CRÍTICA | Vingadores: Guerra Infinita

Se o primeiro Vingadores foi um marco no cinema, o terceiro é um evento na história da sétima arte.

Vingadores: Guerra Infinita soluciona os maiores problemas da Marvel no cinema

Vingadores: Guerra Infinita é surreal. É difícil imaginar que apenas 10 anos atrás, a Marvel mal tinha um elenco de personagens “famosos” para criar um universo cinematográfico. Suas melhores propriedades como os X-Men e o Homem-Aranha estavam sob uso de outros estúdios e a Marvel Studios precisaria arriscar tudo adaptando o Homem de Ferro para os cinemas. Tratava-se de um personagem que nem entre os fãs de quadrinhos era particularmente popular na época.

Depois disso, vimos o Universo Cinematográfico Marvel virar uma verdadeira máquina de realizações impossíveis. Pense assim. Você já imaginou que um filme sobre personagens C da Casa das Ideias, com um elenco envolvendo uma árvore que anda e um guaxinim falante seriam um dos filmes mais emocionantes dos últimos tempos? Ou que um filme sobre um rei de uma nação africana fictícia que se veste de felino teria uma das maiores bilheterias da história do cinema? Ou que tal um filme sobre um personagem criado na década de 40 se tornaria quase profético sobre o uso de informações pessoais por organizações com objetivos nefastos?

Você já imaginou uma realidade onde o filme de um grupo de super heróis unindo forças contra o mal, que essencialmente redefiniu como filmes blockbusters são produzidos, foi Vingadores e não a turma do Superman e cia?

Enfim, você já imaginou que Vingadores: Guerra Infinita não traz consigo somente o peso de 18 filmes e dez anos de planejamento e produção, mas uma escala titânica que se compara apenas com os crossovers mais épicos que a editora já publicou? Pois é.

Thanos chegou

Ao contrário das aberturas bombásticas, o longa abre com um desesperado pedido de resgate e uma tela negra. Os remanescentes asgardianos que sobreviveram ao Ragnarok enfrentam uma ameaça que faz até mesmo as divindades que comandam a fúria e o trovão tremerem derrotados. Seu nome é Thanos, e ele busca as Jóias do Infinito.

O Titã Louco (Josh Brolin) não é um mero vilão receita de bolo da Marvel. Ele não está aqui para fazer algumas piadinhas no segundo ato e introduzir uma batalha sem graça no terceiro. Ele destrói, mata e aniquila com a confiança que seu propósito aterrador é o certo. Thanos se enxerga como o único capaz de carregar tamanho fardo e realizar sua missão: aniquilar metade do universo. Sua mente deturpada acredita que somente assim a vida irá prosperar.

Para cumprir tal objetivo, Thanos e seus asseclas da Ordem Negra singram o Universo como cães raivosos em busca das jóias do infinito que concederão ao seu mestre os poderes de um deus. E vale lembrar que duas das jóias estão na Terra.

A Manopla do Infinito

Thanos possui em suas mãos uma ferramenta terrível, a Manopla do Infinito. Este artefato forjado nos confins místicos de um dos reinos sob a proteção de Odin é capaz de unificar todas as Joias do Infinito em um único artefato. A luva tem um lugar para cada joia e assim permite que o usuário acesse os diferentes poderes que cada pedra concede. Caso todas sejam reunidas, o portador da Manopla  consegue moldar a realidade, controlar o tempo, manipular mentes, destruir vidas e/ou se transportar para qualquer lugar.

A Manopla se originou na mega saga A Manopla do Infinito de Jim Starlin, que foi crucial para a Marvel desenvolver “O” formato de crossover de títulos que eventualmente se tornaria a fórmula de sucesso do MCU. Boa parte da trama de Vingadores: Guerra Infinita se deve a esta extremamente bem sucedida saga e a saga Infinito de Jonathan Hickman, que introduziu a Ordem Negra e alguns elementos adaptados para a trama.

Os eventos de Vingadores: Guerra Infinita foram construídos ao longo dos diversos filmes da Marvel que usaram joias do infinito como elementos do enredo e unificando ainda mais este universo.

Os heróis não estão preparados

Pelos trailers já é possível identificar que o filme organiza alguns núcleos de personagens bem inusitados. Os Vingadores estão separados desde os eventos da Guerra Civil. O Pantera Negra secretamente ofereceu suporte ao time do Capitão America e está disposto em transformar Wakanda no ponto focal da resistência da Terra. Os Guardiões da Galáxia são os primeiros a responder o chamado de resgate dos Asgardianos. Tony Stark e Stephen Strange se conhecem e o choque de ego de ambos é tão grande quanto o poder do vilão.

Espere muitas interações entre os heróis, mas estas acontecem de forma orgânica. As piadinhas também funcionam na medida e não tomam mais tempo que o necessário. Considerando o tamanho da ameaça, é interessante ver estes personagens que não se conhecem tão bem correndo contra o tempo para sobreviver e montar seus planos.

