Star Trek: Discovery é sensacional e Game of Thrones é horrível pelas mesmas razões

Star Trek Discovery acerta fazendo exatamente o que Game of Thrones faz errado Dois recados antes da verborragia: Se você é fã incondicional de Game of Thrones, que não...
Star Trek Dicovery e Game Of Thrones

Star Trek Discovery acerta fazendo exatamente
o que Game of Thrones faz errado

Dois recados antes da verborragia:

  1. Se você é fã incondicional de Game of Thrones, que não percebe a decadência da série a partir da quarta temporada ou fã de Star Trek, que ainda acha legal ouvir o Marcos Kleine tocando os temas de TOS, TNG, DS9 e Voyager na guitarra durante convenções praticamente maçônicas dos anos noventa, vai passar raiva nesse texto. Nem leia.
  2. Contém spoilers.

Que série! Reviravoltas engenhosas, pistas e recompensas bem colocadas, consequências fatais para personagens centrais, traições, disputa por poder e um design de produção, maquiagem, figurino e efeitos especiais de cair o queixo. E não é Game of Thrones: é Star Trek!

Já era de se esperar, contudo, que Discovery enfrentaria a ira dos fãs mofados que soltaram a lista de frases prontas pra atacar a série logos nos primeiros episódios que a Netflix soltava às segundas-feiras. “Isso não é Star Trek”, “Fere o cânone” ou “Pra quê uma negra protagonista” foram coisas lidas por aí, algumas apagadas pelos administradores dos grupos de Facebook cheios de daqueles fãs que tomam posse de uma franquia e ficam amargurados porque não são consultados sobre como uma série deveria ser produzida.

Mas essas opiniões sem embasamento não vieram apenas dos fãs que aqui são assim, mas que no universo espelhado são coelhos brancos saltitantes: críticos também distribuíram as cartelas de bingo e começaram a cantar as bolas com frases prontas. Logo, está por aí “Tecnicamente impecável, mas o diretor não sabia pra onde estava indo”, “Roteiro cheio de furos” ou “Efeitos especiais salvam a produção”. Bingo!

Ainda que Star Trek: Discovery tenha uma ou outra derrapada irritante, nenhuma foi um grande problema e a série seguiu firme e muito divertida de assistir. Por exemplo, uma coisa que me irritou foi incluir Elon Musk no universo Star Trek. Coisa de roteirista que acha que teve uma baita ideia, mas que no final é só uma grande bobagem sem nenhuma importância para a trama. Até o nome Zaphod é citado e achei proposital, piadinha interna para amantes de ficção científica que não ofende, mas destoa e tira o espectador da história. Fora isso, convenhamos, esse conhecimento de Wikipedia que embasava os esporos também dava nos nervos.

Tirando isso, era uma produção recheada de referências e elementos dignos de Star Trek, mas com a ousadia de ir além na maneira de construir os personagens, o que é uma grande diferença em comparação a outras séries do mesmo universo. Então sim, está lá a revelação da sexualidade de um casal em uma linda cena íntima onde ambos escovam os dentes ao acordar. Tipo de coisa pra quem mostrou o beijo inter-racial na década de 60. Também está lá um capitão controverso, cheio de camadas interessantes e que em poucos episódios já estava ali pertinho de outros capitães. Como não sou daqueles puristas, Lorca pra mim só não é melhor do que Archer na minha escala que tem o Kirk de Shatner na ponta negativa. A minha é assim: Archer>Lorca>Kirk Pine>Janeway>Picard>Sisko>Kirk Shatner. Divago.

O título desse texto sugere uma comparação entre Game of Thrones e Discovery, certo? Mais ou menos. O convite à reflexão está somente no caminho que Discovery seguiu, enquanto Game of Thrones se tornou uma série previsível e com ares de telenovela de fácil deglutição para o público pouco exigente que passou a idolatrar a Tieta de Westeros. Entregue ao melodrama, Game of Thrones deixou de lado seus personagens fortes, deixando-os caricatos. Abandou a trama política complexa para alimentar o público que queria mortes impactantes. Deixou de lado a riqueza da linguagem áudio-visual para entregar sequências que caem diretamente em jogos de vídeo game, com check-points e tudo mais.

Voltando na construção de personagem em Discovery, vejamos um detalhe na protagonista Michael Burnham – que se aplica a vários outros personagens: seu arco é, essencialmente, sobre o retorno à sua humanidade (ela foi criada pelos pais de Spock) equilibrando a lógica e emoção, percebendo que suas ações e decisões precisam ser ponderadas, e a produção tem a beleza de pontuar isso, entre outros aspectos, no penteado, que gradativamente a aproxima também das origens da atriz.

É uma personagem muito forte. Constantemente retratada como uma ameaça crescente (e não é assim que são as mulheres no mundão masculino?), suas ideias são colocadas em segundo plano nas primeiras vezes que as expõe para então ficar claro que apesar da intenção de reduzi-la a um posto inferior, ela está sempre certa – ainda que termine em uma tragédia inevitável. E olha que em Star Trek NÃO HÁ o preconceito com mulheres. É apenas uma analogia muito bem feita até o quinto episódio.

Star Trek debate esses temas com frequência, a diferença aqui para as séries anteriores é, insisto, que há o uso de linguagem cinematográfica para abordagem, e não apenas os diálogos expositivos habituais. E os personagens de Discovery são muito, mas muito mais profundos do que de outras séries – que já eram muito bons também, diga-se.

A liberdade de não cravar quem é vilão e herói, mas sim protagonista e antagonista (coisa rara em ST), traz possibilidades aos roteiristas para que busquem, ainda no começo da temporada, paralelos bem legais: um sobre tortura entre humanos e klingons e outro sobre relacionamentos (um inter-racial – de fato – e um homossexual). Especialmente no caso da tortura, há uma bela sutileza que quase escapa se não estiver atento, ainda mais porque ela coloca em perspectiva nossa concepção sobre o tema. E isso acontece na Frota. Já em Game of Thrones, isso acontecia até a quarta temporada. Dali em diante (e para melhor compreensão do espectador que não faz um “o” com o copo), passou a cravar personagens pra lá de vilões caricatos. Trocou antagonistas tridimensionais como Tywin Lannister e Roose Bolton por sádicos previsíveis como Ramsay Snow e Euron Greyjoy, por exemplo. Coisa bem rasteira.

Discovery sai da caixinha de Star Trek. Game of Thrones empacota um produto pra agradar o público pouco exigente. Assim como Enteprise, essa nova série da Netflix tirou os fãs mais arcaicos da zona de conforto e passou a surpreendê-los – coisa que não queriam e nem estavam preparados para tanto. Na HBO, GOT seria capa na Contigo!. Em Discovery, teve até um finale sensacional transformando Qo’nos em uma das melhores fotografias cyberpunk que já vi. Em Westeros, recriaram a Tieta com dragões (sério, leiam a sinopse de Tieta…).

Talvez os trekkers puristas quisessem mais do formato de novela que massifica uma franquia (como quiseram os fãs de GoT) e deixa a digestão mais tranquila, sem a necessidade de pensar muito quando surge uma reviravolta ou até mesmo um beijo gay. Pelo menos a Netflix fez com Star Trek o contrário que a HBO fez com GOT (quer mais motivos? Estão aqui. Era de se esperar que as opiniões ficassem divididas mais uma vez.

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