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Game of Thrones perde a qualidade quando a euforia do público cresce Uma das coisas mais divertidas de fazer, enquanto acompanhamos a construção de uma obra gigantesca como As...
Game of Thrones

Game of Thrones perde a qualidade quando
a euforia do público cresce

Uma das coisas mais divertidas de fazer, enquanto acompanhamos a construção de uma obra gigantesca como As Crônicas de Gelo e Fogo, é juntar as migalhas que o autor joga aqui e ali pra construir teorias e teorias sobre o destino dos personagens. Quem nunca? Nessa série de livros, em especial, a coisa fica ainda mais divertida porque GRRM adora tirar do jogo dos tronos aquele personagem que amamos amar ou amamos odiar – ou odiamos amar, em alguns casos.

O mundo de George R.R. Martin

GRRM tem a peculiar habilidade de devolver ao leitor, ou jogar na cara mesmo, todo o pré-julgamento sobre personagens sem precisar criar caricaturas ou exagerar nos arquétipos. O autor garante profundidade (mesmo quando desenvolve personagens secundários), garantindo que todos sejam tridimensionais e motivados por necessidades convincentes. Não há maniqueísmo na criação de GRRM nem mesmo, curiosamente, quando se trata de Gelo e Fogo, afinal, a principal teoria dos leitores sobre o parentesco de Jon Snow já teve boa parte de suas peças confirmada pela HBO.

Teorias em Game of Thrones

Mas como continuar a ter prazer em elaborar essas teorias cabeludas em Game of Thrones se os roteiristas da adaptação deixaram de desenvolver as múltiplas faces de seus personagens? Eu diria que Oberyn Martell foi o último personagem tratado com o devido cuidado, tal como foi desenvolvido nos livros. De lá pra a série virou uma fan-fiction (muitas vezes divertida!) cheia de fan-service e perdeu, principalmente, o que era de mais valioso: o respeito aos personagens.

Porque sim: Ned perdeu a cabeça em decorrência de sua investigação sobre a linhagem de Joffrey (o mesmo que Jon Arryn já tinha feito); Catelyn paga o preço por ter feito Tyrion seu prisioneiro e Robb perde a guerra por romper a promessa de casamento com uma Frey. Ainda que todas essas ações pareçam corretas, personagens morrem por causa delas. Em termos narrativos, o destino desses personagens é uma maneira de GRRM respeitar o arco que construiu para cada um deles. É difícil aceitar a morte do Ned? Mas está lá muito bem construído. Do outro lado dessa disputa, estavam os Lannisters, com razões fortes que (muitas vezes) justificam os mais traiçoeiros atos cometidos por Cersei e Jaime (jogar o Bran da janela não tem justificativa, ok!). Vejamos: Cersei é uma mulher que foi usada como moeda de troca num casamento arranjado para livrar a cara do pai vira-casaca e por isso não pôde ser livre com o amor da vida. Depois disso, passou a ser estuprada pelo próprio marido que voltava dos bordéis, bêbado, todas as noites. Dá pra perceber quantos motivos a Cersei tem pra ser a personagem que é? Ela sempre agiu em defesa dos filhos, e não em troca do poder. É esse tipo de tridimensionalidade que falta na adaptação.

O “vilões”

Pegue os exemplos acima (inclua Tywin aí) e compare com Ramsay e Euron. Durante as primeiras temporadas, todos os vilões (se é que podemos assumi-los assim) eram motivados por razões compreensíveis e não por mero sadismo como foram reduzidos os explicitamente vilões caricatos Ramsay Bolton na sexta e Euron na sétima temporada. Não havia caricaturas antes e até mesmo Walder Frey e Aliser Thorne – que mais se aproximavam de caricaturas odiosas – tinham bons momentos de desenvolvimento e construção de personalidade. Puro fan-service: o público parece precisar de um vilão caricato para poder se situar na história ou capaz de não saber pra quem “torcer” – como se isso fosse necessário.

Uma diferença enorme – e que mais incomoda – entre série e livro reside no arco de alguns personagens. A série abordou aqueles que passaram de vilões malditos (como o Jaime Lannister e Sandor Clegane) a figuras em plena redenção, mas deixou de lado a inversão de personagens bons que gradativamente se tornaram vilões – ou algo muito próximo disso. Arya e Sansa são dois bons exemplos. De criança peralta a fria assassina, Arya está longe de despertar horror no público que chega a torcer por sua vingança, o que é, em minha opinião, doentio. Já Sansa, de donzela prometida ao príncipe encantado à manipuladora. Seu arco se aproxima ao de Cersei e acredito que ela caminhe para ser algo semelhante, inclusive com a possibilidade de se tornar Rainha dos Sete Reinos caso a teoria de Tyrion ser um Targaryen, ainda que bastardo, se confirme. Há de se lembrar de que Sansa ainda é casada com ele diante dos costumes e supostamente teria direito ao que Tyrion tiver no final de tudo.

