CRÍTICA | 3% – Nova série da Netflix não se esforça nem se arrisca

Bem vindo ao mundo preguiçoso de 3% Semana retrasada mostramos as primeiras impressões da série 3%, a primeira série nacional da Netflix e a primeira que aborda uma premissa de...

Bem vindo ao mundo preguiçoso de 3%

Semana retrasada mostramos as primeiras impressões da série 3%, a primeira série nacional da Netflix e a primeira que aborda uma premissa de ficção científica explorando um futuro distópico no Brasil. E rapaz, o negócio erra feio… erra rude…

Vamos lá. 100 anos no futuro, o Brasil vive uma epidemia de desigualdade gigantesca, 97% da população vive em absoluta miséria e somente 3% vivem no Maralto, uma ilha isolada (muito provavelmente Fernando de Noronha, considerando o mapa que aparece) que aparenta ser um paraíso tecnológico e de conforto absoluto. Para pertencer à elite, todos os habitantes têm o direito de participar de uma prova chamada de Processo, mas só ao completarem 20 anos. Ao longo dos oito episódios, acompanhamos alguns clichês ambulantes enquanto eles prestam o Enem edição hardcore.

A série nem sequer tenta criar um mundo interessante. Apesar das literaturas ricas de Yevgeny Zamyatin, Aldous Huxley, Jack London, George Orwell e Kurt Vonnegut, os criadores da série parecem que vagamente leram a página da Wikipedia sobre a série Divergente 15 minutos antes de entregarem todos os roteiros. A temporada inteira se dedica a apresentar as etapas do Processo e ver os personagens principais gradualmente serem eliminados. Você acharia que para pertencer à exclusivíssima casta dos 3% e por ser o ponto focal da trama, o tal Vestibularprocesso seria ao mínimo interessante, mas cada etapa parece ser inspirada em ideias extremamente sem graça que variam desde testes psicotécnicos até quadros do programa do João Kleber.

Não vemos nada sobre como o Brasil chegou a este ponto, nem sequer vemos o que catzo tem no maldito Maralto. Nem se sabe ao certo como Brasileiros do país inteiro migram a pé até a base do Processo que fica na Amazônia Subequatorial. Infelizmente, a preguiça cai até mesmo sobre as caracterizações e somos forçados a aceitar que estes jovens criados na mais absoluta escassez e pobreza falam um português impecável digno de um formando em letras.

O máximo que 3% tem para explorar, em seu próprio universo, são os elementos mais básicos encontrados em qualquer distopia: a classe oprimida, a elite opressora, o movimento underground de resistência e a figura de autoridade que representa o sistema. Tudo minimamente justificado com explicações banais típicas de novela.

Visualmente a série perde feio. Toda a trama se passa entre o Parque Ibirapuera e uma escadaria do Itaquerão. O cenário é tão repetitivo que aguentar manter os olhos focados na série deveria ser a etapa final para passar no maldito Processo.

É bem evidente que a série apostou no clássico complexo de vira-lata para tentar ganhar credibilidade no famigerado joguinho do “feito pela primeira vez” para se blindar sobre qualquer crítica em relação à sua qualidade duvidosa. Isto fica especialmente claro nas discussões alegóricas de desigualdade no país que têm a mesma desenvoltura intelectual de um debate acalorado de grêmio de faculdade de humanas.

Vale a pena? Explorar um futuro destruído no Brasil, frente a todos os problemas enfrentados por nossa sociedade atualmente deveria servir de campo fértil para tecer uma trama envolvente e marcante, mas infelizmente 3% parece mais uma tentativa de criar uma versão nacional de Black Mirror para passar no horário nobre da Rede Record.

Até a próxima!

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Editor-chefe da Freakpop. Adora cinema, mas odeia a palavra cinéfilo. Leu quadrinhos demais na vida e tem uma capacidade muito limitada de entender a realidade. Tudo que não explica com Máquina Mortífera, explica com Highlander. Sabe tudo sobre Soul Reaver e Crônicas de Gelo e Fogo. Seu signo é estegossauro.

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