Vamos falar de Capitão America

Apesar de sua extremamente longa e celebrada existência, poucos personagens causam tantos comentários de revoltado que o Capitão América. Fãs de quadrinhos têm o privilégio de acompanhar grandes sagas...

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Apesar de sua extremamente longa e celebrada existência, poucos personagens causam tantos comentários de revoltado que o Capitão América. Fãs de quadrinhos têm o privilégio de acompanhar grandes sagas do personagem nas HQs, mas quando o pobre coitado ressurgiu no consciente coletivo graças a seus filmes, foi chamado até de “fascista” – o xingamento favorito de vítimas de tabagismo na gravidez. Por um lado, é óbvio o que causaria revolta em leigos, afinal, estamos falando da manifestação heroica do simbolismo de um país que não pode exatamente se gabar de ganhar muitos concursos de popularidade, mas aí é que está o brilhantismo do personagem.

O bandeiroso Steve Rogers, como todos já sabem, passa por um doloroso processo que o transforma de garoto franzino para sonho de consumo dos fãs da Cozinha Monstro. Um processo, que ironicamente, o transforma na figura ideal perfeita da raça ariana, um homem enorme, loiro e no ápice das capacidades físicas e mentais. E qual foi a primeira coisa que esta fantasia erótica de Hitler fez quando foi introduzida ao público?

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Sim, um belo soco na fuça do Führer. Não só isso, mas Rogers, especialmente nos filmes, demonstra uma sensibilidade rara para o contexto da época. Veja só seu time do Comandos Uivantes:

Captain America: The First Avenger

Pois é, um negro em uma época onde sua cor era garantia de te colocar nos pelotões mais mal equipados, um japonês em uma época onde isso garantia sua ida para um campo de concentração americano e até mesmo um francês, nacionalidade que se tornou sinônimo de covardia no consciente coletivo estados unidense.

A grande verdade, é que o Capitão América, sempre representou algo mais que seja lá o que seu governo representa em uma época específica. Assim como outro herói que vive nas miras do público, o Superman, este personagem representa o coletivo da bondade que esperamos de uma sociedade, e não o que os líderes eleitos pregam. Em Capitão América: O Soldado Invernal, acompanhamos um Steve Rogers inseguro quanto à abordagem da SHIELD sobre resolução de conflito, nas palavras dele “Vocês querem manter o mundo seguro apontando uma arma para todos.” Um comentário claro sobre as violações constitucionais do Patriot Act e as invasões de privacidade da NSA, tudo em prol da guerra ao terror.

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E não é só nas telonas que o herói mostra seu mérito. Durante a crise do governo Nixon na década de 70, o herói abandonou sua famosa identidade, já que a bandeira em seu peito não refletia mais um ideal. Na Guerra Civil nos quadrinhos, ele se tornou o símbolo da resistência, novamente, quando seu governo decidiu violar os direitos básicos de seus cidadãos.

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Pode parecer pseudo-patriotismo, mas um herói que não enxerga diferenças raciais, que ativamente questiona o abuso de poder, que se recusa a se tornar uma propaganda política ambulante e está sempre disposto a se sacrificar pelo bem maior, não é jingoísmo americano e sim o que toda pessoa do mundo sonha em ter na sociedade. É uma pena que fãs do personagem precisam sofrer as agressões gratuitas sempre que seus filmes são discutidos, afinal, é mais fácil julgar um livro pela capa do que ler sua história.

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No final das contas, comecei este texto após infindáveis vezes que tive que defender o personagem contra ataques rasos e batidos, não por causa de alguma desilusão de fanboy revoltado, mas porque somente no confortável maniqueísmo funcional dos quadrinhos, podemos nos divertir com personagens que de fato prezam por um mundo melhor acima das divisões políticas, raciais e econômicas que dividem o mundo. Em um mundo onde quase tudo é cinza, as vezes precisamos de um garoto franzino do Brooklyn para mostrar que os problemas do mundo começam a se resolver quando tomamos iniciativa própria e não somente quando cobramos os outros disso. E as vezes, nada demonstra como devemos deixar de lado o interesse próprio do que um louco que se joga em cima de uma granada.

Até a próxima!

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Editor-chefe da Freakpop. Adora cinema, mas odeia a palavra cinéfilo. Leu quadrinhos demais na vida e tem uma capacidade muito limitada de entender a realidade. Tudo que não explica com Máquina Mortífera, explica com Highlander. Sabe tudo sobre Soul Reaver e Crônicas de Gelo e Fogo. Seu signo é estegossauro.

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