[CRÍTICA] Zoolander 2 – Uma análise sobre a irrelevância da… relevância

Zoolander 2 diverte, mas faltam neurônios É praticamente um fato científico: continuações de comédia raramente dão certo. Zoolander é um filme que atingiu um certo status cult desde sua estreia...

Zoolander 2 diverte, mas faltam neurônios

zoolander-2-ben-stiller-will-ferrell-kristen-wiig-penelope-cruz-01É praticamente um fato científico: continuações de comédia raramente dão certo. Zoolander é um filme que atingiu um certo status cult desde sua estreia em 2001, mas nunca foi popular o suficiente para ser ressuscitado. Talvez, exatamente por isso, Zoolander 2 é um estudo fascinante sobre o nosso obsessivo ciclo de nostalgia que incessantemente ressuscita todo e qualquer filme, série de TV ou game que possa ter um mínimo valor sentimental para qualquer tamanho de grupo de pessoas.

Como é típico deste tipo de continuação, Zoolander 2 começa com uma introdução que desfaz o final do filme anterior. O centro de aprendizado construído por Derek Zoolander (Ben Stiller) é destruído dias após sua construção, resultando na morte de sua esposa Matilda (Christine Taylor), a desfiguração de seu amigo modelo Hansel (Owen Wilson) e a perda da guarda de seu filho. O homem que foi considerado o maior modelo masculino de todos os tempos passa os 15 anos entre as histórias vivendo como um ermitão, até o dia que recebe um convite para desfilar para Alexanya Atoz (Kristen Wiig), o maior nome da moda. E assim, com uma premissa forçada, Derek volta às passarelas e ruma novamente à relevância.

O mundo mudou radicalmente desde o sumiço de Derek e Hansel e se compreender estas mudanças já seria um desafio para uma pessoa normal, com a imbecilidade astronômica dos protagonistas não ajuda em nada. Ben Stiller no papel de diretor claramente tem algumas críticas a fazer sobre o ciclo extremamente acelerado de relevância que vivemos hoje em dia, e seu maior argumento, reside no personagem Don Atari (Kyle Mooney), um estilista über-hipster que só consegue se comunicar com uma mistura irritante de pós-ironia, falso saudosismo e nostalgia sem conteúdo. Em meio à gírias sem sentido, Atari é completamente incapaz de se expressar com qualquer tipo de profundidade sobre tema algum e simplesmente metralha Derek e Hansel com uma enxurrada de palavras e expressões vazias. Seu pseudo-saudosismo é tão insípido que ele cria uma camiseta “nostálgica” de Derek com uma frase que o modelo disse 15 minutos antes.

O mundo da moda é um panorama perfeito para estudar esta velocidade desenfreada onde algo se torna popular e logo perde a relevância. Como sempre, as personalidades exageradas dos estilistas, os figurinos sem praticidade e os ambientes de desfile inseguros contextualizam muito bem um mundo mais preocupado em propor uma ideia que cause impacto imediato e sem profundidade, afinal, ninguém espera que a mesma sobreviva o suficiente para ser discutida e analisada. Benedict Cumberbatch interpreta “Tudo”, um/a modelo/a sem identidade sexual definida que é o mais admirado pelo mundo da moda, sua identidade e o que ela (pessoa) representa é pós-moderna demais para fazer sentido para o mundo, mas mesmo assim é aplaudida por pessoas que se preocupam mais em demonstrar sensibilidades modernas do que realmente entender o que está acontecendo. A estética e composição do filme refletem esta mentalidade com cenários gigantescos e cheios de exagero e uma trilha sonora bombástica e dramática que induz a audiência a sentir a tensão da cena mesmo que esta não necessariamente exibe algo que condiz com a emoção na música.

Infelizmente, Stiller, também como roteirista, falta a inteligência necessária para se divertir com esta complexa meta-narrativa. Talvez sob o comando de Adam McKay ou Dan Harmon, Zoolander 2 ofereceria mais risadas e originalidade. Infelizmente, a trama se interessa mais em reciclar algumas piadas do primeiro filme e fazer algumas observações que já estão fora de época e zombar grandes estilistas da moda que, apesar de ganharem pontos por participarem da brincadeira, são piadas muito específicas para entendedores do mercado. Existe bastante potencial na personagem de Alexanya, uma clara paródia de Donatella Versace, interpretada pela genial Wiig, mas sua falta de tempo em tela tornam a personagem uma piada rasa e um pouco sem rumo.

O longa ganha fôlego e energia no terceiro ato com o retorno de Jacobim Mugatu (Will Ferrell), que assim como no primeiro filme, faz tanto o papel de vilão principal quanto voz da razão em um mundo obcecado com sua própria vaidade. De resto, o longa é recheado de participações especiais de celebridades que simplesmente entram na tela, falam alguma fala em tom semi-interessado e somem e algumas atuações bastante divertidas, especialmente Penelope Cruz como uma agente da “Divisão de Moda” da Interpol e Cyrus Arnold como o filho de Derek Zoolander.

Zoolander 2 é o tipo de filme que vai ter dificuldades em garantir sua presença no cinema, especialmente ao considerar a relevância questionável do material. Porém, ao considerar a crítica por trás do filme, seria essa sua verdadeira intenção?

Confira também Tatá Snow (Freakpop) e Samantha Mahawasala (Fashion Bubbles) comentando o filme no programa #FreakpopNoCinema.

Até a próxima!

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Editor-chefe da Freakpop. Adora cinema, mas odeia a palavra cinéfilo. Leu quadrinhos demais na vida e tem uma capacidade muito limitada de entender a realidade. Tudo que não explica com Máquina Mortífera, explica com Highlander. Sabe tudo sobre Soul Reaver e Crônicas de Gelo e Fogo. Seu signo é estegossauro.

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