Os verdadeiros inimigos em ‘Os Últimos Jedi’ são a nostalgia e o hype

As reclamações sobre Star Wars: Os Últimos Jedi revelam problemas maiores que a Primeira Ordem ou o Lado Negro da Força Antes de começarmos, já deixo avisado, haverá spoilers sobre...
Os últimos Jedi com spoilers

As reclamações sobre Star Wars: Os Últimos Jedi
revelam problemas maiores que a
Primeira Ordem ou o Lado Negro da Força

Antes de começarmos, já deixo avisado, haverá spoilers sobre o mais novo episódio da saga mais famosa de muito tempo atrás em uma galáxia distante: Os Últimos Jedi. Apesar de rapidamente ter se tornado um queridinho dos críticos, o novo filme da franquia Star Wars tem incomodado muitos fãs.

Quer dizer que um filme blockbuster dividiu opiniões da audiência e crítica? Uau! Quantas Marthas tem nesse?

Naturalmente, todos têm o privilégio de ter opinião própria, mas acredito que algumas observações levantadas contra o longa apontam algumas armadilhas da percepção humana quando são influenciadas pela nostalgia, pela expectativa e pelas mesmas táticas que JJ Abrams usa há anos para prender a atenção da audiência. Entendam, não quero começar uma briga e falar quem está errado ou não, apenas esclarecer algumas ideias que talvez tenham se perdido após 40 anos de Star Wars….

Primeiramente, Os Últimos Jedi

Star Wars Episódio VIII: Os Últimos Jedi é a mais nova entrada na franquia mais bem sucedida da história do cinema. O diretor Rian Johnson continua a saga começada por JJ Abrams em O Despertar da Força. Para levar a saga para o futuro, o diretor primeiramente olhou para o passado. Ao contrário de Abrams, que apostou em duas de suas ferramentas mais usadas para transformar o Episódio VII em um sucesso, Johnson olhou para os elementos que influenciaram Star Wars e usou isto para construir os primeiros passos para esta nova trilogia ter sua própria voz. Para isso, fez como George Lucas que se inspirou nos épicos de Samurais de Akira Kurosawa

… E as aventuras de Flash Gordon, a inspiração original que Lucas usou para construir seu mundo. Nesta inspiração, o diretor não quis apenas revisitar cenas icônicas, mas tecer uma história única e trazer à tona alguns temas bem interessantes.

Infelizmente, alguns destes temas foram suficientes para causar uma certa irritação…

Um dos pontos que causou aperto é a origem de certos personagens. O misterioso Líder Supremo Snoke morrer sem grandes revelações sobre seu passado, como ele ascendeu ao topo da Primeira Ordem e quem de fato ele é. Só que fica a pergunta. Interessa saber quem ele é?

Vamos falar desse rapaz aqui.

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Ao contrário do que muitos acreditam, George Lucas nunca teve um grande plano para a saga. O primeiro filme não saiu com o nome “Episódio IV: Uma Nova Esperança“, ele se chamava apenas…

O filme faz menção a um Imperador, mas apenas porque existe um desses em Flash Gordon. Darth Vader era apenas um capanga assustador (que todo mundo no escritório tira sarro por seguir uma religião sem nexo), Moff Tarkin era o verdadeiro chefão, Luke e Leia claramente iam ter um romance e não eram irmãos, e o Skywalker Daddy nunca virou a casaca e colocou um capacete preto – eram personagens distintos.

Eventualmente, outros roteiristas e diretores entraram na brincadeira e começaram a expandir temas. Han Solo se provou mais popular que Luke, por isso ele ficou com a garota, Vader e Anakin Skywalker viraram um personagem só e Obi Wan teve que explicar porque “no ponto de vista dele”, Darth realmente matou o pai de Luke.

E já que Vader foi de vilão genérico para figura trágica, surge esse tal Imperador para a Aliança Rebelde derrotar e de fato destruir o Império. Antes do Universo Expandido com seus livros, games, quadrinhos e papel higiênico, não se sabia quase nada sobre Palpatine. Ele era malvado. Ponto. E qualquer pessoa que assistiu desenhos nos anos 80, sabe que só isso já basta para um vilão. Afinal, ninguém quer descobrir que o Esqueleto busca nos segredos do Castelo de Greyskull uma cura para sua intolerância à lactose.

Entram Episódios I, II e III

De A Ameaça Fantasma até A Vingança dos Sith, George Lucas contou duas histórias: a ascensão de um senador chamado Palpatine (primeiro nome Sheev, valeu Universo Expandido!) que secretamente é um Sith e manipula toda a República Galáctica até ele se tornar o tirânico líder de um Império Galáctico fascista; e de Anakin Skywalker, um órfão extremamente poderoso na Força que é visto como o Escolhido, e sua derradeira queda para o lado negro.

