CRÍTICA |Elle – Saia da caixinha e se prepare para um filme visceral

Fácil julgar, criticar…. Mas sentir e administrar um ataque sexual e as consequências para a mulher… Nem tanto Em Elle vemos os conflitos de ser mulher. Pode ser comigo,...

Fácil julgar, criticar…. Mas sentir e administrar um ataque sexual e as consequências para a mulher… Nem tanto

elle-paul-verhoeven-3Em Elle vemos os conflitos de ser mulher. Pode ser comigo, com você, com a vizinha, com a sua mãe. Infelizmente, todas as mulheres podem ser atacadas brutalmente em suas próprias casas. E, assim como Michele, ser julgada. No caso dela, pela plateia que a assiste.

Michele (Isabelle Huppert) é uma mulher poderosa. Dona de uma empresa de desenvolvimento de games, é controladora, tem pulso firme e desperta fortes emoções. A maior parte deles de desprezo, principalmente por alguns funcionários.

Logo no começo, em uma cena tremendamente bem construída, vislumbramos o ataque de Michele por um ser mascarado, em sua casa, com seu gato assistindo. Sem detalhes até então, só um homem a estuprando e limpando o sangue antes de fugir. Como Michele reage? Levanta, coloca o vestido no lugar, limpa a bagunça feita e vai tomar banho. Um momento bem crítico, com uma cena belamente incômoda, com o sangue se formando na espuma. E Michele, sempre composta. Ao menos exteriormente.

É aí que a plateia julga: ela foi estuprada, pelo amor de Deus! Vá para a polícia, ao hospital, grite! Reaja! Mas não. Se vítimas de estupro têm um comportamento certo a seguir, Michele foge da cartilha e resolve não deixar esse episódio dominar sua vida. Só que o invasor não se dá por satisfeito e começa um jogo mental que deixaria uma pessoa com menos tenacidade alucinada.

O filme segue com a vida de Michele, entendemos mais sobre sua personalidade, suas reações, seus motivos e ficamos com mais pontos de interrogação decorando nossos rostos. E isso que torna tudo tão visceral. Real. E sim, nos sentimos uma merda, pois, de um jeito ou de outro, julgamos Michele por ela não seguir o papel de vítima. Ou por se aprofundar cada vez mais em uma perversão com seu atacante. Sim, ela descobre quem é! E, por mais que não siga a cartilha, não deixa de ser um show de atuação, de roteiro, de direção.

Michelle tem um passado complicado e carrega os traumas até hoje. Quando era criança, um dia, seu pai surtou e matou diversas pessoas da vizinhança. Um serial killer. Por conta da mídia e seu trabalho pesado, Michelle odeia chamar a atenção por que quer que seja, até mesmo por conta de seu estupro. Uma simples ligação para a polícia pode ressuscitar antigos sentimentos e medos, uma perda de um controle duramente conquistada, onde é melhor lidar com seu atacante do que com a polícia. Isso dá um vislumbre de seus motivos, além de deixar mais questionamentos a respeito de seu agressor: será por causa do seu pai, um homem prestes a ter sua audiência para liberdade condicional – e a mídia em cima novamente, chamando a atenção sobre qual seria o papel de Michele em tudo aquilo – ou um funcionário irritado? Ou nenhuma das opções anteriores?

Até os momentos finais do filme não sabemos qual é o plano de Michele. Aparentemente, em sua luta pelo controle, pela autossuficiência, ela apenas reforça o estigma de vítima, ao mesmo tempo que parece tudo um plano bem bolado. Suas ações são complexas e esperamos que algo faça sentido. Mas, enquanto isso, torcemos o nariz, questionamos o comportamento dela e expressões como: que idiota; qual o motivo disso?; ela merece tudo o que está acontecendo, afinal, só está reforçando a perversidade do agressor. Merece mesmo? Afinal, ela é a vítima, mesmo que passe por algo similar à Síndrome de Estocolmo. Mesmo com todas essas pistas, Michele é um show sobre o empoderamento feminino, sobre a retomada de controle com jogos mentais. Pegue aquilo que mais querem e tirem toda a graça do jogo. O que sobra no final?

Contam no elenco Charles Berling como Richard (o ex-marido), Anne Consigny como a melhor amiga e sócia Anna, Jonas Bloquet como Vincent, o filho complicado que insiste em ser pai, e os vizinhos Patrick e Rebecca, interpretados por Laurent Lafitte e Virginie Efira. Todo um mundo comum, com conflitos reais querendo seguir em frente e um final de tirar o fôlego. É tenso, é visceral, é feio, é deslumbrante, é doentio, é pervertido. E tudo feito de maneira magistral.

Dirigido por Paul Verhoeven, o filme estreou dia 17 de novembro nos cinemas.

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