CRÍTICA | Em Tully, Charlize Theron representa todas as mães

Em Tully, acompanhamos os sentimentos mais íntimos de uma verdadeira mãe e não aquela que a gente vê feliz da vida nas redes sociais

Tully é aquele filme que aperta no calo das mães de redes sociais onde tudo, aparentemente, é perfeito e cor de rosa

Não me venham com frases prontas para defender. Parir uma criança pode até ser uma benção divina, mas também é como visitar o capeta na 25 de Março em pleno Natal. Em Tully, Charlize Theron é uma mãe de dois filhos sobrecarregada com as atividades do dia a dia e um marido ausente que trabalha demais. Se a vida lhe deu um terceiro filho, ela até aceitou bem, mas sua verdadeira vontade é de mandar todos e tudo para puta que pariu.

Melancolia

O olhar é vago, o suspiro é profundo, a paciência existe, mas Marlo (Theron) está cansada. Com um filho recém-nascido e um marido assumindo uma nova posição na empresa, ela precisa se virar com as necessidades das crianças. Seu irmão, bem de vida e ostentador, a presenteia com uma babá noturna. Hesitante, Marlo aceita que Tully (Mackenzie Davis) entre em sua vida.

Todos os dias, às 22h, Tully chega em sua casa, cuida do bebê e Marlo consegue dormir. Uma das coisas que ela já não vinha fazendo entre uma mamada e outra e as duas crianças com suas questões.

Tully e Marlo

Marlo se afeiçoa pela jovem. A moça, de energia inacabável, transforma sua vida e a faz por pra fora todos os sentimentos existente sobre ser mãe. De forma enriquecedora, Marlo critica o escapismo de todas as mulheres que precisam mostrar e comprovar que ser mãe é lindo, calmo e maravilhoso, quando na verdade é algo exaustivo, que afeta a feminilidade, interfere na vida sexual do casal, leva embora boa parte da disposição, além de transformar o corpo da mulher.

Tully é um filme feminino

O longa é perturbador. Independentemente se você é mãe ou não, este filme perturba. Marlo é uma mulher de classe média, está de licença do trabalho, tem um filho especial, seu marido fica o dia todo fora e não tem noção nenhuma do que é gerenciar uma casa com três crianças. E tudo o que ela mais quer é que a vida seja mais tranquila. Só que não é o que acontece.

Lhe falta tempo para brincar com as crianças, ajudar na lição de casa e participar de atividades extras da vida dos pequenos. Com a chegada de Tully, sua vida ganha vida. Marlo consegue cuidar do corpo, dormir, curtir as crianças e resolver problemas da vida.

Questionamentos da vida de mãe

O mais interessante em Tully é a sutil forma como o roteiro de Diablo Cody traz à tona temas comuns na vida das mulheres. Ter tempo para malhar, cozinhar, fazer sexo e se cuidar não são temáticas exclusivas de mulheres com filhos, são temáticas de mulheres e ponto.

O roteiro também consegue comparar o estilo de vida de mulheres com mais dinheiro e menos dinheiro e a mesma quantidade de filhos, elencando a famosa discussão sobre os filhos crescerem com babás – que assumem a educação – e criticando a posição de uma mãe que acaba sendo apenas a “versão legal” no momento onde as crianças estão com ela.

Outro ponto interessante é a forma como Marlo é vista pelas pessoas pelo fato dela ter três filhos. Os olhares julgadores de “como será que ela consegue” surge como uma penumbra e a leva a usar isso como catalisador para suas ácidas respostas, humor negro e comentários irônicos que carregam um fundo de verdade sobre a sua situação como mãe de três filhos.

Relaxe vendo Tully

Outro ponto legal, para as mulheres de mente mais abertas, é que Tully consegue ser um filme relaxante como o Perfeita é a Mãe. Aquela vontade louca de xingar, gritar, desistir e etc que surgem nos momentos mais difíceis enquanto mãe, ganham a tela no longa como uma afirmação de que sim: é cansativo para caralho! Mesmo com um tom mais dramático e realista, o filme provoca uma reflexão intrigante.

O que é e como é ser mãe? Qual é o papel do marido e pai? Você precisa de uma babá? A escola substituiu a educação que você daria caso não trabalhasse? Você precisa largar o seu emprego para se dedicar única e exclusivamente aos filhos? Você consegue ser mulher e mãe ao mesmo tempo? As fotos e vídeos que você posta nas redes sociais com milhares de # e textões recheados de frases prontas representam a realidade da sua maternidade? O quanto a mãe se ilude no período de gestação? E, por último: o quanto uma mãe foge da sua realidade?

Vale a pena? 

Não conseguimos imaginar como este filme será “aceito” pelas mulheres, já imaginamos algumas reações, mas no fundo, torcemos para que a audiência entenda de vez que ser mãe não é especial, ser mãe não é único, o seu filho não é melhor do que outro, ser mãe biológica não é melhor do que mãe adotiva e que não é por que você tem um, dois ou três filhos, que você não será mais ou menos respeitada.

Tully traz à tona todas estas questões e é um filme necessário na vida das mulheres, concordando ou não. Estreia dia 24 de maio nos cinemas.

Küsses,

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Nota
9.5
Nota
O bom
  • Charlize Theron em atuação assustadora
  • Foco do filme é 100% a mulher
O ruim
  • Não há pontos ruins...
  • Direção
    8
  • Roteiro
    10
  • Produção / Fotografia
    10
  • Enredo
    10
Categorias
CriticasFilmes

"Crítica" de cinema - prefiro 'analista de entretenimento', fanática por comédias românticas e viciada em Sex and The City. Ah...#TeamCap

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