E adivinha só? Nada que foi contado nestes filmes importou. Como histórias de origem tipicamente costumam fazer. Saber que um dia Darth Vader era um rapaz com dificuldade de se comunicar como um ser humano e que odiava areia não ajudou em nada. Saber que Palpatine sempre foi um vilão, também não ajudou em nada. De quebra, descobrimos que o misterioso Bobba Fett era apenas um clone de um cara que vendeu seu DNA para fazer vários clones. Mudou sua vida? Nope.

Entra Snoke. Quem era Snoke? Um cara que seduziu o vilão principal para o lado negro da Força. Como ele controlou a Primeira Ordem? Sei lá, a vaga foi divulgada na Catho. Por que ele usa a Força? Porque em Star Wars, personagens sabem fazer isso.

O mesmo pode ser dito sobre Rey. Fãs fervorosamente passaram os últimos dois anos especulando sobre sua origem apenas para receberem a notícia que ela é filha de ninguém em especial. Ela não é uma Skywalker, uma Kenobi, nem mesmo uma sobrinha adotiva do Dengar…

Lembra do Dengar?

E fica a pergunta. A Rey ter tido uma origem importante, ia mudar alguma coisa? O roteiro de Johnson passa bastante tempo focado em Luke analisando o papel dos Jedi e de sua lendária família na galáxia. Os Skywalkers são uma presença gigantesca neste mundo, mas boa parte do tempo, seu histórico é longe de “bem sucedido”. Até mesmo o próprio herói da Batalha de Yavin tentou assassinar seu sobrinho em  um momento de dúvida.

Apesar de feito de maneira tosca, Lucas explorou bastante o tema de acreditar cegamente em uma figura messiânica. Anakin era o escolhido da Força, mas isto não quer dizer que ele não possuía um lado humano que merecia atenção. Esta visão dogmática fez com que os Jedi jamais questionassem o mundo ao seu redor e permitiram a ascensão do Império e o Lado Negro. O que nos leva à seguinte pergunta.

Por que Rey precisa ser parente de alguém?

O fim do longa mostra um menino sensitivo na Força olhando para o céu e portando um anel da Aliança Rebelde. Ele pode ser um futuro herói. Rey veio do nada e se tornou uma heroína da Resistência. Por que ela precisa ter parentes importantes? Não é mais divertido para a trama e, consequentemente para a audiência, imaginar que grandes heróis e lendas podem vir de qualquer lugar?

E pior: se existe algo que a trilogia de Lucas mostrou é que tentar criar consequências para estes personagens, o resultado quase sempre é estúpido. Chewbacca e Yoda lutaram junto nas Guerras Clônicas, C-3PO foi construído pelo Jedi Jesus, R2-D2 foi o dróide Astromech de dois Skywalkers que nunca se conheceram antes do Episódio V, e um caçador de recompensas misterioso na verdade estava relacionado com todo o exército de clones. E tudo isso apenas deixou a trama mais imbecil.

Por que o Luke Skywalker precisa ser fodão?

Algumas pessoas não gostaram da jornada de Luke no filme. De sua rejeição ao sabre de luz (de novo, olha o hype atrapalhando o roteiro) até seu fim contra Kylo Ren. Fica a pergunta: O que ele deveria ter feito?

Luke foi incentivado tanto por Obi-Wan quanto por Yoda para matar seu pai Darth Vader. Afinal, o malvadão era símbolo vivo do fracasso dos Jedi. Ele subverte expectativas ao negar a ordem, perdoar seu pai e juntos, fazerem o Imperador fazer cosplay do Super Mario morrendo. O papel de Luke sempre foi desafiar o lance do Escolhido.

Algo trágico aconteceu e o último Jedi vivo decide se exilar do mundo. Suas explicações são claras: os Jedi são um erro e ele quer morrer em paz. O que nesta caraterização faria ele voltar para a luta? Ele não é o Vegeta ou o Ikki de Fênix esperando o momento certo para fazer uma entrada teatral. Ele nunca foi um herói Jedi badass, essas asneiras surgiram de babaquices como os jogos do Force Unleashed que transformaram os usuários da Força em personagens de anime.

Luke é um arquétipo clássico, ele está lá mostrar que chegou a vez das novas gerações tentarem algo novo e não repetir os mesmos erros do passado. Ele se sacrifica para permitir que os novos heróis fujam para lutar um novo dia e tentar salvar a galáxia de sua própria forma.

As tais duas ferramentas de JJ Abrams

Lá atrás no texto, quando ambos eramos mais jovens e apaixonados, eu falei sobre dois recursos ou ferramentas que JJ Abrams usa em seus projetos. Ambas funcionam que nem cocaína, o que explica porque algumas reações sobre Os Últimos Jedi têm sido tão frenéticas. A primeira, é a Caixa Misteriosa.

