Conheça o autor que inspirou o novo álbum do BTS Map of the Soul: Persona

Conheça o autor que inspirou o novo álbum do BTS Map of the Soul: Persona

Que bate papo maravilhoso!

Conversamos com o Dr. Murray Stein sobre o livro Jung – O Mapa da Alma e como foi descobrir que havia inspirado o mais famoso grupo de KPop do momento.

A contagem regressiva para o lançamento do novo álbum do BTS está chegando aos minutos finais com o lançamento de Map of the Soul: Persona nessa sexta-feira, 12 de abril, quando é certo que o grupo de KPop bata novos recordes de visualizações e acessos.

Como em seus trabalhos anteriores, o novo álbum do grupo sul coreano formado por Jin, RM, Suga, J-Hope, Jimin, V e Jungkook está repleto de conexões e referências, a principal delas com o livro Jung – O Mapa da Alma – Uma Introdução (Cultrix). Lançado em 1998, o livro escrito pelo Dr. Murray Stein é uma introdução ao trabalho de Carl Jung, psiquiatra suíço fundador da psicologia analítica, que explora a importância da psique individual e sua busca pela totalidade. Vem das pesquisas de Jung a popularização, entre outros, de conceitos como o de inconsciente coletivo, uma herança psicológica que todos os humanos trazem dentro de si, do ego como centro da consciência e da persona, uma máscara que assumimos diante da sociedade. Conhecido por explorar temas de forte conotação social e discutir abertamente os problemas como depressão, não é surpresa que o BTS siga mais a fundo na questão da busca de cada um por sua identidade.

Até o momento, a Big Hit, empresa responsável pelo grupo, liberou apenas o trailer de uma música, Intro – Persona, que já ultrapassou 28 milhões de visualizações. No vídeo, RM aparece em uma sala de aula, cenário conhecido de outro vídeo do grupo, Boy in Luv, lançado em 2014, e diante de um quadro negro repleto de palavras e frases tiradas da obra de Jung além do título do livro do Dr. Stein. Na letra, o rapper questiona sua identidade como pessoa e como artista, uma referência ao conceito de persona desenvolvido por Jung.

Além de Intro-Persona, o álbum terá mais seis músicas, Boy With Luv, que terá a participação especial da cantora Halsey, Mikrokosmos, Make It Right, HOME, Jamais Vu e Dionysus. Nessa entrevista exclusiva, perguntamos ao Dr. Stein sobre seu livro e como é fazer parte do fenômeno BTS.

O senhor ficou surpreso ao ver seu livro ser escolhido como inspiração para um álbum de KPop?

Fiquei totalmente surpreso. Ouvi primeiro que o meu livro estava em uma lista de leituras recomendadas ao lado de alguns trabalhos conceituados e famosos, A Arte de Amar, de Erich Fromm e Demian, de Herman Hesse. Eu me senti em ótima companhia. Então, algum tempo depois eu soube que o novo álbum do BTS se chamava “Mapa da Alma: Persona”. Foi um choque, mas um choque agradável.

O que o senhor sabia sobre o BTS antes disso? O senhor ficou surpreso ao saber que eles exploravam temas como saúde mental, questões sociais e amor próprio em suas músicas?

Eu nunca havia ouvido falar sobre o BTS antes. Quando eu soube mais a respeito deles e descobri que eles falavam de questões sociais importantes como saúde mental, autoestima e identidade, eu fiquei muito surpreso. Não é comum que grupos pop tenham uma mensagem social e psicológica importante como esta. Percebi, então, que havia algo bem diferente e especial sobre esse grupo.

O seu livro é uma introdução a obra de Jung, como o senhor mesmo escreveu, uma porta para a visão e as ideias, uma vez que o nome dele é conhecido universalmente, mas seus textos não são lidos com cuidado e são frequentemente criticados. A conexão com o BTS certamente vai tornar as ideias de Jung populares com os fãs do grupo, em sua maior parte, jovens. Como o senhor vê o contato dos fãs do grupo com Jung?

