Freakpop Debulhando o Oscar 2014: Jagten

Começa mais uma temporada praticamente sem fim de premiações, e mais uma vez Doktor Brüce, Lady Freak, Sam Bass e nosso novo integrante Carlus Freakultist estão aqui para oferecer...

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Começa mais uma temporada praticamente sem fim de premiações, e mais uma vez Doktor Brüce, Lady Freak, Sam Bass e nosso novo integrante Carlus Freakultist estão aqui para oferecer críticas de todos o filmes de destaque da temporada para te fazer parecer entendido do assunto e impressionar seus amigos! O concorrente à estatueta de melhor filme estrangeiro é: Jagten

É quase de consenso universal afirmar que a inocência, a simplicidade e a franqueza infantis são os últimos alicerces de uma ideia de moral em sua essência mais pura. Mas o cinema sempre nos advertiu: nos parquinhos habitam verdadeiras hordas malignas de semeadores da discórdia!

Em A Caça (Jagten, 2013), Thomas Vinterberg (diretor de Dear Wendy, de 2004, It´s All About Love, de 2003, e Festen, de 1998) investe numa receita consagrada: o comportamento primário da criança despertando o comportamento primitivo do adulto. Neste contexto, o símbolo da caça surge perfeitamente justaposto à uma mera mentira infantil. Exagero? A princípio, sim. Mas o roteiro de Vinterberg liga os pontos com uma coesão maestral.

A história se resume numa breve iniciativa de Klara (Annika Wedderkopp) por uma experiência sociológica: em sua pouca idade, beija os lábios de Lucas (Mads Mikkelsen, protagonista de Coco Chanel & Igor Stravinsky, de 2009, Efter Brylluppet, de 2006, e Adams Æbler, de 2005), amigo de seu pai e professor no primário – por quem reserva grande carinho e uma admiração um tanto obtusa – que, rapidamente interrompe seu gesto em desaprovação. Klara, através de um comportamento típico de uma criança descobrindo os espaços e limites de seu mundo, conta à diretora Grethe (Susse Wold) que Lucas lhe dera um presente (um objeto plástico colorido em forma de coração) de modo insinuativo. A professora, em busca de fundamentos a uma acusação tão grave, interpela a jovem aluna, que dá ainda mais um passo: afirma que ele lhe mostrara o pênis (usando expressões como “pontudo”, de onde “saiu uma coisa branca”, porque, obviamente, como todo cinema europeu, o filme deve te deixar psicologicamente desconfortável).

O roteiro vai desenhando-se num plano quase kafkiano – mas, antes, um desvio para o contexto do professor.

Lucas é um homem complacente, reservado entre seus amigos e amável entre seus alunos, buscando reerguer uma vida a qual seu divórcio arruinara. E consegue alguns progressos até onde Grethe lhe expõe a denúncia de Klara. Neste ponto, a gravidade dos relatos mentirosos da menina encontra um poderoso propulsor no provincianismo do lugar onde vivem, e atinge o professor com um verdadeiro colapso psicossocial. Um ligeiro e intenso trânsito de boatos destituem a honradez de sua profissão, de sua filiação na comunidade local. Lucas agora carrega a marca indelével de pervertido sexual. E, a partir daí, denúncias começam a brotar em peso por parte das outras crianças da escola, todas confluentes com as de Klara, fazendo com que o professor seja limado abruptamente de seus círculos sociais.

Porém, o grande movimento da batuta de Vinterberg se dá quando Lucas, levado e interrogado pela polícia, é solto e considerado legalmente inocente. A própria Klara afirma a seu pai ter inventado completamente seu depoimento. Tudo começa a indicar que a revelação da inocência do professor está começando a despontar, e que a restituição de sua honra perante à comunidade está por vir. Daí surge a caça.

A caça é uma atividade comum a todos os homens do vilarejo no qual a história se passa. Tradições e valores são transmitidos entre as gerações locais através deste esporte. E ela mesma estabelece uma comunalidade singular com o caso do professor: mesmo provada sua inocência perante a lei, e tendo recuperado boa parte de sua reputação, incluindo a amizade com Theo (Thomas Bo Larsen, protagonista de Festen, de 1998), pai de Klara, não consegue apagar seu estigma. Mesmo que agora veladamente, Lucas continua experimentando a aversão e antipatia dos seus comuns.

O filme termina na primeira caçada de Marcus (Lasse Fogelstrøm), filho com quem o professor tenta, durante todo o enredo, reatar contato, conseguindo-o finalmente. E quando os caçadores se dispersam em silêncio, para não espantarem suas presas, um deles subitamente dispara contra Lucas. Erra no alvo físico, mas acerta eximiamente no alvo psicológico: serve-lhe uma mostra substancial do quão intolerante e brutal as relações, de humanas se transformam sob o signo banal do boato difamatório. E o primitivismo do contexto, que reduz o réu à condição de caça, impõe sua pena.

Vinterberg, entre direção e roteiro, faz valer cada minuto à frente da tela. Constrói uma história instigante, onde os grandes conflitos da trama se reservam aos detalhes, a alguns traços comportamentais e correlatos, fazendo a obviedade recuar para permitir que o espectador encontre espaços para explorar os fatos e tirar conclusões. Também orquestrou primorosamente a atuação de Wedderkopp. Mesmo com pouca idade, ela consegue desempenhar uma personagem complexa, cuja postura não é nem vilanesca, nem inocente; mas antes, infusa pela curiosidade, provocadora.

O único fator que depõe contra o filme nesta crítica é a péssima composição do elenco nos papéis secundários. Foi mal, Vinterberg, mas nem todo o provincianismo de uma cidade dinamarquesa interiorana consegue disfarçar a falta de talento.

À quem possa interessar: este filme tem alguns vínculos interessantes com a obra Os Estabelecidos e os Outsiders (Jorge Zahar, 2002), do sociólogo e filósofo alemão Norbert Elias. Para quem assistiu, vale a pena ler. E a recíproca também vale.

 Até a próxima,

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