Godzilla

O novo Godzilla tenta capturar o espírito do original mas falha em muitos pontos. Quando Godzilla foi lançado nos cinemas japoneses em 1954, seu propósito era muito claro: uma...

O novo Godzilla tenta capturar o espírito do original mas falha em muitos pontos.

Quando Godzilla foi lançado nos cinemas japoneses em 1954, seu propósito era muito claro: uma força da natureza indestrutível que resumia o medo coletivo da população do país em relação ao início da era atômica. Dois anos após este filme, os americanos lançam Godzilla – Rei dos Monstros registrando o problema fundamental que Hollywood tem com filmes estrangeiros: A falta de gente branca basicamente. Então, o longa de 56 dirigido por Terry O.Morse é um relançamento recortado do filme original que introduziu diversos atores brancos em seu elenco, perdendo a essência original da trama científica por trás do famoso “Gojira”.

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O novo Godzilla parece sofrer disto. São dois filmes, um japonês que lida com o aspecto mitológico da criatura e do terror de uma força da natureza descontrolada e um americano, que lida com gente branca sem graça correndo da destruição em massa. No enredo, este longa funciona como uma quase continuação do original de 54. É revelado que, antes da era dos dinossauros, a Terra era muito mais radioativa e neste ambiente, surgiu uma megafauna de criaturas que se alimentam exclusivamente de radiação. Com a era atômica na Terra, estas criaturas acordam de sua hibernação, entre elas, Godzilla (Gojira), o “predador alfa” desta era, junto com o monstrão, outras criaturas, os MUTO (Massive Unidentified Terrestrial Organism – Organismo Terrestre Massivo Não-Identificado).

Para derrotar as criaturas, surgem duas ideias, eis quando o filme divide em dois. Por um lado, temos o Dr. Serizawa (Ken Watanabe) que faz parte do Projeto Monarca. Uma organização que monitora os monstros e acredita que Godzilla pode ser a solução para derrotar os outros monstros. Afinal, ele é o predador alfa. Do outro lado, temos o exército americano que quer derrotar as criaturas com tiros e bombas.

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O diretor Gareth Edwards claramente se inspirou em Tubarão. Metade do filme, os monstros não aparecem e o suspense cresce. A diferença é que, em Tubarão, a primeira metade do filme é utilizada para estabelecer os personagens e vítimas, criar um vínculo com a audiência para dar mais peso para suas mortes e sofrimento nas mãos da criatura no restante do longa. Em Godzilla, o diretor tem a grande sacada de contar o filme e os conflitos dos monstros sob a visão dos humanos, desta forma, Godzilla e MUTO são consideravelmente mais assustadores, especialmente sob o olhar de atores talentosos como Bryan Cranston, infelizmente, boa parte do filme acompanhamos…. Aaron Taylor-Johnson

GodzillaAaron Taylor-Johnson é um purgatório de ser humano, ele não é um ator ruim o suficiente para ser criticado, mas também não é particularmente bom. Ele não é uma pessoa completamente desinteressante, mas não tem nada no personagem (ou no ator) que vale a pena acompanhar. O que piora a situação, é que no próprio filme, existe uma narrativa muito mais interessante. Ver os monstros sob a ótica do personagem de Ken Watanabe dá ao filme uma densidade narrativa maior e uma dramaticidade remetente ao filme original. Acompanhar as titânicas batalhas sob a ótica dos americanos tira muito do apelo de Godzilla. A tentativa de inserir o monstro em uma ótica ocidental também dificulta as coisas. A ideia de Godzilla como um herói/vilão/monstro gigante/anti-herói/predador alfa simplesmente não faz sentido. Godzilla batalha contra os monstros simplesmente por lutar. Ele não consome as criaturas, ou seja, não é um predador. E por ser, essencialmente um animal selvagem, não pode ser classificado como um herói ou vilão. Existe uma cena particularmente ridícula onde Godzilla nada em direção aos EUA cercado pela marinha americana… é a cena mais Michael Bay de todos os tempos em um filme onde o diretor não participa.

Essencialmente, Godzilla sofre de uma tentativa de incorporar ambos aspectos do monstro nos antigos filmes da Toho. Por um lado, ele era uma força da natureza destruidora e descontrolada que existia simplesmente para causar estrago. Do outro lado, ele era um monstro heroico que lutava contra outras criaturas para defender o mundo. Na tentativa de contar os dois lados da moeda no mesmo filme a história ficou confusa. Contar a história sob a ótica dos humanos funcionaria se o longa inteiro focasse no aspecto filme de desastre do monstro, mas ao usar esta técnica para observar Godzilla lutando contra outras criaturas, o longa não funciona nem como filme de desastre e nem como filme de monstro.

E no final, vale a pena? Visualmente, Godzilla é impressionante e o pouco que podemos vislumbrar das criaturas dá a impressão que, por baixo de tanta gente branquela correndo e gritando, existe um filme muito mais interessante. Para fãs do lagartão, é visualmente uma das encarnações mais assustadoras do personagem, para fãs de filmes de desastre e destruição, isso tem de sobra, para fãs de suspense? Aaron Taylor-Johnson.

Até a próxima!

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Editor-chefe da Freakpop. Adora cinema, mas odeia a palavra cinéfilo. Leu quadrinhos demais na vida e tem uma capacidade muito limitada de entender a realidade. Tudo que não explica com Máquina Mortífera, explica com Highlander. Sabe tudo sobre Soul Reaver e Crônicas de Gelo e Fogo. Seu signo é estegossauro.

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