Edgar Allan Poe 210 anos

Edgar Allan Poe | O Favorito de Hollywood

No aniversário de Edgar Allan Poe, veja aqui filmes e séries baseados nos contos e legado do autor do lendário poema O Corvo. Filmes de Edgar Allan Poe....

O cinema e a TV adoram as histórias cheias de sangue, violência e melancolia de Edgar Allan  Poe.

“Como te chamas tu na grande noite umbrosa?”

“E o corvo disse: Nunca mais.”

E mesmo os pouco amantes de poesia reconhecerão o verso de O Corvo, de Edgar Allan Poe, que completaria neste sábado, dia 19 de janeiro, 210 anos.  Afinal, quantos poetas tiveram seus versos declamados por Homer Simpson no especial de Halloween? E com a participação de Lisa, Bart e James Earl Jones?

Autor de poemas inesquecíveis, como o apaixonado Annabel Lee, e dono de uma prosa poderosa, com muita ênfase no uso dos sons das palavras para criar impacto sobre o leitor, Poe foi eternizado na cultura popular como o típico escritor que morreu cedo (tinha apenas quarenta anos) falido, bêbado e drogado. O autor foi, de fato, encontrado na rua por Joseph W. Walker, funcionário do jornal Baltimore Sun, mas nem todos concordam que Poe estava caído na sarjeta. Desorientado, aparentemente bêbado, e vestindo roupas que não eram suas, Poe conseguiu informar o nome de um amigo, o Dr. Snodgrass, a quem Walker enviou um bilhete pedindo ajuda. Snodgrass e tio de Poe, Henry Herring, encontraram o escritor na taverna Gunner´s Hall, que naquele dia 3 de outubro de 1849 servia também como local de votação. De lá, Poe foi levado a um hospital, morrendo dias depois sem conseguir explicar o que havia acontecido e deixando um último mistério. Horas antes de morrer, o escritor havia chamado insistentemente por um “Reynolds”, que ninguém jamais descobriu quem era.  As causas da morte variam de “congestão cerebral” à hidrofobia, passando pela possibilidade de um assalto, já que Poe havia feito uma viagem em busca de assinantes para uma revista que pretendia lançar. Segundo o Bispo Fitzgerald, Edgar Allan Poe deixou Richmond com mil e quinhentos dólares no bolso. Mesmo considerando o valor absurdo, a assinatura de um ano da revista custava apenas cinco dólares, o fato é que Poe foi encontrado sem um tostão no bolso.

A imagem de Poe caído na sarjeta foi criada por um desafeto, Rufus Griswold, editor com quem o escritor tinha um relacionamento profissional ruim baseado em anos de opiniões literárias divergentes. A briga atingiu seu ápice no obituário de Poe publicado no New York Tribune, em que o autor, um tal Ludwig, dizia que poucos chorariam a morte do escritor. Ludwig era, na verdade, Griswold, que tanto tempo antes das redes sociais, usou um pseudônimo para se esconder de represálias. E que longe de terminar a briga por ali, seguiu obtendo os direitos de publicação dos trabalhos de Poe com a sogra do escritor, que aparentemente não sabia da inimizade. Griswold completou ainda o trabalho de difamação forjando cartas e mudando fatos, dizendo que Poe havia sido expulso da faculdade, e não deixado o curso por vontade própria, e que havia desertado do exército e não sido dispensado. Os amigos saíram em defesa de Poe, mas a imagem de grande autor destruído pelo álcool e as drogas, que tinha um fundo de verdade, ganhou o jogo.

