CRÍTICA | Holocausto Brasileiro – Do que vale a história, se nós a esquecermos?

O Hospital Colônia, em Barbacena – MG, foi palco de mais de 60 mil mortes ao longo de oito décadas. Você conhece a história do Holocausto Brasileiro? Barbacena, Minas...

O Hospital Colônia, em Barbacena – MG, foi palco de mais de
60 mil mortes ao longo de oito décadas. Você conhece a história do
Holocausto Brasileiro?

Barbacena, Minas Gerais, Brasil. A cidade do interior mineiro abriga uma instituição de saúde chamada Colônia, cenário de uma atrocidade nacional ignorada por todos ou quase todos. Desde 1903, no Colônia, crianças, jovens e adultos com, ou sem problemas físicos e/ou psicológicos, eram despejados por seus familiares ou recolhidos das ruas da cidade pela “carrocinha”. Além disso, o local recebia pacientes para tratamento de tuberculose. O manicômio trabalhava com dois tipos de remédios: eletrochoque e muita, mas muita desumanidade. Não havia estrutura decente de higiene, alimentação, atendimento médico e conforto. O Hospital Colônia era, literalmente, um local onde os pacientes viviam para morrer.

Daniela Arbex é a jornalista que trouxe esta história à tona. Moradora de Juiz de Fora, ela iniciou sua pesquisa anos atrás sobre maus-tratos em instituições do mesmo tipo. Dos 10 hospitais que Arbex localizou, sete foram fechados e o Colônia foi o escolhido como tema de seu livro, chamado Holocausto Brasileiro, lançado em 2013. O que este local tinha de diferente dos outros? A crueldade.

Homens, mulheres e crianças eram transportados para lá pelo “trem de doido”. Estas pessoas eram rejeitadas pela sociedade e banidas no Colônia para passar fome, frio e serem torturados. Pobres, homossexuais, alcoólatras, crianças indesejadas, mulheres grávidas, indigentes, mendigos e pessoas expulsas de casa: estes eram alguns dos perfis dos pacientes que até 1980, foram abandonados no hospital em condições subumanas e pior: com o conhecimento do governo estadual.

O hospital operava da forma mais desleixada que possamos imaginar. Os funcionários seguiam uma rotina com escassas ferramentas de trabalho. Poucos remédios, uma medicação injetável – cuja aplicação era feita com uma única seringa compartilhada entre todos os pacientes-, e eletrochoque, muito eletrochoque. Aqueles que não sobreviviam eram jogados em valas no Cemitério do Cascalho, que hoje está desativado. Além disso tudo, os corpos do Colônia eram vendidos para 17 faculdades de medicina e estima-se que mais de 1800 mortos sustentaram este mercado negro só entre os anos de 1969 e 1980. Imagine os números das outras décadas…

Chocados? Calma, o pior ainda está por vir. No documentário conhecemos ex-funcionários e sobreviventes do Colônia. Preparem-se para quase duas horas de fotos e relatos capazes de extrair o mais averso sentimento: vergonha. Os trágicos dados citados acima são confirmados por pessoas que ainda estão vivas. Do motorista do trem à ex-enfermeira, acompanhamos relatos do dia a dia do Hospital Colônia e detalhes sobre o “tratamento” dos pacientes. Um ex-funcionário levava pacientes para casa dele para fazê-los trabalhar em sua obra. O pagamento? Um maço de cigarro. Uma ex-enfermeira não se abala ao falar com detalhes da sala de eletrochoque. Ou outro funcionário nega que os corpos, ou parte deles, eram comercializados enquanto a câmera nos mostra os registros assinados pelo entrevistado. Um ex-paciente fala da saudade de sua família com frases inocentes e lágrimas verdadeiras vindas de uma mente apagada pela violência, já um outro encontra nos registros do hospital uma revelação de seu passado. O Holocausta Brasileiro abala por sua trajetória e a forma como opera nos dias de hoje está escondido em prolixas frases de seus dirigentes. Pelo visto pouco mudou.

É muito estranho e triste se deparar com uma história como esta. Como que um país que carrega em seu percurso o escravagismo, guerras, ditadura, além da opressão, preconceitos e a roubalheira do nosso governo atual não trouxe a tona o Hospital Colônia? Foi preciso um livro e a HBO para que as pessoas pudessem conhecer essa tragédia que, mesmo tardiamente, vale muito a pena conferir as feridas que um ambiente de selvageria pode ocasionar. Além disso, o silêncio sobre um fato como este reforça que a sociedade está cada vez mais egocentrista e intolerante à verdade e ao passado, se apegando apenas ao que lhes convém. Estamos sentados em sangue, violência, intolerância e desrespeito e é nesse comportamento individualista que podem surgir o retrocesso e novos “mini-Colônias” para que os não dignos de convívio na sociedade sejam exilados. E a culpa é de quem?

Holocausto Brasileiro estreia dia 20 de novembro às 21h no Canal Max e será disponibilizado na HBO Go.







Confira nossa entrevista com Daniela Arbex e Maria Angela de Jesus, a VP de produções originais da HBO Latin America:

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Tatá Snow

“Crítica” de cinema – prefiro ‘analista de entretenimento’, fanática por comédias românticas e viciada em Sex and The City. Ah…#TeamCap

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