Entrevista com Sam Liu sobre A Morte do Superman

ENTREVISTA | Sam Liu - Dirigindo um Confronto Mortal dos Quadrinhos

Diretor Sam Liu conversou com a BesTV e a Freakpop sobre seu trabalho na direção da animação A Morte do Superman, adaptada de um dos grandes momentos nos Quadrinhos....

Diretor Sam Liu conversou com a BesTV e a Freakpop sobre seu trabalho na direção da animação A Morte do Superman, adaptada de um dos grandes momentos nos Quadrinhos.

Basta ver a quantidade de animações de longa metragem e séries animadas que Sam Liu fez como diretor, para entender que ele gosta do que faz. Ele começou trabalhando na série Os Novos Caça-Fantasmas, de 1997, seguido de Godzilla – A Série (1998), Roughnecks – Starship Troopers (1999), Max Steel (2000) e Heavy Gear – The Animated Series (2001).

Depois, entrou na Warner Animation para fazer uma nova versão animada do Cavaleiro das Trevas, O Batman (2004), para mergulhar em vários longas como Batman & Superman – Inimigos Públicos (2009), Liga da Justiça: Crise em Duas Terras (2010),  Grandes Astros: Superman (2011), Batman – Ano 1 (2011). Ele voltou a dirigir episódios de outras séries como a do Lanterna Verde (2011) e A Sombra do Batman, de 2013, feito em computação gráfica. Para a Marvel, fez os longas Hulks Versus Thor (2009), Planeta Hulk (2010), e Thor: O Filho de Asgard (2011).

Nos últimos cinco anos, Sam Liu se dedicou integralmente a adaptação de várias histórias importantes do Universo da DC Comics para vídeo. Entre eles, os destaques são Batman: A Piada Mortal (2016), Liga da Justiça: Deuses e Monstros (2015), Jovens Titãs: Contrato de Judas (2017), Gotham City 1889: Um Conto de Batman (2018), até chegar em A Morte do Superman, que foi lançado esse ano.

Foi para falar sobre a produção desse longa, que Sam Liu conversou com Paulo Gustavo, da BesTV/Feakpop, diretamente de seu escritório na Warner Animation, em Los Angeles.

Você dirigiu muitas animações interessantes. O que é mais complicado para você, dirigir uma adaptação ou um roteiro original?

– As duas coisas são um desafio. Você term que descobrir sobre o que é a historia e tentar trazer isso para a superfície, a ideia central, a moral da história. Os dois trabalhos são similares, porque tem um objetivo em comum: por que vale a pena contar essa história e sobre o que ela é. Basicamente para mim é mais uma questão de saber o que vai ser mais divertido, porque quando tenho que fazer uma adaptação, mergulho fundo na história original. Vejo o que pode ser usado e o que não dá para fazer. Gosto das histórias onde pude alterar parte dela sem ferir sua origem. Aí, você pode usar mais a imaginação do que só ser criativo. Seja uma adaptação ou um texto original, ambas são desafiadoras.

Você sofre muita pressão dos fãs? Muitos deles não gostaram do que você fez na adaptação de A Piada Mortal, especialmente a relação entre Batman e a Batgirl. Eu particularmente gostei muito da adaptação…

– Obrigado. Quando decidimos fazer o filme pensei no tipo de história que iriamos mostrar para o publico em geral, não apenas o fã de quadrinhos. A pergunta básica era que tipo de história é A Piada Mortal. A história original do Alan Moore é uma história psicologicamente pesada. Inicialmente, pensamos que deveríamos seguir por esse lado, mas era difícil imaginar a trama toda sem cair na violência gráfica dos quadrinhos originais…

Mas o estilo da animação vocês optaram pelos originais do Brian Bolland?

– Sim, apenas para manter certa coerência que estamos fazendo nas adaptações de quadrinhos, como fizemos com Batman – O Cavaleiro das Trevas, dirigido pelo meu colega Jay Oliva, em 2012. Batman significa muitas coisas diferentes para muitas pessoas, tem muitos fãs. Para alguns, o Batman ideal é o que Adam West fez na TV nos anos 60, ou mesmo a série Batman – Os Bravos e Destemidos (2008). Já gente como Christopher Nolan, acha que ele tem que ser mais sombrio e realista. Está claro, então, que não conseguimos agradar a todos.

Mas esse não seria exatamente o desafio de quem faz esse tipo de produção?

