[CRÍTICA] Meu Amigo Hindu – Uma homenagem amorosa ao cinema como arte

A sétima arte registrada em Meu Amigo Hindu Já dizia Irving Berlin “Heaven, I’m in heaven. And my heart beats so that I can hardly speak” (Céu, eu estou no céu. E meu...

A sétima arte registrada em Meu Amigo Hindu

meu-amigo-hindu-critica-freakpop-01Já dizia Irving Berlin “Heaven, I’m in heaven. And my heart beats so that I can hardly speak” (Céu, eu estou no céu. E meu coração bate de forma que eu mal posso falar). É neste tom romântico que apresentamos o novo longa do diretor argentino naturalizado brasileiro Hector Babenco, que aos 70 anos dirige e roteiriza um filme sensível, humano e uma impecável homenagem ao cinema como arte, além de conter uma mensagem sobre vida e morte apresentada com maestria.

Em Meu Amigo Hindu acompanhamos Diego (Willem Dafoe), um cineasta marcado por um passado de muito sucesso e que agora luta contra o câncer. Com o apoio de sua esposa, Lívia (Maria Fernanda Cândido) e de seu irmão Antonio Fairman (Guilherme Weber), ele aceita viajar para o exterior para fazer uma cirurgia de transplante de medula. Ciente do que está prestes a enfrentar, Diego inicia sua jornada na negação, passa pelo processo de aceitação – quando resolve, inclusive, se casar com Lívia – até o encontro com a morte e sua negociação por mais um tempo de vida.

Fadado com a promessa de escrever e dirigir mais um filme, Diego é um homem em constante transe que não deixa sua mente padecer como o seu corpo. E assim imersamos em um filme que retrata a árdua trilha de um paciente frente à frente com uma doença que pode ser fatal, mas seu desejo por viver supera qualquer etapa, mesmo que isso lhe cause a perda de um casamento, o respeito de seus amigos e até mesmo de sua família.

De forma explícita, Diego é um personagem apresentado em detalhes. Seu tesão por mulheres não é escondido, seu humor ácido, provocativo e muitas vezes sarcástico, formam uma personalidade tão grotesca quanto seu estado de saúde. Lívia é uma mulher que vive, respira e só está dedicada em ajudá-lo, abrindo mão da vaidade, do sexo e de sua vida social. O cineasta se apega em seus pensamentos, sonhos e quando está à beira da morte (personificada por Selton Mello), ele se sente no céu e ganha mais um tempo em Terra. Com metáforas bem colocadas sobre o sofrimento de um paciente terminal, Babenco – que lutou na vida real contra o câncer – oferece uma versão cinematográfica dura de se encarar e quase biográfica.

Ao melhorar, Diego quer voltar a viver, mas em Meu Amigo Hindu nada é fantasioso ou açucarado. A impotência sexual, dificuldade locomotora e desapresso daqueles que um dia o apoiaram, surgem como um balde de água fria cruel. Longos diálogos, a presença de uma criança que reacende a criatividade dentro de Diego e momentos ímpares e íntimos do cineasta com sua mãe, temperam esta película com um quê de Charlie Kaufman de Sinédoque, Nova York (2008) / Anomalisa (2015) e leva o público a experimentar um filme tão humano e carnal que chega a incomodar. A metalinguagem está presente a todo momento do roteiro, Babenco faz uso de sua experiência pessoal para compor a personalidade de um diretor que está doente e suas transgressões físicas e experiências transcendentais podem ser compreendidas pela audiência como uma linguagem egocêntrica e pretensiosa. Mas o exercício é imersar nesta estrutura narrativa confusa pois suas cenas desafiam a audiência a compreender o que é apresentado. É necessária muita atenção pra saber quando Diego está ou não no mundo”real”. 

Desde a descoberta de um possível óbito até um novo amor na vida de Diego, o longa tem uma estrutura de direção de “quadros”, sem uma lógica ou conexão entre cada parte, muitas vezes. Babenco explora fragmentos da jornada de Diego com cenas impactantes que complementam o psicológico por trás de toda a trama, mas que podem aparentar estar “fora” da narrativa. Uma ousada forma de direção que pode não ser apreciada por todos. O escurecer da tela para fechar os “quadros” homenageia os clássicos da década de 1950, 1960 e 1970, e traz um charme extra para a fotografia impecável do diretor. A cenografia, a trilha sonora e breves takes em pinturas, decoração e corredores tornam Meu Amigo Hindu um projeto de arte. E é encantador.

Este não longa não é para qualquer um. A frieza de colocar em tela a sexualidade de um homem que está morrendo e o sofrimento, interesses e tristezas daqueles que estão ao seu redor, resultam em cenas de masturbação, sexo com prostitutas, discussões conjugais que podem terminar em violência, chantagens, revelações e um narcismo do protagonista que é muito mais fácil de julgar do que se colocar no lugar. Afinal, o que aprendemos ao contemplar o imaginário incompreensível de um homem que venceu o câncer?

Fica aqui um convite para sentar na sala de cinema, respirar fundo e se permitir mergulhar em uma história confusa, embasada na psicologia humana, mas que certamente te levará ao céu. O “amor próprio” em formato de filme. Meu Amigo Hindu estreou dia 03 de março e conta com Reynaldo Gianecchini, Bárbara Paz, Dan Stulbach, Tuna Dwek, Maitê Proença, Danton VighTania Khalill no elenco.

Küsses,

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Tatá Snow

“Crítica” de cinema – prefiro ‘analista de entretenimento’, fanática por comédias românticas e viciada em Sex and The City. Ah…#TeamCap

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