[CRÍTICA] Stranger Things – Ficção Científica, Suspense, Terror e RPG. Seja bem-vindo!

Crítica assinada por Rodrigo Baldin, novo colaborador da Freakpop. Stranger Things, 1ª temporada da série original da Netflix  é muito mais que o anos 1980! Que Stranger Things foi um...
Crítica assinada por Rodrigo Baldin, novo colaborador da Freakpop.

Stranger Things, 1ª temporada da série original da Netflix
 é muito mais que o anos 1980!

Que Stranger Things foi um absoluto sucesso ninguém pode negar. Vá e role seu feed do Facebook e demais redes sociais: comentários positivos pululam e asseguram a qualidade da série. Há quem tenha gostado pela nostalgia dos anos 1980, trilha sonora deliciosa, atuações cativantes do elenco mirim, retorno de Winona Ryder ou mesmo pela trama que reúne elementos de grandes sucessos do passado e que homenageiam clássicos que nossa memória afetiva guardará pra sempre.

E isso já é o suficiente para justificar quase oito sem-parar-horas-na-frente da TV pra cumprir uma das melhores maratonas de série dos últimos tempos.

E quem não viveu esse momento dos anos 1980 não vai sentir a série como todo mundo?

Vai.

Sentir é o termo correto.

A obra idealizada, escrita e dirigida pelos irmãos Duffer (apenas dois episódios dos oito são dirigidos por outra pessoa), Stranger Things tem as medidas certas de drama, suspense e terror sem errar na dose de alívio cômico para explorar ao máximo os jovens atores que nos conduzem, no ápice da sua espontaneidade, a uma aventura além dos limites da imaginação de um inocente jogo de RPG, que é onde conhecemos Mike, Will, Lucas e Dustin (sendo este, a grande revelação da série).

A história é simples: após uma partida de RPG até altas horas da noite, Will, Lucas e Dustin saem da casa de Mike. No caminho de casa, Will desaparece e, durante as buscas na noite seguinte, Mike encontra a menina Eleven (Onze, em português) que, sem spoilers, é o núcleo de ficção científica da série. Descobrimos um monstro que ameaça à todos. A partir daí temos um desenvolvimento primoroso dos personagens adolescentes e adultos que é o ponto forte dessa série memorável. Já voltamos nesse ponto.

Com oito excelentes roteiros, a série não tem nenhum episódio, digo capítulo, chato ou mais ou menos. São todos ótimos. Do ponto de vista técnico há o cuidado estético do diretor para que a montagem tenha transições para levar o expectador de uma locação à outra, para saltar de mundos paralelos e até mesmo para disparar o gatilho para os flashbacks que, em nenhum momento, soam como recurso barato. Como exemplos, perceba o momento que a luz de uma lanterna é contraposta à luz de uma lâmpada, ou mesmo como os irmãos Duffer exploram o tubo na boca de uma paciente como rima visual para um monstro que se alimenta de outro personagem. Já o desenho de som e a trilha sonora cumprem a função de mergulhar o expectador no terror psicológico que dá o tom nos momentos de maior tensão.

A direção de arte faz um trabalho excepcional ao criar cenários que rimam uns com os outros em vários momentos. Entre tantos exemplos que poderíamos destacar aqui, temos a banheira usada por Eleven em dois momentos diferentes e também as casas das famílias de Will e Mike. Com pequenas sutilezas na disposição de objetos dentro de fotografias semelhantes, em uma casa há uma agonizante perfeição que esconde a vida de aparências onde o pai “presente” sequer conhece os próprios filhos, já em outra, onde há compaixão e compreensão maior entre seus membros a ponto de se sacrificarem uns pelos outros mesmo depois do abandono do pai vemos…

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… que chega a esse ponto:

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E além de todas as qualidades técnicas e méritos de direção e atuação, por trás de Stranger Things está algo que qualquer pessoa pode facilmente se identificar: A força da série reside na relação com o monstro.

Sim, o monstro!

O significado da criatura sobre os personagens ecoa o medo que cada um de nós sente quando temos nosso mundo invertido acidental ou propositalmente. Na figura de Nancy vemos uma adolescente em plena descoberta da própria sexualidade. Jonathan tem o peso de ter assumido precocemente a figura de homem mais velho na família. Chief Hopper teve sua felicidade arruinada por uma tragédia familiar. Joyce enfrenta o terror da perda do filho mais jovem. Entre as crianças, o monstro de cada um representa a discriminação que eles sofrem por serem “diferentes” na escola e não é por acaso que aquele que acaba na escuridão é Will, perseguido por ser chamado de gay, mergulhado em um mundo paralelo tentando sussurrar aos amigos e parentes mais queridos onde podem encontrá-lo.

O monstro do mundo invertido os persegue de forma implacável e é impossível não se identificar com pelo menos um desses personagens.

Afinal, não é sempre que encontraremos uma Eleven: aquela criança de aspecto frágil pronta para fazer coisas impossíveis para espantar esses demônios dos nossos submundos particulares.

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Stranger Things é uma série completa que não precisaria de uma continuação: com todos os elementos clássicos e qualidade, com um fechamento satisfatório de enredos, a primeira temporada basta. Não gostaria de ver uma segunda temporada: não precisa de nada melhor e não merece nada pior. Porém, já a renovação já foi anunciada. O que acham?

Texto assinado por Rodrigo Baldin, para Freakpop.

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