Os Guardiões pode ser uma das maiores obras primas do cinema moderno

Os Guardiões pode ser uma das mais monumentais comédias acidentais de todos os tempos Com todo respeito a Ed Wood e Tommy Wiseau, mas Sarik Andreasyan pode ter tomado o...
Guardiões

Os Guardiões pode ser uma das mais monumentais comédias acidentais de todos os tempos

Com todo respeito a Ed Wood e Tommy Wiseau, mas Sarik Andreasyan pode ter tomado o trono de diretor mais brilhante sem querer de todos os tempos. Seu filme, Os Guardiões (do russo Zashchitniki, que quer dizer ‘Defensores’) consegue ser ao mesmo tempo um dos piores filmes de super-herói, a versão Aperte os Cintos que o Piloto Sumiu! do Universo Marvel e um brilhante meta-comentário sobre consumerismo de entretenimento de filmes baseados em quadrinhos.

Tudo isso com um urso que usa uma metralhadora para compensar seu drama existencial

Ok. Vamos por partes. Os Guardiões é sobre um grupo de super-humanos criados no início da Guerra Fria na União Soviética. Cada herói é oriundo de uma parte da antiga USSR e tem poderes baseados nos quatro elementos (ar, terra, água e urso). O programa, organizado sob uma organização chamada Patriot criou os heróis e depois imediatamente os dispensou. Provavelmente porque as prioridades do país haviam mudado para derrotar Apollo Creed em Las Vegas. O programa é eventualmente esquecido (apesar da abertura do filme mostrar a cobertura extensa pela imprensa sobre o fato do superhumano ser soviético, mas enfim, censura).

Décadas depois, nos dias de hoje, um cientista que trabalhou num projeto na Patriota foge da prisão. Ele ganhou superpoderes que o permite controlar qualquer tecnologia e o deixou super musculoso e careca, nível “Vin Diesel depois que saiu aquela foto onde ele estava meio gordinho”.

Assim, a Patriot é reativada e os Os Guardiões voltam a ativa, apesar de tecnicamente nunca terem estado na ativa, mas enfim…

Que roteiro, tovarishch?

Parafraseando o nosso querido Doc Brown, “Roteiro? Para onde vamos não precisamos de roteiro.”

A história de Os Guardiões parece simples, mas a sinopse que descrevo acima eu levei uns bons 30 minutos para resumir. O filme não tem interesse nenhum em tecer uma trama concisa ou minimamente coerente, o diretor apenas quis fazer um filme onde ele pode replicar seus diálogos favoritos de jogos japoneses para Playstation 2 e plagiar clichês de filmes de super herói.

Imagine tudo que você já viu em um filme de super herói. Agora tire o contexto. E divirta-se assistindo a cena se esforçar em trazer o mesmo impacto emocional ou significado para a trama. É aqui que Guardiões vira um exercício brilhante de análise sobre cinema moderno.

Cada Guardião tem seu momento onde ele desabafa sobre seu drama pessoal (imagine um time feito inteiramente de Bruce Banners em Era de Ultron). Porém, isso rola no meio do filme sem qualquer indicativo. A coitada da Major Elena Larina (Valeriya Shkirando fazendo sua melhor versão de “personagem que é o Nick Fury da franquia”) serve apenas para ficar parada enquanto cada herói conta sobre seu passado trágico – de novo, no meio do filme e sem contexto nenhum – apenas porque estamos acostumados com 30% de alma torturada em todos os filmes sobre pessoas de collant. E isso acontece em quatro cenas diferentes, porque cada herói precisa de seu momento emotivo único. E cada cena funciona exatamente assim:

Major: O que foi?

Guardião (fazendo cara consternada enquanto o piano devagar entra na trilha): É. TÃO. DIFÍCIL. SER. UM. GUARDIÃO. *punhos ao céu*

Major faz cara de preocupação.

Guardião: A. MINHA. FAMÍLIA. AMIZADE. PODER.

Major faz cara de preocupação.

*Fim de cena*

Marvel? Net. DC? Ne slishkom.

O longa é tão desinteressado em cenas que não envolvem espetáculo visual que o longa abre com uma sala de reunião onde um militar russo explica da forma mais monótona possível o que é a Patriot, quem é o vilão, porque ele é o vilão, qual é a origem dele, o que são Os Guardiões, onde fica a base que eles vão reativar, o que os Guardiões vão fazer etc. É genial. É a versão David Zucker das cansadas cenas de reuniões de acionistas, conselhos militares e conferências de imprensa que assombram os filmes da Marvel e DC.

Não contente em colocar os clichês de cena no microondas para dar uma requentada, o diretor também apela para os elementos visuais genéricos. É óbvio que o título do filme vai aparecer com um BOOM logo que o diálogo anterior terminar com “E qual é o nome desse grupo?”. E o mais legal: o filme ficou na dúvida de como introduzir o título. Fazer a entrada estilo Vingadores onde o título aparece depois do diálogo ou se fazem uma abertura super estilosa estilo X-Men e Homem-Aranha de Sam Raimi. Como resolveram? Fazendo as duas abertura e colocando o título duas vezes no filme. Porque audiências ocidentais deram rios de dinheiro pra isso, então a Rússia quer um pedacinho do bolo.

E não é só isso!

A cena do resgate de Hong Kong do Batman: O Cavaleiro das Trevas? Yep. Tem uma versão disso. O raio da morte no céu? Com certeza. Os zooms bizarros em bunda, peito e virilha do Joe Schumacher em Batman & Robin? Opa. O belíssimo derrier de Alina Lanina ganha uma cena própria.

Vale a pena?

A versão dublada em inglês ainda funciona como uma das comédias mais engraçadas da atualidade. Os americanos não são particularmente entusiasmados dublando live-action, o que faz todos os personagens falarem com o mesmo tom seco que Leslie Nielsen usava em suas lendárias paródias. É bom? Depende do ponto de vista. Não vá assistir Os Guardiões esperando uma experiência convencional. Os Guardiões não se importa com o que você pensa, apenas com o que você sente. E o que você mais vai sentir é confusão.

E eu ri mais do que ri em muitos filmes. Eu ri de sair com as costelas doendo e as lágrimas escorrendo. Eu não tenho certeza se entendi o que o filme queria fazer, mas há tempos que eu não me contorcia na cadeira do cinema.

Guardiões, assim como The Room e Trolls 2 transcende o nosso pequeno sistema de notas. Então apenas deixo aqui uma das falas que mais me marcou no filme:

“Quando eu entro em modo urso, eu apenas consigo rugir. As pessoas não conseguem me entender.”

Essa frase foi dita por Arsus, o rapaz que se transforma em urso. Ele sofre com o fato de cada vez que o cérebro dele vira de urso, ele demora mais tempo para voltar a pensar como um homem. É um drama existencial…

que o filme resolve criando uma metralhadora que atira em tudo que ele direciona a agressão enquanto transformado em urso. Porque a Rússia não se importa com seu sentimentalismo barato, seu bourgeois capitalista.

Até a próxima!

Comente via Facebook!

Editor-chefe da Freakpop. Adora cinema, mas odeia a palavra cinéfilo. Leu quadrinhos demais na vida e tem uma capacidade muito limitada de entender a realidade. Tudo que não explica com Máquina Mortífera, explica com Highlander. Sabe tudo sobre Soul Reaver e Crônicas de Gelo e Fogo. Seu signo é estegossauro.

Categorias
Criticas

Ver também