Produção russa candidata ao Oscar, Sobibor, reconstrói a revolta de Sobibor ocorrida em 14 de outubro de 1943. Confira nossa crítica.

CRÍTICA | Sobibor – filme relembra levante de prisioneiros de campo de concentração

Produção russa candidata ao Oscar, Sobibor, reconstrói a revolta de Sobibor ocorrida em 14 de outubro de 1943. Confira nossa crítica....

Produção russa relembra o levante dos prisioneiros do campo de concentração nazista e o horror de viver sob o jugo da Besta.

No final dos anos 1970, um homem de cabelos brancos e olhos azuis estampou as manchetes dos jornais brasileiros. Após anos de fuga, o oficial nazista Franz Wagner havia sido encontrado aproveitando anonimamente a velhice no interior de São Paulo. A prisão confirmou a vocação do país como esconderijo de fugitivos dos mais diversos naipes, com reações que variavam do sentimento de justiça à incredulidade quanto ao que diziam que aquele idoso havia feito.

A Revolta de Sobibor

Produção russa candidata ao Oscar, Sobibor, encontra Wagner no auge da juventude como o segundo em comando do campo de concentração que dá nome ao filme, lugar irmão do gulag soviético, dos campos de prisioneiros chineses e outros tantos locais onde o gênio humano para o horror se mostra em toda a sua força, e cuja presença na história depende da capacidade de comunicação de suas vítimas. Baseado em fatos reais, o longa reconstrói a revolta de Sobibor ocorrida em 14 de outubro de 1943, quando cerca de trezentos prisioneiros atacaram os guardas e executaram um plano de fuga em massa.

A exemplo de outras narrativas de fatos históricos, Sobibor enfrenta a questão de como tornar interessante uma história cujo desfecho é conhecido. A opção é focalizar os personagens, em especial Alexander Pechersky (Konstantin Khabenskiy, de O Procurado) tenente do exército soviético enviado a Sobibor por ser judeu após passagens por outros campos nazistas e tentativas frustradas de fuga. Desde o início, seu olhar é mais alerta que dos demais prisioneiros. É um homem com experiência em combate e que vê o campo como um problema a ser resolvido. Sua prioridade é agir, e o longa mostra como essa energia divergente coloca Pechersky e seu grupo em oposição aos demais prisioneiros, gente que vê Sobibor como algo a ser suportado de cabeça baixa em nome da sobrevivência, retomando a discussão de que os judeus não resistiram à ação nazista. O filme também não foge de outras divisões internas, como a existência de colaboradores entre os prisioneiros, nem do papel que a corrupção e a complacência dos nazistas teve no sucesso do plano. O talento de Pechersky como líder está na capacidade de unir esses grupos e identificar a capacidade de cada um, enquanto o filme segue mostrando em tons lavados e trilha sonora melancólica até que ponto o ser humano pode chegar quando tem poder total sobre o outro. Em uma cena emblemática, os prisioneiros seguem tirando o chapéu em deferência a um oficial nazista mesmo quando isso não é mais necessário.

O foco é no heroico, na construção da confiança dos prisioneiros de que poderiam ser bem sucedidos, ou de que a rebelião era a única saída, mas com o devido espaço para a violência sem sentido, o assassinato em massa, a sobrevivência como fruto da pura sorte de não ser o número dez na fila, a desumanização. Cenas difíceis de assistir e ainda mais de compreender, e que justificam o apelido que Wagner (Wolfgang Cerny, de Action Team) recebeu dos prisioneiros, a Besta de Sobibor, que escapou da morte por não estar no campo no dia da revolta. Parte do prolífico gênero de filmes sobre o Holocausto, Sobibor registra o que nazistas e soviéticos tentaram apagar com o esquecimento. Relembra e chega ao catártico nas cenas em que os prisioneiros se rebelam, e, embora muitos personagens careçam de maior profundidade, deixa marca.

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