– Exatamente. Acho que essa é a dificuldade de um criador. Se você se colocar no nosso lugar, nós somos fãs também. Nós temos nossas ideias e opiniões do que nós queremos ver. Muitas vezes quando fazemos essas coisas, temos que confiar no que queremos fazer e no que pensamos. Às vezes, queremos fazer uma coisa diferente, mas a estrutura do trabalho não permite ousarmos muito. Eu e o Bruce (Timm, um dos responsáveis pela Warner Animation e criador da série animada dos anos 90) discutimos muito sobre o que estamos fazendo, em função do trabalho e do tempo de execução dele. Não temos tempo ao nosso lado e nem 150 milhões de dólares para fazer essas histórias, mas temos que ir até o fim num projeto animado. Particularmente, amo toda essa dinâmica por que isso nos ensina a ser rápido e tomar decisões rápidas. Podemos fazer coisas erradas, de vez em quando, mas muitas vezes não, todos somos fãs, todos amamos o que fazemos. Acho que nossa media é boa, por que todos amamos o que fazemos…

Mas lidar com o fã mais radical ainda é algo complicado…

– Todo fandom é difícil porque todos têm opiniões diferentes. Mas isso é o que torna ótimo, ao mesmo tempo em que fica muito difícil contentar esse ou aquele. Nossa linha de trabalho é mais clássica já que somos todos “crianças” dos anos 80, e até dos anos 70 e 90. A história é grande parte do que fazemos. Quer você goste ou não, nós temos um produto de qualidade. Algumas vezes, os fãs não conseguem deixar de lado o original para se deixar pela história que fizemos para sentir se ela funciona ou não. Nós recebemos muitas críticas, sim, mas acho que todos nós sabemos que essa é a natureza do fandom.

E sobre a violência gráfica? Há alguns anos que as animações com os personagens da DC tem sido mais realistas, como por exemplo, o sangue escorrendo na testa de um personagem após uma briga. Como você lida com isso, com a reação do publico com isso?

– É engraçado porque sinto que o sistema de audiência muda de vez em quando, sutilmente. Às vezes você consegue passar algumas coisas, e às vezes não. Nós fazemos o que achamos que seja o grau necessário de violência e sangue para cada uma de nossas produções. Conversamos com o público após uma exibição previa e fazemos ajustes. De novo, nós vemos a história, o que ela necessita e por fim, vemos como ela fica. Se for preciso nós limpamos um pouco do sangue ou adicionamos mais sangue, dependente do que queremos contar com isso.

Sim, claro. Nada de violência gratuita.

– Isso.

Em 2000, conversando com Bruce Timm sobre Batman do Futuro: O Retorno do Coringa, ele disse que fizeram duas versões uma mais violenta do que a outra, por que era um diferencial da história.

– Sim, mas novamente, a violência ela é uma parte da história e não tudo o que a história quer contar.

O que foi mais complicado dirigir: A Morte do Superman ou Planeta Hulk?

– (risos) Planeta Hulk (risos)… Acho que muitas das dificuldades são em torno da política, em permitir o criador a criar, basicamente. É mais o que a companhia escolhe. Eu fui muito feliz com a Warner Bros, mas não quer dizer que quando eu estava trabalhando numa animação da Marvel, não foi ótimo também. Cada time é diferente. Quando eu trabalhei com a Marvel e Craig Kyle era a pessoa que cuidava de animação, a estrutura é bem pequena, mas o grupo de produção era ótimo. A Warner Bros. nos permite criar, desde o começo. Montamos e remontamos um filme para ele capturar a essência do trabalho que fizemos. O trabalho na edição é crucial. Muitos dos nossos filmes têm um resultado espetacular por causa do trabalho da edição. Já estive em estúdios onde as animações são incríveis, mas a edição e o timing são tão errados que estraga o filme.

Então a Warner Animation é onde você tem mais oportunidade de criar…

– Gosto de trabalhar com a Warner porque, na minha opinião, as pessoas são as melhores, são experts. Durante a minha carreira eu estive em lugares onde eu fiz algo que não se encaixava direito. Aqui, tudo parece quase exatamente como eu imaginei, como mágica. É uma sensação boa para um criador.

(nesse momento, a assessora da Warner interrompe a entrevista avisando do sei final, mas consigo perguntar entre os protestos)

Sam, se você não tem um projeto para fazer, pense em adaptar Future Quest*…

(risos) Ok…

*Future Quest é uma série de quadrinhos da DC, que reuniu todos os heróis da Hanna-Barbera dos anos 60 como Space Ghost, Jonny Quest, Os Impossíveis, Frankenstein Junior entre outros, para uma grande saga nos quadrinhos. Um roteiro muito divertido para ser adaptado para um longa pela Warner Animation. Se Sam Liu riu ao final, será que podemos esperar novidades?

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Autor de dois livros, um sobre Série e outro sobre Desenhos Animados, Paulo Gustavo Pereira é jornalista há 34 anos, tem uma vasta experiência em reportagens, é editor-chefe do site BesTV e fã de carteirinha de Jornada nas Estrelas. Aqui na Freakpop, Gus – para os mais íntimos – dará muitas dicas bacanas sobre séries.

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