Uma das perguntas que fiz a mim mesmo foi, quanto os fãs vão compreender se pegarem o meu livro e começarem a ler? A minha esperança é de que alguns deles se interessem pelas ideias de Jung como eu me interessei quando tinha a idade deles e sigam em frente. Há tanta riqueza no pensamento de Jung. Além disso, eu espero que os leitores achem o meu livro útil em guia-los a um senso de identidade mais profundo. É tão importante na vida que a pessoa compreenda a sua autêntica existência e significado. Talvez o Mapa da Alma ofereça um direcionamento.

Um dos temas recorrentes nas músicas do BTS e no discurso do RM na ONUé identidade. Como o “mapa” de Jung pode ajudar uma pessoa que esteja em busca de sua própria identidade, principalmente para os jovens como os fãs do BTS?

Eu achei o discurso do RM muito comovente porque ele foi tão honesto sobre sua história e sua infância numa pequena cidade da Coreia. O grande perigo com a celebridade é de que a pessoa se torne cheia de si e pomposa e perca, assim, o contato consigo mesma. Elas se tornam identificadas com a persona pública que foi criada por seus fãs e pela mídia. Eles se perdem nessa imagem construída. O que o meu livro pode fazer, eu espero, é ajudar as pessoas a perceberem que elas são mais (ou algumas vezes, menos) do que sua persona. Todos nós precisamos ouvir a “pequena voz” que chama o nosso verdadeiro nome. A nossa verdadeira identidade é algo precioso e inefável. E o nosso maior tesouro. Eu espero que o meu livro ajude as pessoas a encontrar esse elemento em si mesmas e a mantê-lo.

Jung diz que todos nós temos diferentes Personas, faces que apresentamos à sociedade conforme a situação. Isso significa que criamos imagens falsas para atender as demandas sociais ou é natural ser “mais de um” e ao mesmo tempo ser “completo”?

É verdade que temos diferentes Personas. A Persona é frequentemente um reflexo do que as outras pessoas querem que sejamos, então, mudamos de Persona conforme a pessoas com quem estamos. É como um fenômeno camaleônico. Nós temos a tendência a imitar e a nos conformar com o que se espera de nós porque queremos ser aceitos ou ser interessantes. E nós podemos nos perder em meio a tantas Personas e nos questionarmos quem realmente somos. Eu sou a pessoa que meus pais querem que eu seja? A pessoa que o meu parceiro quer que eu seja, ou o meu patrão, ou o meu professor? Onde está o centro? A psicologia Junguiana tenta ajudar as pessoas a encontrarem o centro dentro de si mesmas e não no ambiente social no qual elas estão vivendo. Nós chamamos este centro de “si-mesmo” e algumas pessoas se referem a ele como “verdadeiro si-mesmo”. A Persona é parte dele, mas não tudo.

No vídeo de Persona, há uma lousa atrás do RM com palavras e citações de Jung. Uma delas é “Um sonho é uma pequena porta oculta no santuário mais profundo e mais íntimo da alma, que se abre para aquela noite cósmica primordial que era a alma muito antes de haver um ego consciente e que será alma muito além do que o ego consciente jamais poderá alcançar”.  Jung tinha muito interesse na análise de sonhos, mas muitos são apenas retalhos das atividades do dia, e algumas pessoas raramente lembram de seus sonhos. Todo sonho é uma “porta oculta”?

Os sonhos podem certamente nos ajudar a encontrar a nossa posição na vida, mas sem um bom intérprete, é difícil compreender o que os sonhos dizem. É uma série de sonhos, observados por um período de tempo (meses ou anos) que realmente ajuda a estabelecer uma base no ser verdadeiro. Nem todo sonho é útil nesse sentido, e as pessoas podem ficar muito confusas se não tiverem alguém que as guie. Dito isso, eu acho que é uma boa ideia para os fãs observarem seus sonhos e manterem um diário de sonhos, mesmo que não tenham com quem discuti-los. Os sonhos vão dar um senso de seu mundo interior que não é totalmente dependente do ambiente em que vivem e da opinião das outras pessoas.

