de Conan Doyle, Watson não é só o fiel escudeiro do herói, mas também seu cronista, um autor bem sucedido que já publicou inúmeros livros onde, graças a sua habilidade com palavras, transforma o sisudo e difícil de lidar Holmes em uma figura heroica carismática. Enquanto o mundo celebra os grandes feitos de uma mente brilhante, Watson é obrigado a aguentar a personalidade difícil, o vício em drogas, as tendências obsessivas e os hábitos auto-destrutivos de Holmes. Um paralelo muito interessante do lado sombrio do personagem que só é explorado da forma mais sútil nas páginas dos romances.

Mark Gatiss, um dos criadores da série e responsável pela interpretação de Mycroft Holmes – neste episódio, extremamente obeso e preguiçoso, como sua versão tradicional literária – já comentou sobre a necessidade de expandir o papel de certas personagens que mal tem presença nos contos. A Sra. Hudson, a simpática proprietária da 221b Baker Street, geralmente relegada a abrir portas e servir o chá, sempre teve uma presença expandida na série da BBC, em uma Londres onde as mulheres ainda estão no início de sua batalha por direitos, ela sempre comenta sobre seu papel simplista nas adaptações de Watson e deixa a entender que ela é muito mais que uma mera porteira. Assim como Mary Watson, que nesta realidade alternativa mantém o papel de simples esposa de John, mas que secretamente é uma agente para Mycroft. De forma cômica, porém extremamente relevante para o contexto, Watson é constantemente confrontado por mulheres que questionam porque não têm participações maiores em seus livros.

Este tom decididamente feminista da trama poderia ter sido jogado no enredo simplesmente para oferecer um contraste entre os tempos atuais e de outrora, porém A Noiva Abominável não dá ponto sem nó e a resolução chocante do caso é tão importante para o futuro da sociedade quanto para o próprio Sherlock, que não tolera perder no “jogo”.

O uso abusivo de entorpecentes por Holmes serve para conectar ambos “Sherlocks”, de 1895 e 2015, deixando no ar a incerteza de qual versão é uma mera alucinação e qual é de fato real. A invejável mente de Sherlock Holmes pode provar ser seu maior inimigo quando esta permite que sua realidade seja distorcida pela invasão da manifestação de seu maior medo: James Moriarty, o Napoleão do Crime, o único intelecto capaz de rivalizar Sherlock e a força maligna que quase provou ser o fim do detetive. Seu rival está morto, mas assim como o final da terceira temporada onde sua possível ressurgência coloca todos em alerta, na era vitoriana sua presença fantasmagórica assombra cada momento.

O confronto entre os dois culmina em um conflito simbólico nas Cataratas de Reichenbach, onde em inúmeras adaptações ambos já se enfrentaram. Aqui, o tom crítico da obra é deixado de lado para explorar, em tom apoteótico, o eterno triunfo de Sherlock sobre seu clássico inimigo e seu eterno retorno da queda, trazido de volta à vida por legiões de fãs adorantes que não admitiram a morte do personagem nas mãos do autor, principalmente sua mãe. Um final triunfal que, não só celebra o legado de Sherlock Holmes, mas também estabelece algumas potenciais revelações na próxima temporada.

Vale a pena ver? Com certeza, A Noiva Abominável é um episódio tenso, repleto de referências tanto dos livros quanto das séries da BBC, uma verdadeira jornada intelectual que é um prato cheio tanto para fãs da literatura quanto para fanáticos pela série da emissora e, como sempre, com uma atuação marcante de seus protagonistas: o Dr. Estranho e Bilbo Baggins.

Elementar meus caros leitores e até a próxima!

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Editor-chefe da Freakpop. Adora cinema, mas odeia a palavra cinéfilo. Leu quadrinhos demais na vida e tem uma capacidade muito limitada de entender a realidade. Tudo que não explica com Máquina Mortífera, explica com Highlander. Sabe tudo sobre Soul Reaver e Crônicas de Gelo e Fogo. Seu signo é estegossauro.

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