[CRÍTICA + ENTREVISTA] | Magnífica 70 – HBO e suas estrelas da Boca do Lixo

A segunda temporada de Magnífica 70 é um dos destaques da #DomingueiraHBO Estamos de volta aos anos 70, no bairro da Luz da capital paulista e no auge do cinema da...

A segunda temporada de Magnífica 70 é um dos destaques da #DomingueiraHBO

Estamos de volta aos anos 70, no bairro da Luz da capital paulista e no auge do cinema da Boca do Lixo, apelido carinhoso para a região. Nessa época, as produtoras brasileiras independentes alocadas ali ganhavam fôlego e, nesta trama recheada de reviravoltas, acompanhamos a Magnífica Produções em seu novo projeto cinematográfico e respectivas dificuldades com a censura. Mas vamos voltar um pouquinho.

Na primeira temporada Vicente (Marcos Winter) é um censor do Departamento de Censura Federal do Estado de São Paulo. Ao avaliar uma pornochanchada acaba por ficar interessado pela atriz Dora Dumar (Simone Spoladore) que lembra sua falecida cunhada. Casado com Isabel (Maria Luísa Mendonça), filha de um coronel, Vicente resolve entrar para o movimento cultural da Boca do Lixo para roteirizar seu primeiro filme. E a história? Bem, digamos que o fato de Dora lembrar sua cunhada é o que garante uma trama delicada, íntima e atormentadora, principalmente para Isabel, que reviverá lembranças das quais gostaria de esquecer.

Mas espera, ele é um censor, certo? Pois é. Vicente leva uma vida morna e regradinha e sabe burlar as regras da censura para liberar os longas que, na época, sofriam em função da ditadura. Ao ajudar um roteirista a lançar seu filme, o dono da Magnífica Produções se  interessa por Vicente, que acaba encontrando uma forma de agitar seu cotidiano. Nessa primeira fase de Magnífica 70 nos apaixonamos por seus personagens, por sua trama tecida em traições, golpes e um assassinato que promete mudar a vida de todos conectados à Magnífica Produções.

Chegamos então nas segunda temporada, cujo primeiro episódio estreou no último dia 2 de outubro na HBO. A história começa um ano e meio após uma trágica morte na primeira temporada. E muitas coisas aconteceram nesse meio tempo, a começar por Vicente, agora ainda mais ensandecido, louco e com comportamento esquizofrênico. Divorciado de Isabel, ele ainda é censor e agora escreve um novo roteiro de um filme que ele quer levar para Cannes. Isabel, por sinal, está completamente diferente. Emponderada, forte e meio que “mandando na porra toda”, ela está casada com Manolo Mattos (Adriano Garib), que até então era roteirista e produtor e agora dirige seu primeiro filme, o Máquina do Amor, uma ficção cientifica intrigante e teatral. E Dora, bem…Dora está na esbórnia, perdida em drogas e sendo procurada. Quando um policial a encontra, ela se infiltra na Magnífica Produções, como se tivesse interesse em voltar a atuar, e movimenta as pesadas consciências de todos da produtora em função de um certo assassinato.

O primeiro episódio é tenso! Tenso de verdade. Além de Manolo e Isabel estarem casados, Mestiça está morando com eles, temos um bebê misterioso no local, Dario (Pierre Baitelli)  tem que contracenar algo constrangedor com sua irmã Dora e Dra. Sueli (Juliana Galdino) dá indícios de sua coragem sem limites para manipular, ainda mais, o Departamento de Censura. É neste tom de novidades, mudanças radicais nos personagens e um forte cheiro de novas confusões que o retorno de Magnífica 70 é… Magnífico!

Além de conferir o primeiro episódio, tivemos o prazer imensurável de conversar um pouco com Marcos WinterSimone Spoladore, Maria Luísa Mendonça, Maria Angela de Jesus (produtora) e Cláudio Torres (roteirista e diretor).

O bate-papo começou sobre as referências existentes na primeira temporada que lembram Nelson Rodrigues, como falas marcantes e realidade nua e crua. Neste momento Marcos Winter já expôs suas impressões dizendo: “acho que tem relações “rodriguianas” na primeira temporada, isso fica muito claro, e acho que na segunda temporada o que acontece, muito, é que os quatro magníficos mergulham muito mais fundo. Então se você imaginar que ainda tem um Nelson Rodrigues ainda mais cortante, ainda mais desesperador, (isso) está na segunda.” 