Os Últimos Jedi

JJ Abrams com sua caixa misteriosa.

Abrams tem uma tática bem interessante para manter o interesse da audiência. Ele introduz um mistério (ou vários) logo de cara e flerta com a revelação até o máximo de tempo. Lembra de Lost e o mistério da Ilha? Dos Números? Dos Ursos Polares? Do Monstro de Névoa? Yep. Caixa misteriosa. A campanha de Cloverfield? Era um anúncio viral que nunca falava que o filme era sobre um monstro gigante. E em Star Wars? Quem é Rey? Quem é Kylo Ren? Quem é o Líder Supremo Snoke?

O problema da Caixa Misteriosa é que a reposta do mistério raramente importa. Quantas pessoas gostaram ou entenderam o final de Lost? Não importa. A Caixa existe para cumprir uma única função: gerar hype. O próprio Abrams já assumiu diversas vezes que ele raramente pensa em como solucionar o mistério, o que nunca importa para a audiência que saliva desesperada pela resposta. Dois anos depois, inúmeras teorias de fãs, vídeos no YouTube, discussões no Reddit e é claro que a revelação final sobre a origem de Rey ia causar raiva. O hype estava fora de controle.

O outro elemento que Abrams usa e abusa é a nostalgia. Ele cria algo novo, porém dentro de uma armação familiar. Nostalgia é um fator gigantesco no julgamento das coisas. Pense bem, não é possível que toda avó do mundo seja cozinheira de primeira. Vai por mim, eu já comi na casa de várias avós, essas velhas bancam pra caralho na nostalgia para ganhar ibope.

O Despertar da Força é um filme fantástico, sem sombra de dúvidas. É a história de um herói que vive em um planeta desértico capaz de acessar uma força mística. Ele embarca numa nave chamada Falcão Milênio com um robô que possui planos cruciais para uma facção de rebeldes em conflito com uma força imperial gigantesca. Na jornada, seu mentor é morto por um usuário maligno desta força mística mas, eventualmente, conseguem derrotar a super arma destruidora de planetas do império do mal.

Sim, os personagens são outros e a história segue algumas ordens diferentes, mas é difícil negar que Abrams decidiu lançar um capítulo novo de Star Wars basicamente refazendo Uma Nova Esperança. Fale o que quiser de Os Últimos Jedi, mas pelo menos o filme tenta contar sua própria história.

Mas e as piadinhas?

Ok, outra reclamação recorrente: o filme tem piadinhas. Muitas pessoas falam da cena de Poe “trollando” o General Hux na abertura do longa, que este tipo de galhofa é inaceitável nesta Guerra nas Estrelas. Afinal, estes filmes sempre foram tão sérios que sua existência trouxe Zack Snyder para o nosso plano de existência. Tipo essa cena:

Star Wars sempre teve muita comédia. George Lucas até remasterizou seus filmes para colocar mais arrotos e peidos (ele não é exatamente um gênio do humor). Até mesmo as comparações com a Marvel são infundadas. Sabe por que todos os filmes da Fase 2 tinham algum personagem perdendo um braço? Foi o jeito de Kevin Feige homenagear a Star Wars, que ele afirma ser a maior influência do Universo Cinematográfico Marvel. Por isso os longas são aventuras divertidas e cheias de humor.

E no fim, Os Últimos Jedi sofre com alguns problemas: núcleos demais simultâneos acabam arrastando a história em alguns momentos e a introdução de muitos personagens novos acaba complicando a presença de alguns já estabelecidos (o Finn não tem muito o que fazer no filme). Antes do Universo Expandido, antes dos planejamentos bizantinos de franquias multi-bilionárias, Star Wars era um filme independente que ninguém envolvido na produção conseguiu entender e que eventualmente se tornou um fenômeno. Uma obra que teve o privilégio de reunir um grande número de criadores e atores talentosos que foram aos poucos agregando elementos fantásticos e que sim, a integridade da trama e expandir a mitologia nunca foram os objetivos principais. E pelo amor de Bendu, parem de comparar tudo com a Marvel. Eles não inventaram contar piada em filmes e Star Wars nunca foi uma franquia séria.

Até a próxima!

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Editor-chefe da Freakpop. Adora cinema, mas odeia a palavra cinéfilo. Leu quadrinhos demais na vida e tem uma capacidade muito limitada de entender a realidade. Tudo que não explica com Máquina Mortífera, explica com Highlander. Sabe tudo sobre Soul Reaver e Crônicas de Gelo e Fogo. Seu signo é estegossauro.

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