Isso tudo está relacionado à estratégia narrativa de GRRM, que utiliza de pontos de vista para narrar os capítulos que seguem bem uma métrica de duas cenas distintas, tipo “Tyrion e Cersei jantaram juntos naquela noite” e “Na manhã seguinte, Tyrion se sentiu mal”. No primeiro livro, basicamente temos os PoV da família Stark, Tyrion e Dany. Com isso, o que sabemos de Cersei, por exemplo, é o que esses personagens (que são vítimas de toda a disputa) pensam ou sabem a respeito dela. Essa dinâmica foi respeitada pela série até o momento em que GRRM estava mais próximo da produção. Quando D&D e Bryan Cogman passaram a voar sozinhos, toda essa sutileza foi perdida.

Abram alas para a incoerência reinar…

E a partir daí, até mesmo personagens consolidados passaram a fazer coisas simplesmente incoerentes para tapar buracos de um roteiro mais preocupado em incluir “Dracarys” pra deleite dos fãs do sofá do que com tramas e subtramas que revelariam o que está plantado para o retorno dos dragões ao Trono de Ferro. Dragões. Vários. Note que num ato de desespero para montar a comitiva Dungeons & Dragons para enfrentar o Rei da Noite, os roteiristas simplesmente ignoraram que Clegane é incapaz de olhar para o fogo e o fizeram enxergar o futuro. É óbvio que o objetivo era encontrar uma razão pra ele e Dondarion estarem lá no mesmo dia e na mesma hora que Jon.

A HBO não sabe das coisas

Jon… e o Jon, hein? Alguém ainda teme que alguma coisa possa acontecer com ele? A HBO levou tão a sério o “Game” do título da série que incluíram o conceito do check point. Toda vez que Jon morre, ele recomeça o jogo dali.

Citei poucos exemplos de como Game of Thrones perdido a essência de As Crônicas de Gelo e Fogo. Voltemos aos dois primeiros parágrafos. A série não é mais tão atrativa para quem curtiu especular as tramas de Westeros e Essos, tal como uma possível nova rebelião Blackfyre liderada por Varys ou mesmo o paradeiro de pessoas exiladas depois de guerras passadas. E nem é possível especular tanto, afinal, com uma produção disposta a ignorar a construção de seus personagens em prol de um público que apenas precisa se sentir vingado, encontrar as pistas de GRRM perdeu o sentido e ficou parecendo conversa de louco.

O que aborrece não é a adaptação ser diferente, o que aborrece é ela ser ruim. E muito ruim, quando comparada ao que era antes. É preciso baixar DEMAIS o critérios críticos para ignorar os erros de andamento, direção de atores (pense nas Serpentes!) e na fórmula barata de criar caricaturas devido à mera falta de habilidade dos roteiristas para construir personagens da forma que GRRM construía.

Cuidados na direção de atores, sutilezas em planos fechados mostrando um desvio de olhar, sobreposição de planos de personagens indicando que a narrativa deles se cruzariam no futuro… Enfim. Trabalho de produção audiovisual. Reveja o primeiro episódio. Não precisa acreditar em mim.

O sexto episódio da sétima temporada foi o fundo do poço em termos de ex Machina. O fundo do poço.

A única explicação que encontro é que a massa que passou a acompanhar GOT tem o mesmo grau crítico da massa que curte novela. Não estou criticando o tipo de público, é constatação mesmo. É o tipo de público que quer reviravoltas desde que SAIBA quais são as reviravoltas. Pra gostar MUITO de GOT hoje, o espectador precisa ter aquele grau de maturidade Pica-pau: assiste repetidas vezes e fica eufórico sempre que vê a mesma coisa. Isso explica tanto vazamento, que pra mim não passa de estratégia. A HBO não perde vazando coisas: ela garante que seu noveleiro médio com baixa capacidade de interpretação volte para o canal pra ver de novo.

Já que estamos aqui, vamos até o final. Lamentando, mas até o final.

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