Jogador Nº 1 é o livro que representa tudo de errado com cultura geek massificada

Jogador N°1 representa tudo de errado com uma cultura geek obcecada por nostalgia, referências imbecis e consumerismo desenfreado Em 2011, Ernest Cline publicou um livro chamado Jogador Nº 1....
Jogador Nº 1, o livro, é a morte da cultura geek

Jogador N°1 representa tudo de errado com uma cultura geek obcecada por nostalgia, referências imbecis e consumerismo desenfreado

Em 2011, Ernest Cline publicou um livro chamado Jogador Nº 1. Rapidamente, a crítica elevou a obra ao status de livro acumulador de termos questionáveis como “bíblia geek”. O best seller está prestes a se tornar um filme de Steven Spielberg que, apesar da maestria por seu diretor, está sendo promovido da mesma forma absurda e pedante que transformou o livro no Suspiro de Atlas para entusiastas de The Big Bang Theory. Mesmo sendo um livro que como outros produtos que transitam dentro do considerado “cultura geek”, sinto que a obra é uma síntese perfeita de muita coisa errada no entretenimento atual.

Trama rasa. Motivações ruins. Mas gostaram porque lista referências.

A trama de Jogador Nº 1 se passa em 2044, onde o mundo entrou em colapso e a humanidade vive em super-favelas futuristas. A única fuga é OASIS, uma extensa realidade virtual onde todos passam seu tempo. O criador do game/sistema morre e deixa como testamento uma caça ao tesouro onde o vencedor herdará toda a sua monstruosa fortuna. O desafio é uma série de pistas a la Código da Vinci com cultura pop de 1980…

O elemento central do enredo é um bilionário recluso a la Howard Hughes que mistura o pior de Elon Musk e Mark Zuckerberg chamado Halliday. Ao transformar a vida real em algo obsoleto por meio de seu mundo virtual, Halliday acumulou uma fortuna bilionária. Tudo sob o custo de completamente obliterar a sociedade ao seu redor. Seu lado geek serve para torna-lo uma figura misteriosa, porém favorável aos leitores, mas sua obsessão dogmática pela tecnologia que ele ama, com uma devoção messiânica, serve apenas como alegoria dos elementos mais sociopatas do Vale do Silício. Obsessivamente listar cultura pop dos anos 80 é a forma como Cline encontra para aplicar um verniz narrativo na trama que oferece uma ilusão de substância.

Aliás, não existe nada que sustente o livro além das cansativas referências de “cultura geek”. O mundo é distópico sem motivo, os vilões que antagonizam o protagonista são maléficos apenas porque obras melhores usam a elite como alegoria dos males do mundo. E Wade Watts é o herói merecedor apenas porque na incompetência preguiçosa do autor, qualquer um que tem dinheiro é o vilão – menos o herói, ele promete ser bonzinho. O único motivo pela qual seguimos a jornada de Wade é que ele possui um conhecimento e entusiasmo por cultura pop dos anos 80. Nada sobre sua personalidade existe fora deste contexto. É a fantasia de um escritor gamer preguiçoso que tenta desesperadamente ser William Gibson e Neal Stephenson.

E qual é o problema?

Cultura pop/geek como é vista nos dias de hoje nasceu de um momento específico onde entusiastas de entretenimento começaram a inserir comentários metanarrativos em sua obra. Pense nos personagens de Tarantino conversando sobre cinema ou os balconistas de Kevin Smith exaustivamente discutindo detalhes sobre Star Wars. Algo como Jogador Nº 1 mostra o grau de estagnação da cultura geek nos dias de hoje. O metacomentário sobre o metacomentário que serve como elemento suficiente para empolgar um público cada vez mais entusiasmado com cada vez menos substância.

As “referências” no trailer de Jogador Nº 1 mal se qualificam como tal, são apenas aparições fantasmagóricas em computação gráfica de outras propriedades intelectuais. Trata-se de um filme que terceirizou a memória afetiva de outros games e filmes para chamar atenção de um público telespectador que já está anestesiado demais para ter senso crítico sobre o que estão consumindo. Imagine uma pizza nojenta que foi salpicada com tempero artificial que lembra o sabor de uma pizza melhor.

Se empolgar com um filme que apenas mostra gráficos gerados por computador de outras propriedades é o ápice da incompetência de uma audiência. É o público que está disposto a ignorar direção, roteiro, elenco e qualquer outro elemento que torna uma propriedade memorável para uma gratificação imediata e esquecível. É o mundo de oferta glutona de conteúdo que jamais permite um instante de reflexão ou pensamento. É a Netflix bombardeando sua atenção com programas intermináveis, é a Marvel criando um formato de entretenimento que faz a plateia se empolgar com o trailer, com participações especiais e com cenas pós-crédito, mas que mal conseguem lembrar a trama que acabaram de assistir. É a versão de entretenimento de uma refeição no Outback industrial, sem personalidade e minuciosamente criada para impressionar aqueles que consomem sem pensar.

Jogador Nº 1 pode não ser o fim da cultura nerd, mas com certeza é um gigantesco prego no caixão. Afinal, se tudo que tornou o mundo geek na maior força cultural é a inovação, a ampla gama de personagens e o impacto que estas propriedades causam no campo afetivo, o que diremos de futuras gerações que precisarão subsistir nos restos requentados na mediocridade da nossa memória nostálgica?

A cultura geek pode ser acessível para as massas, mas isto não quer dizer que ela deve se tornar massificada, pedante e mastigada. Entretenimento popular tem muito a dizer para o mundo, veja casos com Mulher Maravilha e Pantera Negra que, dentro dos conformes de uma narrativa conhecida e confortável de super-heróis, conseguem trazer tantas mensagens interessantes para o público. Cultura pop e geek precisa ir além das referências imbecis e dos produtos licenciados. Viver na nostalgia é uma lavagem cerebral e uma indução de impulsos que incentivam você a se alimentar do fácil e do simplório.

Como o discurso final de Idiocracy diz, “Havia uma época que nós criávamos histórias onde nos importávamos sobre quem era o dono do cu e por que ele estava peidando e eu acredito que esta época  pode voltar.”

Jogador Nº 1 o filme pode até abrir mão do livro original para compor algo verdadeiramente inovador, afinal, deve haver algum motivo pela qual os Deuses colocaram isso nas mãos de um talento como Spielberg. Tomara que ele crie uma narrativa envolvente, com personagens verdadeiramente cativantes e um tema que possa ser discutido e analisado. Que ele faça algo que de fato valha a pena. Que ele crie uma experiência que justifique o tempo dedicado. Não presumo ser arrogante para te dizer como você deve se divertir no seu tempo livre, mas eu imploro… Exija histórias novas. Exija novas experiências. Não se contente com efeitos visuais e nostalgia barata.

Você é melhor do que isto. Todos nós somos. Precisamos ser.

Categorias
Games & HQ'sLivros

Editor-chefe da Freakpop. Adora cinema, mas odeia a palavra cinéfilo. Leu quadrinhos demais na vida e tem uma capacidade muito limitada de entender a realidade. Tudo que não explica com Máquina Mortífera, explica com Highlander. Sabe tudo sobre Soul Reaver e Crônicas de Gelo e Fogo. Seu signo é estegossauro.

Relacionados