Hollywood se enamorou cedo do autor que criou Auguste Dupin, o detetive que originou todos que lhe seguiram, incluindo Sherlock Holmes e Hercule Poirot, e que inaugurou em Os Assassinatos da Rua Morgue o estilo de investigação baseado em raciocínio lógico somado à intuição, o modelo clássico em que um detetive desvenda um crime aparentemente perfeito e no qual todas as evidências apontam para um inocente. Quando a indústria do cinema ainda engatinhava, em 1909, D.W.Griffith dirigiu Edgar Allan Poe, um curta que dramatiza a criação de O Corvo. O próprio Griffith voltaria a Poe, usando seus poemas como base para The Avenging Conscience em 1914. Nos anos 1930, quando Drácula e Frankenstein estavam no auge nas produções da Universal, Os Assassinatos da Rua Morgue ganharam uma adaptação com Bela Lugosi no elenco. Adaptada em um curta em 1928, A Queda da Casa de Usher ganhou um longa no mesmo ano dirigido por Jean Epstein, La Chute de La Maison Usher. Nos anos 1960, Roger Corman faria a sua versão da história em O Solar Maldito, a primeira de suas várias adaptações de Poe.  Em 1962, os contos Morella, O Gato Preto e O Estranho Caso de M. Valdemar se transformaram em Muralhas do Pavor, histórias estreladas por outro grande nome do terror, Vincent Price. O ator voltaria a Poe como narrador em Histórias Extraordinárias (1968), antologia com segmentos dirigidos por Roger Vadim, Louis Malle e Federico Fellini. No elenco, Brigitte Bardot, Alain Delon e Terence Stamp.

A lista de adaptações, fiéis e infiéis, segue pelas décadas seguintes sem perder a força, chegando a 2012 com o próprio Poe como personagem de O Corvo, onde John Cusack interpreta o escritor numa história em que um assassino em série recria os crimes narrados em seus contos. O tema do assassino inspirado pela literatura voltaria em The Following, série com James Purefoy como um professor que usa os poemas de Poe para comandar sua legião de seguidores.  No Brasil, o escritor inspirou Contos do Edgar, série exibida pela Fox em que um dedetizador serve de ligação entre várias histórias. Poe surgiria ainda como fonte para toda uma sequência de histórias em que o personagem principal é torturado de uma forma particular, partindo do emparedamento de Fortunato (nenhuma relação comprovada com a autora do artigo) em O Barril de Amontilado e aparecendo em Enterrado Vivo (2010), com Ryan Reynolds, e A Conspiração (2012), com Stephen Dorf, em que um agente do serviço secreto é mantido preso no porta malas de um carro. As viagens estelares respiram um pouco da história de Hans Pfaal, que foi à lua num balão dotado de tecnologia capaz de transformar o vácuo em ar respirável, conto de 1835 que pode ter influenciado Júlio Verne e outros tantos contatos com alienígenas. A decisão dos marinheiros de devorar quem tirasse o número menor em A Narrativa de Arthur Gordon Pym, ressoa em As Aventuras de Pi quando lembramos que o marinheiro devorado chamava-se Richard Parker. Ainda mais assustador é o fato de que um naufrágio real ocorreu anos após a morte de Edgar Allan Poe em que os sobreviventes esfomeados mataram e devoraram um marinheiro de 17 anos. O nome do infeliz? Richard Parker, mas essa história ainda não rendeu uma adaptação para as telas.

Violência, medo, horror, imagens simultaneamente terríveis e poéticas, o amor infinito e melancólico retratado em suas poesias, fantasmas, detetives, os primórdios da ficção científica e um histórico de inspirações e adaptações entrelaçado com a história da TV e do cinema. Apesar disso, transpor Edgar Allan Poe para a tela não é fácil. Adepto do efeito sobre o leitor, o escritor dedicou-se ao conto como forma ideal, o texto a ser lido de uma só vez para não permitir que o leitor se distraísse e escapasse de suas palavras. Tal concentração favorece a antologia e dificulta o longa metragem, onde a duração pode diluir o que as palavras na página fazem com tanta precisão. O que não quer dizer que Hollywood vai parar de tentar. Edgar Allan Poe´s Ligea deve estrear no segundo semestre e mais meia dúzia de projetos baseados em trabalhos de Poe estão em andamento. Trancado em seu caixão, Griswold deve estar louco da vida.

O Corvo

Nosso querido Paulo Gustavo, também homenageou o autor com sua própria leitura de O Corvo.

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