Straight Outta Compton – Crítica especial e um aprofundamento sobre N.W.A.

Straight Outta Compton e a verdadeira história sobre N.W.A. Cenas lamentáveis provocadas por tensões sociais de cunho étnico nos Estados Unidos são, infelizmente, algo que testemunhamos frequentemente. Da segunda metade...

Straight Outta Compton e a verdadeira história sobre N.W.A.

straight-outta-compton-universal-pictures-critica-n-w-a-1Cenas lamentáveis provocadas por tensões sociais de cunho étnico nos Estados Unidos são, infelizmente, algo que testemunhamos frequentemente. Da segunda metade do século XX até o presente, tivemos vários exemplos: os tumultos de Watts (1965), Newark e Detroit (1967), Washington (1968), provocados pelo assassinato de Martin Luther King, os conflitos raciais nas penitenciárias americanas (que eclodiram durante as décadas de 1960 e 1970, retratadas no romance Fábrica de Animais, de Edward Bunker que, à época, cumpria pena em San Quentin), Liberty City (1980), Los Angeles (1992, estendendo-se à outras cidades do estado da Califórnia), Cincinnati (2001) e Ferguson (2014). Um detalhe, contudo, torna-se primordialmente relevante: na ampla maioria destes casos, os conflitos deram início devido ao abuso de autoridade e excesso de uso de força policial. E é no meio deste cenário fervilhante que, na década de 1980, em Compton, numa Califórnia caótica por conta das revoltas em Liberty City, surge o N.W.A..

Straight Outta Compton conta a história do encontro de Andre Young, ou, pela alcunha que lhe deixaria mundialmente famoso, Dr. Dre (interpretado por Corey Hawkins, de Homem de Ferro 3, de 2013, e Sem Escalas, de 2014), com o perigoso traficante Eric Wright, ou Eazy-E (interpretado por Jason Mitchell, de Contrabando, de 2012, e Linha de Ação, de 2013), o irrequieto e temperamental rapper em começo de carreira O’Shea Jackson, conhecido como Ice Cube (interpretado pelo filho, O’Shea Jackson Jr.), o DJ em busca por sua consolidação Antoine Carraby, ou DJ Yella (interpretado por Neil Brown Jr., de Por um Triz, de 2003, e Velozes e Furiosos 4, de 2009), e o MC que, parceiro nos palcos, foi também parceiro de Eazy-E nas ruas, Lorenzo Patterson, ou MC Ren (interpretado por Aldis Hodge, de Matadores de Velhinhas, de 2004, e Duro de Matar: Um Bom Dia Para Morrer, de 2013) – comunhão pela música e, principalmente, por uma outra perspectiva de vida, individual e coletiva, que se tornaria o Niggaz Wit Attitudes – ou N.W.A.

O diretor F. Gary Gray (A Negociação, de 1998, Uma Saída de Mestre, de 2003, Código de Conduta, de 2009) remonta, a partir daí, a biografia do grupo revelando como cada drama pessoal experimentado por seus integrantes eram compostos e componentes de uma realidade coletiva que, num espectro maior, também era vivido pela comunidade na qual estavam inseridos. E essa é a tônica das Attitudes: a música como um meio de reverter este panorama. O longa mostra com grande sensibilidade a forma como cada revés sofrido pelos rappers. A morte do irmão de Dr. Dre, os constantes abusos de força policial sofridos por Ice Cube e todos os outros, a luta de Eazy-E por uma forma de se estabelecer longe do crime, entre outros. Era transubstanciado em rimas mordazes e batidas ferozes que, como um sentimento coletivo não poderia deixar de ser, foram assumidas e entoadas por uma parte cada vez mais crescente da comunidade local. Em suma, N.W.A. servia de voz à insurgência e indignação de um povo; serviria de alma à uma Compton combalida.

É bastante sabido o que a súbita ascendência em fama e dinheiro fazem às boas intenções da alma. E no caso do N.W.A. não foi diferente. No longa, coube ao produtor Jerry Heller (interpretado por Paul Giamatti, de O Show de Truman, de 1998, 12 Anos de Escravidão, de 2013) esse papel enzimático na dissolução do grupo: por meio dele, uma aura de ganância foi tomada por Eazy-E que, pronta e duramente combatida por Ice Cube, entra em rota de colisão com os propósitos e a união da banda. Daí por diante, os rappers põem-se em rumos controversos. Suas experiências negativas com a indústria da música assumem o protagonismo neste ponto. Em um crossfade, os músicos se transfiguram em homens de negócios e cedem às exigências de seus novos padrões de vida e vertiginosamente cria-se um abismo quase intransponível entre este ponto e o espírito que deu vida ao N.W.A. – exceto pela morte de Eazy-E. Os excessos em tempos de fama e pleno sucesso financeiro deixaram ao rapper uma herança maldita: o vírus HIV. Seria o ponto final numa história trágica – se não fosse o N.W.A. Novamente, num lampejo daquela já velha flama, o grupo reinventa suas próprias histórias, transformando fraquezas em forças e, como prova, ao seu final, o longa mostra as obras do sucesso em suas carreiras individuais.