Outra citação na lousa é “Eu não sou o que aconteceu comigo, eu sou o que eu escolho me tornar”. O que Jung quis transmitir com essa ideia, já que somos todos influenciados por nossa história pessoal, família e ambiente?

Esta frase fala sobre a liberdade de fazer escolhas que não atendam às expectativas de outros. Ela também objetiva combater a tentação de nos sentirmos vítimas das nossas circunstâncias de nascimento, classe social ou qualquer outra coisa. Não significa que temos total liberdade para ser qualquer coisa que desejamos, mas sim um encorajamento para que as pessoas tomem a responsabilidade por suas vidas e seu futuro.

Uma das músicas do novo álbum se chama Dionysus. Na mitologia grega, Dionísio era filho de Zeus e foi desmembrado e devorado pelos Titãs. Pela morte, Zeus queimou os Titãs e usou as cinzas para criar os humanos, o que significaria que temos Deuses e Titãs dentro de nós. Essa seria a mesma dualidade nos conceitos de Persona e Sombra? Imagens gigantes dos membros aparecem nos vídeos de Persona e Idol. Como esse mito é visto na ótica de Jung?

Jung foi um estudioso de Friedrich Nietzsche, que escreveu sobre a violenta oposição entre Dionísio, o deus do vinho, êxtase, drama e da vida apaixonada e Apolo, o deus da clareza, racionalidade, equilíbrio e vida ordenada. Eles representam os dois lados de todos nós. O conselho de Jung era encontrar dentro de nós um equilíbrio entre as demandas dos dois. Viver com a tensão dos opostos era, para Jung, a maneira de encontrar a unidade. Para pessoas que vivem em culturas altamente disciplinadas e ordenadas – como a Coreia, por exemplo – Dionísio representa a sombra da persona recomendada. É importante que a pessoa integre esse tipo de energia em sua vida se deseja ser criativo. Parece que o BTS está indicando algo assim para a sua audiência. E claro, o tipo de música que eles apresentam é altamente Dionisíaca. A música Apolínea é controlada e contida; a música Dionisíaca é selvagem e extática.

Além de Dyonisus, as outras músicas do álbum são Mikrokosmos, Jamais Vu, Boy With Luv, que faz conexão com Boy in Luv, lançada em um álbum anterior, Make it Right e HOME. O senhor vê outras conexões entre esses títulos e Jung?

Jung gostava muito da ideia do microcosmo espelhando o macrocosmo, ou seja, do mundo interior espelhando o mundo exterior da natureza. Ele mantinha que o interior e o exterior estão profundamente conectado, que o mundo psíquico e o mundo natural são dois lados de uma unidade. E que o amor é a força que mantém todas as coisas unidas. Boy in Luv é um pequeno exemplo do tremendo poder que o amor tem no cosmos, micro e macro. É a força unificadora que faz tudo ser novo, como em Jamais Vu. Making it Right (Acertando as Coisas) falaria à lei interior de nosso ser psíquico, ao senso de verdade e justiça com o qual nascemos e que perpassa ao longo de todos os nossos dias. Home (Lar) é onde chegamos após longos passeios. É onde começamos e onde terminamos as nossas vidas. Todos esses temas estão profundamente incluídos na visão de Jung.

Com relação ao conceito de Anima, o senhor diz em seu livro que Jung talvez tenha sido um protofeminista ao argumentar que homens e mulheres têm componentes e qualidades masculinas e femininas, apresentando apenas uma diferença na distribuição dessas qualidades.

O hermafrodita é um símbolo de completitude. Esta imagem pode ser degradada em gestos patológicos e formas estranhas, mas essencialmente ela nos fala de nossa unidade inata. Não importa o quanto nos sentimos masculinos ou femininos, nós precisamos do outro lado para nos completar. A imagem fala da união dos opostos, sendo, portanto, um símbolo de completitude.

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