Os doces momentos de novas amizades e piadinhas a la Marvel só ajudam a tornar o que vem em seguida ainda mais impactante.

Este talvez seja o filme que mais se assemelha à um crossover genuíno nos quadrinhos. Super grupos diferentes medem egos antes de trabalhar juntos. O escopo completo do universo Marvel, dos mundos fantásticos à magia arcana e tecnologias impossíveis se juntam para criar uma aventura verdadeiramente épica e que de fato respeita a inventividade de 60 anos de publicações.

Ao contrário de alguns filmes da franquia, Vingadores: Guerra Infinita não bajula a audiência. É um filme que não para a cada minuto para explicar o que está sendo mostrado e espera que o público seja minimamente familiarizado com os filmes que vieram antes. O resto, é preenchido com a extensa mitologia da editora, incorporando diferentes ambientes e trazendo algumas surpresas inesperadas.

A Marvel reinventa sua própria fórmula

Apesar do sucesso estrondoso do Universo Cinematográfico Marvel, existem dois problemas recorrentes que assombram praticamente todos os filmes do estúdios nestes últimos 10 anos: o terceiro ato fraco e o vilão esquecível. Raramente o desfecho de um filme da Marvel vai além de uma batalha previsível e um final feito para preparar o próximo filme. Os vilões também, costumam ser unidimensionais e com motivações fracas.

Já em Guerra Infinita, as regras são viradas de cabeça para baixo. As consequências são reais, o vilão é dinâmico, o risco é concreto. Ou seja, quando finalmente chegamos nos finalmentes, quando chegou a hora da batalha final, não espere mais um festival de efeitos especiais e trocas de tapas e piadinhas. O sangue vai fluir, o sofrimento vai existir e esta não será mais apenas uma aventura para os seus personagens favoritos, mas sim um confronto que definirá o próprio futuro do Universo Marvel.

E com estas leves, porém significativas mudanças, que o desfecho de Guerra Infinita é devastador.

Thanos é o protagonista de Vingadores: Guerra Infinita

O que torna este filme tão inovador, em relação aos demais do conjunto, é o foco narrativo. Esta não é a história de heróis, ou sequer uma história dos Vingadores (tecnicamente, o grupo está desativado). Só existe um personagem que se julga o escolhido, que assume uma árdua jornada repleta de obstáculos e desafios e que precisa enfrentar grandes inimigos e sacrifícios para se tornar vitorioso em sua missão: seu nome é Thanos.

É fascinante ver um filme onde o protagonista é o vilão. Entendam, define-se por protagonista a figura central da narrativa. Aquele que enfrenta e supera os desafios para chegar no objetivo final. Esperamos que o herói triunfe na narrativa. E é isto que torna a trama de Vingadores: Guerra Infinita tão fascinante. Você é obrigado a acompanhar o vilão. E a nova caracterização de Thanos, sua personalidade e como ele enxerga sua missão, são assustadoramente envolventes.

É uma regra básica de boa narrativa. Os melhores vilões são aqueles que acreditam ser o herói. Pense nos mais icônicos vilões recentes como o Coringa (de Heath Ledger) ou o Loki. Eles cativam a audiência porque sua crença em sua missão é tão pura que uma parte sua se odeia por levemente concordar com eles. E Thanos facilmente se enquadra no panteão dos grandes vilões do cinema.

E vale a pena?

É difícil mergulhar na qualidade desse filme sem revelar partes sobre a trama. Vingadores: Guerra Infinita não é só o resultado de 10 anos de criação de um universo gigantesco intercalado. É um exercício em inventividade que leva a ideia de adaptar uma história em quadrinhos para uma escala nunca antes explorada.

Se o primeiro Vingadores foi um marco no cinema, o terceiro é um evento na história da sétima arte. O resultado de um estúdio que poderia continuar na zona do conforto com a garantia que qualquer novo filme seria assustadoramente bem recebido, mas como a Marvel Studios já mostrou em Pantera Negra, a Casa das Ideias está mais que disposta a explorar novas ideias e novas emoções.

Até a próxima!

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Editor-chefe da Freakpop. Adora cinema, mas odeia a palavra cinéfilo. Leu quadrinhos demais na vida e tem uma capacidade muito limitada de entender a realidade. Tudo que não explica com Máquina Mortífera, explica com Highlander. Sabe tudo sobre Soul Reaver e Crônicas de Gelo e Fogo. Seu signo é estegossauro.

Freak-Review
10
Freak-Review
The Good
  • Primeiro vilão protagonista da história do MCU
  • Quem diria que Gamorra ia carregar o peso emocional do filme?
  • Belo cameo de um vilão da Fase 1!
The Bad
  • Capitão America e T'Challa foram um pouco sub-aproveitados.
  • Direção
    10
  • Roteiro
    10
  • Elenco
    10
  • Enredo
    10
  • Thanos
    10
  • Wakanda Forever
    10
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