CRÍTICA | O Nascimento de uma Nação – sob o peso do sangue negro derramado

Do nome do filme clássico e racista, Nate Parker retira um épico sobre rebelião de escravos nos EUA Crítica assinada por Nayara Reynaud para a Freakpop Não se engane pelo...

Do nome do filme clássico e racista,
Nate Parker retira um épico sobre rebelião de escravos nos EUA

Crítica assinada por Nayara Reynaud para a Freakpop

o-nascimento-de-uma-nacao-critica-3Não se engane pelo título. O Nascimento de uma Nação não é um remake e sim uma resposta cinematográfica, realizada por Nate Parker em 2016, ao longa homônimo de D.W. Griffith: um clássico por suas inovações técnicas e narrativas copiadas desde 1915, mas polêmico pelo seu conteúdo racista, visto do uso de blackface (atores brancos com rostos pintados de preto) à representação negra caricata e romantização do surgimento da Ku Klux Klan. Mas se a Guerra de Secessão servia de estudo do filme mudo, o conflito só aparece como consequência prenunciada na última cena da produção atual, que resgata um importante evento anterior, com a rebelião de escravos liderada por Nat Turner, em 1831.

O primeiro longa do ator, porém, tem sua própria dose de polêmica. Os sete anos que ele dedicou ao projeto, que dirige, roteiriza e produz, foram agraciados com o Grande Prêmio do Júri e a premiação do público no Festival de Sundance, onde foi apresentado no momento certo para ganhar a repercussão necessária que o levaria, sem problemas, como forte candidato para o Oscar 2017. Não se esperava que uma acusação de estupro de 1999, feita a ele e ao corroteirista Jean Celestin quando estavam na faculdade, e que resultou no suicídio da mulher que os acusara, em 2012, colocaria esse favoritismo em dúvida. Trata-se de uma questão exterior que não precisa ser levada em conta ao avaliar a obra em si, mas como a violência contra mulheres atua como agente da mudança de trajetória do protagonista, o caso vem à mente quando chegam essas sequências.

Nat Turner, vivido pelo próprio Parker, foi criado junto de Samuel Turner (Armie Hammer), que se torna um senhor benevolente com seus escravos – até que interesses financeiros e sociais se sobrepõem a isso, como já era de se esperar –, e, aos poucos, percebe que a vida de outros negros escravizados era diferente de sua rotina com o complacente proprietário de terras. No entanto, é uma vingança pessoal que transforma o pastor que acalmava seus colegas e outros escravos da Virgínia com suas palavras em um rebelde que passa a usá-las para inspirar a alma de seus irmãos de grilhão, em uma inteligente amostra de como a interpretação da Bíblia pode ser utilizada para diferentes maneiras e manipulações. Só que o levante negro que ele inicia logo é duramente combatido pelos brancos, de modo desproporcional.

Entretanto, este momento crucial é deixado somente para o clímax, trabalhado sem apuro pela narrativa. Esta, aliás, perde sua força na falta de espaço para o subtexto, na reiteração desnecessária da montagem em um ponto-chave e na ausência de sutileza do roteiro, que se apoia demais no protagonista como uma figura mítica – Nat afirmava que Deus o inspirou através de visões traduzidas aqui em breves passagens oníricas. Com isso, não desenvolve tanto, além de Samuel, os personagens coadjuvantes, que são bem até bem defendidos pelo elenco, à exceção do exagerado mordomo de Roger Guenveur Smith.

A direção pesada do iniciante Parker também não tenta subverter a fórmula ou manter a provocação da escolha do título. A câmera na mão urgente que ele imprega, com os chicotes e estilo Bourne de Paul Greengrass, não dialoga com a steadycam contemplativa que lembra muito a de 12 Anos de Escravidão em alguns planos. O filme de Steve McQueen que ganhou três Oscars já gera comparação pela semelhança temática, assim como é possível recordar de A Cor Púrpura nos planos no campo de algodão.

Contudo, essas escolhas e detalhes não tiram a qualidade do filme, que conta com uma boa reconstituição de época da produção e reverbera um fato histórico em tempos de discussão sobre a violência policial contra negros nos Estados Unidos, que agora elegeu o controverso Donald Trump como presidente, e que ecoa em qualquer plateia que conheça diariamente as facetas daquele mesmo racismo de séculos atrás.

Crítica assinada por Nayara Reynaud para a Freakpop

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Tatá Snow

“Crítica” de cinema – prefiro ‘analista de entretenimento’, fanática por comédias românticas e viciada em Sex and The City. Ah…#TeamCap

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