Sobre  as mudanças com os personagens em função do tempo que se passou, Cláudio Torres comentou que “a primeira temporada a gente acompanhou todas as fases de um filme. A segunda temporada a gente usou o truque de pular um ano e meio para frente – então você não sabe como aquelas pessoas estão. Então a gente vai entender o que aconteceu. (…) E o que a gente fez foi, desta vez, ao invés de mostrar um pouco de  cada fase, a gente mergulhou mais em uma das fases. Então a série na realidade acompanha os 10 últimos dias de filmagem do filme que eles estão fazendo depois do Duque de Caxias (filme da primeira temporada), então a gente vai viver mais de uma das fases.”

Adriano Garib adorou esse salto no tempo que a série deu entre as fases. “É legal o lance do salto, um ano e meio, dois anos, que seja, porque você olha o primeiro episódio e (pensa) “meu Deus, que estranho!” até para mim. Você fala “o que aconteceu?”. E depois no decorrer da temporada você vai entendendo tudo e porque as coisas estão daquele jeito. Você vai se envolvendo mais (…) porque os novos flashbacks, deste hiato que a gente não viu, vão dando conta de explicar o que aconteceu. Porque o Manolo tá com ela (Isabel), porque o Vicente está pancada. (…) Mas acho que o impacto da primeira temporada para quem viu o primeiro episódio da segunda é meio “ãn?”.

Ainda sobre a mudança, Maria Angela de Jesus complementou “o que é legal é isso: o roteiro traz isso, você está acompanhando a situação deles agora e você vai ver no flashback tudo o que aconteceu nesse um ano e meio, e aconteceu muita coisa e está acontecendo muita coisa. (…) A temporada é muito intensa neste sentido”.

Falando em mudanças, a Isabel é a grande surpresa da segunda temporada e Maria Luísa Mendonça fez alguns comentários sobre o futuro da personagem: “Eu puxo a Isabel como uma personagem muito atual. Eu acho que isso é o um ganho mesmo. Acho que ela vem pro real e ela resolve. (…) Eu acho que ela vem de uma educação dos anos 50, toda travada e aí ela vai se libertando. Então passa os anos 60, tem o empoderamento, e eu acho que vem até hoje, onde a gente está hoje. (…) Isabel é danada, eu amo a Isabel!”. 

Simone Spoladore também comentou como ela enxerga as mudanças entre a primeira e segunda temporada. A atriz disse que o tema da primeira fase é sobre o “amor pelo cinema” e que, na segunda, um dos temas é “sobre o amor que o cinema provoca nas pessoas”. “Foi essa mulher que me fez ir para o cinema. Foi por causa de uma visão dela em uma tela que ele (Vicente) tomou uma atitude e tomando essa atitude é que veio toda essa paixão por cinema.” comentou Marcos Winter em seguida.

Magnífica 70 não é só um sucesso nacional. A produção é da HBO Latin America e é exibida nos Estados Unidos e na Inglaterra pelo Channel 4, e sobre essa viagem da série para o outro lado do oceano, Maria Angela de Jesus comentou que “para a gente foi uma maravilha. (…) Óbvio que a gente acredita muito na série, e por isso que a gente tá fazendo e a aposta e investe(…). Mas você tocar um público lá fora com um tema tão local, é aquilo que eu sempre digo: quanto mais você volta aqui tua lente pro Brasil, seu local, onde você vive, mais alcance você tem fora, né? E o Magnífica foi uma prova disso. A receptividade foi muito boa.”

Agradecemos à HBO pelo convite de poder conversar com os atores, a produtora e o diretor de Magnífica 70 que, certamente honra o grande slogan deles: “It’s not TV. It’s HBO“. Esta produção deveria ser vista por todos justamente por ser uma oportunidade única de embarcar em um movimento cultural da década de 70, que marcou a história de São Paulo e do cinema nacional. Fica aqui nossa recomendação.

Küsses,

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Tatá Snow

“Crítica” de cinema – prefiro ‘analista de entretenimento’, fanática por comédias românticas e viciada em Sex and The City. Ah…#TeamCap

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