CRÍTICA | Simonal é um longa surpreendente

CRÍTICA | Simonal estreia nos cinemas

Simonal traz de volta o cantor que explodiu nos anos 1970 e caiu em desgraça sob as acusações de colaborar com a ditadura. O pico da fama é um...

Simonal traz de volta o cantor que explodiu nos anos 1970 e caiu em desgraça sob as acusações de colaborar com a ditadura.

O pico da fama é um lugar solitário e carente de base sólida, pronto a se desfazer sem aviso sob os pés de quem o ocupa. Essa máxima é comprovada mais uma vez na história de Wilson Simonal, astro da música popular brasileira quase esquecido que ressurge na biografia Simonal, que chega aos cinemas.

Dirigido por Leonardo Domingues, Simonal reconstrói o caminho do cantor dos bailinhos de quintal até o topo, passando por seu trabalho como assistente de Carlos Imperial (Leandro Hassum) em substituição a Erasmo Carlos, que deixou o trabalho para estrear como cantor na Jovem Guarda, história mostrada em Minha Fama de Mau. Dono de um timbre vocal de alta potência e uma inigualável presença de palco e comando sobre o público, Simonal estourou como nenhum outro cantor de seu tempo, chegando a comandar uma icônica apresentação no Maracanãzinho, onde eclipsou a estrela do dia, o brasileiro Sérgio Mendes, liderando a plateia de 30 mil pessoas em um coral de Meu Limão, Meu Limoeiro. Some a isso o comando de programas de rádio e TV , a criação de uma empresa para gerenciar a própria carreira e outra apresentação histórica, um dueto com Sarah Vaughan em The Shadow of Your Smile, e nada faltava a Simonal naqueles tempos.

O retrato que surge dessa jornada e da ótima interpretação de Fabricio Boliveira é um artista comprometido com a própria carreira e sua visão do tipo de música que deveria cantar para o seu público. O que, para Simonal, era um repertório de músicas alegres como Moro Num País Tropical, Sá Marina e Mamãe Passou Açúcar em Mim. É também um artista ciente de seu talento, do que sabia fazer bem e do que o sucesso representava, e representa, em ascensão social para alguém nascido pobre e sem conexões. Uma ciência que chegava à arrogância, ligeiramente adocicada pelo charme gigantesco, mas não muito. Simonal era bom no que fazia – como mostra a linda cena em que ele deixa o teatro – sabia disso e não escondia nem uma coisa e nem outra, uma combinação pouco eficiente em agir de forma inteligente e atrair simpatias, o que teve peso nos fatos e atitudes que levaram à sua derrocada.

Num tempo de polarização e linha clara entre amigos e inimigos, a escolha de Simonal de um repertório fora do espectro politico também representava uma inaceitável alienação, mas que seria apenas criticada, como foi a Jovem Guarda, se a ela não se tivesse juntado o rótulo de dedo-duro, de ter delatado outros artistas ao regime.  A acusação, ainda hoje presente, destruiu a carreira de Simonal e o transformou em um pária. Seus shows foram cancelados, ele foi banido da TV e do rádio, quem antes o procurava passou a evitá-lo e mesmo aqueles que o tiveram como influência não citavam seu nome, por medo de serem também classificados como favoráveis ao regime militar.  O filme não foge do que Simonal realmente fez, e isso não é spoiler, mandar alguns homens darem um “aperto” em seu contador, que ele acreditava ter desfalcado sua empresa. Longe de apenas um susto, Raphel Viviani (Bruce Gomlesvsky) foi torturado e assinou uma confissão do desfalque. Os agressores tinham ligações com o DOPS – Departamento de Ordem Política e Social, e dali o cantor passou a ser rotulado como colaborador por artistas e pela imprensa, comprovando outro ditado popular, quanto maior a queda, maior o tombo, e ninguém estava mais alto que Simonal naquele momento. A lógica de que, se fosse de fato parte do regime, Simonal seria protegido e mantido na TV e no rádio por força de ordem da censura que estava presente em cada jornal e emissora nunca entrou no raciocínio da acusação.

Entremeado por cenas do próprio Simonal nos palcos, o que não é necessário numa biografia romanceada e quebra o trabalho de Boliveira, e inserções de manchetes de jornais e revistas que dão um tom didático ao enredo, o longa deixa claro desde a cartela inicial que a história de Simonal é fruto do cenário político de seu tempo. Uma história que se faz atual ao mostrar o efeito das fake news no que elas têm de mais virulento, a capacidade de criar uma realidade paralela contra a qual nem a passagem do tempo, nem a verdade são capazes de lutar.

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Nota:
8.3
Nota:
O bom
  • Simonal é uma história que precisa ser contada, tanto pela qualidade artística do biografado como pelos fatos que cercaram sua carreira.
  • O longa tem interpretações sólidas, com Boliveira mostrando com perfeição a personalidade de Simonal, seu comando de palco e estilo.
O ruim
  • A inserção das manchetes de jornais da época aproxima o filme de um documentário e indica que a produção não confiou no público para compreender a grandeza do sucesso de Simonal ou de como as acusações foram além de boatos nos bastidores.
  • Direção
    7
  • Roteiro
    8
  • Elenco
    9
  • Produção / Fotografia
    9
Categorias
CriticasFilmes

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