Pantera Negra | Marvel dá um passo na direção certa, mas ainda sofre com os problemas de sempre

Pantera Negra constrói um mundo fantástico e diferente de tudo que a Marvel já fez Imagine o trabalho realizado em Senhor dos Anéis para construir com figurino e maquiagem...
Pantera Negra
Pantera Negra

Pantera Negra constrói um mundo fantástico
e diferente de tudo que a Marvel já fez

Imagine o trabalho realizado em Senhor dos Anéis para construir com figurino e maquiagem cada raça que habita a Terramédia. As armaduras e armas suntuosas dos elfos, os ângulos retos e industriais dos anões, os diferentes reinos humanos. A Marvel com Pantera Negra traz um presente para o mundo ao fazer exatamente isto com elementos de diferentes culturas africanas para construir sua Wakanda.

A trama

Após os eventos de Capitão America: Guerra Civil, T’Challa (Chadwick Boseman) retorna para Wakanda para iniciar os rituais de passagem para assumir o trono da nação. Wakanda é a nação mais rica e avançada do planeta, mas desde sua origem manteve-se oculta do resto do mundo. Apesar de ser uma superpotência, para a comunidade global, o país não passa de um anão de terceiro mundo. Wakanda é regido por um conselho com representantes das diferentes tribos que controlam os territórios.

O Pantera Negra é ameaçado pelo surgimento de Killmonger (Michael B. Jordan), um soldado das forças especiais americanas que possui vínculos secretos com Wakanda e desafia T’Challa pela posse do trono.

Vida longa ao rei

Vamos rapidamente abordar o paquiderme na sala: A Marvel não sabe construir vilões. Com raríssimas exceções, os vilões dos filmes do Universo Cinematográfico Marvel se resumem em colocar um ator talentoso e famoso para atuar em meia dúzia de cenas com uma motivação vaga e um conflito anti-climático no final. Killmonger é uma rara e preciosa exceção e o roteiro sabiamente aproveita que a origem de T’Challa já foi estabelecida para construir quem é o antagonista.

Não entraremos nos detalhes da trama, afinal não queremos provocar a ira dos spoilerfóbicos, mas o que torna Killmonger um vilão acima da média é exatamente porque o filme não se auto congratula por ter criado um longa com diversidade racial. Existe um realismo desconfortável na premissa. Afinal, como que um reino como Wakanda, com sua superioridade bélica e avanços científicos permitiu a colonização da África e subsequente subjugação e escravidão de seus povos? Como que uma nação tão avançada, de um ponto de vista político-social, se permite permanecer em total isolamento enquanto afrodescendentes residem em países com tamanha desigualdade social e perseguição pelo sistema? No meio deste questionamento, surge um guerreiro revoltado e disposto a desafiar o status quo.

É claro que parte das analogias são um pouco confusas. Fruto de um roteiro elaborado por americanos e sua tendência de generalizar identidade racial por meio de grupos que abrangem diversas etnias distintas em um rótulo que não explica nada (tente entender o que um norte-americano considera um “latino” e tente se enquadrar na descrição). Para o problema central de Pantera Negra funcionar, um deve interpretar que existe um lugar chamado “África” onde existe somente uma única cultura, mentalidade e sociedade e não um complexo coletivo de religiões, etnias, tribos e nações. Mesmo assim, é um passo certo para a Marvel sair da mesmice e construir filmes com uma certa relevância política e social.

Ainda assim…

É um filme da Marvel, com qualidades e problemas já esperados. As piadinhas não ganham tanto espaço, considerando a seriedade da premissa e do protagonista, mas são bem colocadas e no momento certo. Boa parte do humor se concentra em Shuri (Letitia Wright), irmã do Pantera Negra e a “Q” para o o herói.

As cenas de ação são um pouco inconsistentes. Ryan Coogler trabalha melhor as cenas com efeitos práticos, com socos e tiros, e aproveita para fazer uso inteligente de planos sequencia como em seu filme anterior. A qualidade da ação é um pouco incoerente e o diretor pena especialmente em cenas com uso excessivo de computação gráfica.

O terceiro ato é onde Pantera Negra derrapa. Para todas as novidades que o longa trouxe em sua premissa, eles se perdem em um terceiro ato que essencialmente tem os mesmos elementos de Thor: Ragnarok. O herói reúne um grupo de personagens com habilidades especiais para enfrentar o exército inimigo. O herói enfrenta o antagonista principal enquanto os demais heróis lutam contra um exército e um deles fica responsável por pilotar uma nave. Até mesmo as cenas pós-crédito são estranhas. São cenas que apenas estendem a conclusão do filme e abandonam a proposta de dar um gostinho do próximo projeto.

Porém…

O elenco disparado é o mais talentoso que a Marvel já reuniu e com pouco tempo de tela é possível, por meio de sutilezas, entender o histórico de cada personagem, seus relacionamentos e sua posição frente o conflito central da trama.

Lupita N’yongo cria em Nakia alguém que vai muito além do interesse amoroso do herói, em seu papel de espiã da nação e ativista de direitos humanos. Shuri com sua atitude desafia o tradicionalismo que ameaça tornar Wakanda obsoleta frente as questões que o mundo enfrenta. Sterling K. Brown de This Is Us em poucas cenas mostra o pouco de ternura que ajuda a transformar  as motivações de Killmonger mais complexas. A Okoye de Danai Gurira, líder das Dora Milaje, as guardiãs dos rei, é uma força da natureza e esbanja intimidação em todos os momentos.

Tudo isso com um figurino verdadeiramente impressionante. Cada tribo de Wakanda tem uma identidade cultural e um propósito na sociedade e isto é refletido nos trajes, armas e visual. Como falamos no começo da crítica, Pantera Negra cria um mundo de fantasia que fez para elementos das diversas culturas africanas o que Senhor dos Anéis fez para as culturas europeias.

Blade pode ter sido o primeiro filme da Marvel com um protagonista negro, mas foi em Pantera Negra que vemos o potencial de diversificar a oferta de filmes de super herói. E admitimos que é um potencial bem empolgante.

Até a próxima!

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Editor-chefe da Freakpop. Adora cinema, mas odeia a palavra cinéfilo. Leu quadrinhos demais na vida e tem uma capacidade muito limitada de entender a realidade. Tudo que não explica com Máquina Mortífera, explica com Highlander. Sabe tudo sobre Soul Reaver e Crônicas de Gelo e Fogo. Seu signo é estegossauro.

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