As semelhanças físicas entre os atores e os personagens na história real e uma curadoria musical muito bem construída foram sucessos gritantes na obra de Gray. Muitas cenas e passagens do filme certamente não teriam o mesmo impacto sem estes dois elementos. As atuações contundentes e convincentes de O’Shea Jackson Jr., Corey Hawkins e Jason Mitchell também foram fatores determinantes, que, aliadas a uma cenografia bastante fidedigna e figurinos trabalhados com atenção aos detalhes, resultam numa ambientação de qualidade, inserindo o espectador num zeitgeist (“espírito do tempo” em alemão) amplificado e acessível – o que faz de Straight Outta Compton ir além de uma homenagem: um mergulho no tempo.

Contudo, dois pecados cruciais comprometem um saldo final até então prodigioso do diretor e sua equipe de roteiristas. Se você tem algum conhecimento da história do hip-hop, certamente se incomodou com a forma como o filme retrata a Ruthless Records – que, à despeito do ambiente caótico e falido, lançou discos importantes de artistas como J.J. Fad, Arabian Prince, Bone Thugs-N-Harmony entre outros (inclusive um single do Atban Klann, banda que revelou o Will.I.Am) – ou mesmo a Death Row Records – que, entre as rinhas de cães e narizes quebrados pelos guarda-costas do Suge Knight às quais o filme se limitou, emplacou vários discos de platina e ouro, graças aos sucessos de 2Pac e Snoop Dogg – que, por sinal, só aparecem de forma secundária e bastante breve em Straight Outta Compton, à despeito do papel primordial que exerceram na carreira do Dr. Dre.

Agora, se você tem um bom conhecimento do background histórico da trama, sentiu ainda mais pela remontagem tão breve e, de certa forma, superficial do impacto do próprio N.W.A. em seu contexto. Deixa um sentimento de que F. Gary Gray desperdiçou o que talvez tenha sido o grande momentum tanto do longa quanto da própria trajetória da banda. E a chave disso tudo se resume numa frase aparentemente simples: “foda-se a polícia”. É simples e fácil dizer isso hoje em dia. Tanto quanto usar essa frase num título de resenha. Mas dizer isso em 1988 sendo negro, frente à polícia e uma turba disposta ao caos, numa Miami conturbada pelos conflitos em Liberty City, num país presidido por Ronald Reagan, “foda-se a polícia” era muito mais que uma frase. E, embora tenha retratado o fato com certa intensidade, Straight Outta Compton segue um tanto longe de sua profundidade.

Se levarmos em conta o contexto do debate sobre tensão racial no lançamento do longa, sentimos este abismo entre ele e o que poderia ser sua real grandeza crescer ainda mais. Os protestos desencadeados pela morte de Michael Brown em Ferguson tiveram seus clamores bastante amplificados pelo próprio hip-hop: desde os discursos inflamados de Killer Mike nos shows do Run The Jewels até as letras mordazes de Kendrick Lamar em todo o To Pimp a Butterfly, passando também pelo magistral I Don’t Like Shit, I Don’t Go Outside de Earl Sweatshirt, boa parte da esfera musical do movimento hip-hop contemporâneo está repondo pautas e matizes sobre a questão do conflito racial nos EUA – e tem até obtido um espaço significativo na grande mídia. Era a hora e o lugar para Straight Outta Compton entrar em cena com a sua devida relevância. Mas F. Gary Gray preferiu relevar a trajetória de um grupo de negros nascidos e criados na pobre e violenta Compton, ascendendo da marginalidade à prosperidade (Eazy-E), da luta ingrata por um sonho à sua (duvidosa) contemplação (Dr. Dre), do ostracismo ao (duvidoso) estrelato (Ice Cube) e esses arcos bastante desgastados pela repetição.

O longa estreou no Brasil no dia 29 de Outubro e já está disponível em home video. Straight Outta Compton foi distribuído pela Universal Pictures em parceria com a Legendary Pictures.

Até a próxima. 

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